MANH TARDE E NOITE
SIDNEY SHELDON


Manh, Tarde e Noite

Sinopse

O universo da alta sociedade, com muita intriga e agitao  um dos
territrios preferidos de Sheldon , e onde se desenrola este romance.
Harry Stanford, um dos homens mais ricos do mundo, afoga-se quando
passeia com seu iate na costa da Crsega. Esse  o incio para uma
sucesso de fatos misteriosos e reveladores. Na leitura do testamento,
uma linda mulher surge dizendo ser filha de Harry e exige seus direitos.
Mas a trama do livro no se limita a isso. O escritor mais traduzido do
mundo e ganhador de vrios prmios ir ainda fazer revelaes que
desmascaram tambm a famlia Stanford, que por trs da fachada de uma
das mais respeitadas da Amrica esconde uma rede de chantagem, drogas e assassinatos. .. ..




Deixe que o sol da manh aquea
Seu corao quando  jovem
E deixe a brisa amena da tarde
Esfriar sua paixo,
Mas cuidado com a noite,
Pois a morte ali espreita,
Esperando, esperando, esperando.

Captulo Um

 Dmitri perguntou:
 - Sabia que estamos sendo seguidos, Sr. Stanford?
 - Sabia.
 Ele os percebera durante as ltimas 24 horas. Os dois
homens e a mulher se vestiam de uma maneira informal, tentavam
se fundir com os turistas de vero caminhando pelas ruas
caladas com pedras no incio da manh, mas era difcil
permanecer despercebido num lugar to pequeno quanto a aldeia 
fortificada de St: Paul-de-Vence.
 Harry Stanford notara-os pela primeira vez porque pareciam
informais demais, e se empenhavam demais em no olhar para
ele. Sempre que se virava, avistava um deles nas proximidades.
 Harry Stanford era um alvo fcil de seguir. Tinha mais de
1,80 metros de altura, os cabelos brancos caindo por cima da 
gola da camisa, um rosto aristocrtico, quase imperioso. 
Estava acompanhado por uma jovem morena de beleza 
extraordinria, um pastor alemo branco e Dmitri Kaminsky, um 
segurana de 1,90 metros, pescoo grosso e testa saliente.  
dificil nos perder, pensou Stanford.
 Ele sabia quem mandara aquelas pessoas e por que, 
experimentava uma sensao de perigo iminente. Aprendera h 
muito tempo a con fiar em seus nstintos. Instinto e intuio
haviam-no ajudado a se tornar um dos homens mais ricos do 
mundo. A revista Forbes calculara o valor da Stanford 
Enterprises em seis bilhes de dlares, enquanto nas 500 da 
Fortune o patrimnio fora avaliado em sete bilhes. The Wall 
Street Journal, Barron's e The Financial Times haviam 
publicado perfis de Harry Stanford, tentando explicar sua 
mstica, sua espantosa noo de oportunidade, a inefvel 
perspiccia que criara a gigantesca
Stanford Enterprises. Mas nenhum tivera pleno xito.
O ponto em que todos concordavam  que ele tinha uma
energia obsessiva, quase palpvel. Era incansvel. Sua
filosofia era simples: um dia sem fazer um negcio era um dia 
desperdiado. Esgotava seus concorrentes, seus assessores e 
todos que tinham contato com ele. Era um fenmeno, uma pessoa 
memorvel. Pensava em si mesmo como um homem religioso. 
Acreditava em Deus, e o Deus em que acreditava queria que ele
fosse rico e vitorioso, e seus inimigos mortos.
Harry Stanford era uma figura pblica, e a imprensa sabia tudo
a seu respeito. Harry Stanford era uma figura privada, e a
imprensa nada sabia a seu respeito. Haviam escrito sobre seu
carisma, seu sumptuoso estilo de vida, seu avio particular e
seu iate, e suas lendrias residncias, em Hobe Sound, 
Marrocos, Long Island, Londres, Sul da Frana, e Rose Hill, 
uma magnfica propriedade em Back Bay, na rea de Boston. Mas 
o verdadeiro Harry Stanford permanecia um enigma.
- Para onde estamos indo? - indagou a mulher
Ele estava preocupado demais para responder. O casal no
outro lado da rua usava a tcnica da mudana, e acabara de
trocar de parceiros mais uma vez. Junto com o senso de perigo,
Stanford experimentou uma raiva intensa pela invaso de sua
privacidade. Haviam ousado procur-lo naquele lugar, seu 
refgio secreto do resto do mundo.

St: Paul-de-Vence  uma pitoresca aldeia medieval, espalhando

sua magia antiga pelo alto de uma colina nos Alpes Martimos,
no interior, entre Cannes e Nice. + cercada por uma paisagem
espetacular e encantadora de colinas e vales, cobertos por
flores, pomares e florestas de pinheiros. A aldeia 
propriamente dita, uma cornucpia de estdios de pintores, 
galerias de arte e fascinantes lojas de antig_idades,  um m 
para turistas do mundo inteiro.

Harry Stanford e seu grupo entraram na Rue Grande. Ele 
virou-se para a mulher
- Sophia, gosta de museus?
- Gosto, caro.
Ela sentia-se ansiosa em agrad-lo. Jamais conhecera algum 
como Harry Stanford. Espere s at eu contar a mie
amiche sobre ele. Eu pensava que no me restava mais nada a
descobrir sobre sexo, mas ele  to criativo! E est me
deixando esgotada!

Subiram a ladeira para o museu de arte da Fundao Maeght, e
contemplaram sua renovada coleo de quadros de Bonnard, 
Chagall e vrios outros artistas contemporneos. Quando Harry
Stanford olhou ao redor, num gesto casual, divisou a mulher
parada no outro lado da galeria, parecendo concentrada num
Mir. Ele virou-se para Sophia.
- Est com fome?
- Estou, sim... se voc estiver.
No devo abusar.
- ptimo. Vamos almoar em La Colombe d'Or.
La Colombe d'Or era um dos restaurantes prediletos de
Stanford, um prdio do sculo XVI  entrada da parte velha da
aldeia, convertido em hotel e restaurante. Stanford e Sophia
ocuparam uma mesa no jardim,  beira da piscina, de onde ele
podia admirar o Braque e o Calder
Prince, o pastor alemo branco, deitou-se a seus ps, sempre
vigilante. O cachorro era a marca registrada de Stanford.
Aonde quer que ele fosse, Prince o acompanhava. Circulava o 
rumor de que o animal era capaz de dilacerar a garganta de uma 
pessoa a uma ordem de Harry Stanford. Ningum queria testar o 
rumor.
Dmitri sentou-se sozinho a uma mesa perto da entrada do hotel,
observando com toda ateno as pessoas que entravam e saam.
- Quer que eu pea para voc, minha cara? - perguntou
Stanford a Sophia.
- Por favor
Harry Stanford orgulhava-se de ser um gourmet. Pediu uma
salada verde e fricasse de lone para ambos.
Enquanto o prato principal era servido, Daniele Roux, que
dirigia o hotel com o marido, Franois, aproximou-se da mesa e
sorriu.
- Bonjour. Est tudo a seu gosto, Monsieur Stanford?
- Tudo maravilhoso, Madame Roux.
E assim seria de facto. Eles so pigmeus, tentando abater um
gigante. Tero um grande desapontamento.
- Nunca estive aqui antes - comentou Sophia. -  uma
linda aldeia.
Stanford concentrou sua ateno nela. Dmitri fora busc-la
em Nice no dia anterior


- Trouxe algum para v-lo, Sr. Stanford.
- Algum problema?
Dmitri sorrira.
- Nenhum.
Ele a vira no saguo do Hotel Negresco e a abordara.
- Com licena. Fala ingls?
- Falo.
Ajovem tinha um sotaque italiano.
- O homem para quem trabalho gostaria de convid-la
para jantar
Ela se mostrara indignada.
- No sou uma puttana! -protestara, altiva. - Sou uma
actriz.
Na verdade, ela fora figurante no ltimo filme de Pupi Avati,
e tivera um papel com um dilogo de duas frases num filme de
Giuseppe Tornatore.
- Por que eu deveria jantar com um estranho?
Dmitri tirara do bolso um bolo de notas de cem dlares.
Pusera cinco na mo dela.
- Meu amigo  muito generoso. Possui um iate, e se sente
solitrio.
Ele observara o rosto da jovem passar por uma srie de
mudanas, da indignao  curiosidade e ao interesse.
- Por acaso estou num intervalo entre filmes. - Ela
sorrira. -Provavelmente no haveria mal algum emjantar com
seu amigo.
- ptimo. Ele ficar satisfeito.
- Onde o encontrarei?
- Em St: Paul-de-Vence.

Dmitri escolhera bem. Italiana. Ao final da casa dos vinte
anos. Um rosto felino, sensual. Corpo cheio, seios firmes. 
Agora, contemplando-a atravs da mesa, Harry Stanford tomou 
uma deciso.
- Gosta de viajar, Sophia?
- Adoro.
- ptimo. Vamos fazer uma pequena viagem. E agora me
d licena por um minuto.
Sophia observou-o atravessar o restaurante at um telefone
pblico, ao lado da porta do banheiro dos homens. Stanford ps
um jeton na fenda e discou.
- Telefonista maritima, por favor
Segundos depois, uma voz disse:
- C'est l'opratrice maritime.
- Quero fazer uma ligao para o iate Blue Skies. Uisque
bravo lima nove oito zero...
A conversa durou cinco minutos. Stanford ligou em seguida
para o aeroporto de Nice. A conversa foi ainda mais curta
desta vez.
Ao terminar, Stanford foi falar com Dmitri, que no mesmo
instante deixou o restaurante. Ele voltou  mesa.
- Est pronta, Sophia?
- Estou.
- Vamos dar uma volta.
Ele precisava de tempo para formular um plano.

Era um dia perfeito. O sol tingia de rosa as nuvens no
horizonte, e rios de luz prateada corriam pelas ruas.

Eles foram andando pela Rue Grande, passaram pela glise, a 
linda igreja do sculo XV, e pararam diante da boulangerie
para comprar po fresco. Ao sarem, um dos trs vigias estava
parado l fora, fingindo admirar a igreja. Dmitri tambm os
esperava. Harry Stanford entregou o po a Sophia.
- Por que no leva isto para casa? Irei encontr-la dentro
de poucos minutos.
- Est bem. - Ela sorriu e sussurrou: - No demore,
caro.
Stanford observou-a se afastar, depois gesticulou para Dmitri.
- O que descobriu?
- A mulher e um dos homens esto hospedados em Le
Hameau, na estrada para La Colle.
Harry Stanford conhecia o lugar. Era uma casa de fazenda
caiada de branco, com um pomar, um quilmetro a oeste de
St.-Paul-de-Vence.
- E o outro?
- Em Le Mas d'Artigny.
Era uma manso provenal numa encosta, trs quilmetros
a oeste de St.-Paul-de-Vence.
- O que quer que eu faa com eles, senhor?
- Nada. Eu mesmo cuidarei deles.

A villa de Harry Stanford ficava na Rue de Casette, perto da
mairie, uma rea de ruas estreitas caladas com pedras e casas
muito antigas. Era uma casa em cinco niveis, de pedra antiga e
reboco. Nos dois niveis abaixo da sala havia uma garagem e uma
antiga cave, usada como adega. Uma escada de pedra levava ao
segundo andar, onde ficavam os quartos e o escritrio, e ao
terrao coberto. Toda a casa era mobiliada com antig_idades
francesas e cheia de flores.
Ao voltar  villa, Stanford encontrou Sophia em seu quarto, 
sua espera. Estava nua.
- Por que demorou tanto? - murmurou Sophia.

A fim de sobreviver, Sophia Matteo muitas vezes ganhava
dinheiro nos intervalos entre filmes como uma call girl, e se
acostumara a simular orgasmos para agradar aos homens. Com
aquele homem, no entanto, no havia necessidade de fingir
Stanford era insacivel, e ela se descobria a gozar vrias
vezes.
Quando finalmente ficaram esgotados, Sophia abraou-o e
sussurrou, feliz:
- Eu poderia ficar aqui para sempre, caro.
Eu bem que gostaria de poder ficar, pensou Stanford, sombrio.

Jantaram no Le Caf de la Place, na praa General de Gaulle,
perto da entrada da aldeia. Foi um jantar delicioso, e para
Stanford o perigo aumentava o sabor da refeio.
Ao terminarem, voltaram para a villa. Stanford caminhava
devagar, para ter certeza de que seus seguidores o 
acompanhavam.
+ uma hora da madrugada, um homem parado no outro lado
da rua observou as luzes na casa serem apagadas, uma a uma,
at que a escurido era total.

s quatro e meia da madrugada, Harry Stanford entrou no quarto
de hspedes, onde Sophia dormia. Sacudiu-a gentilmente.

- Sophia...
Ela abriu os olhos, fitou-o, com um sorriso de expectativa,
mas logo franziu o rosto. Stanford estava vestido. Ela
sentou-se na cama.
- Algum problema?
- No, minha querida. Est tudo bem. Voc disse que
gostava de viajar. Pois vamos fazer uma pequena viagem.
Sophia despertara por completo.
- A esta hora?
- Isso mesmo. E no devemos fazer barulho.
- Mas...
- Trate de se apressar.
Quinze minutos depois, Harry Stanford, Sophia, Dmitri e
Prince desceram a escada de pedra para a garagem no poro,
onde havia um Renault marrom. Dmitri abriu a porta da garagem
com extremo cuidado, correu os olhos pela rua. Exceto pelo
Corniche branco de Stanford, estacionado na frente da casa, a
rua parecia deserta.
- No tem ningum.
Stanford virou-se para Sophia.
- Vamos fazer uma pequena manobra. Ns dois entraremos atrs 
do Renault e deitaremo-nos no cho.
Ela arregalou os olhos.
- Por qu?
- Alguns concorrentes vm me vigiando-explicou Stanford, muito 
srio. - Estou prestes a fechar um grande negcio,
e eles tentam descobrir tudo a esse respeito. Se descobrissem, 
isso poderia me custar muito dinheiro.
- Compreendo - murmurou Sophia, sem ter a menor
idia do que se tratava.
Passaram pelos portes da aldeia cinco minutos depois, na
estrada para Nice. Um homem sentado num banco observou o
Renault marrom passar em alta velocidade. Reconheceu Dmitri
Kaminsky ao volante, com Prince ao seu lado. Ele se apressou
em pegar seu telefone celular e discou.
- Talvez tenhamos um problema - disse ele  mulher.
- Que tipo de problema?
- Um Renault marrom acaba de passar pelos portes.
Dmitri Kaminsky guiava, e o co tambm ia no carro.
- Stanford no estava no carro?
- No.
- No acredito. Seu segurana nunca o deixa  noite, e o
cachorro nunca se afasta dele em momento algum.
- O Corniche branco continua estacionado na frente da
vila? - perguntou o outro enviado para vigiar Harry Stanford.
- Continua, mas talvez ele tenha trocado de carro.
- Ou pode ser um truque. Ligue para o aeroporto.
Falaram com a torre em poucos minutos.
- O avio de Monsieur Stanford? Oui. Chegou h uma
hora, e j foi reabastecido.
Cinco minutos depois, dois membros da equipe de vigilncia
seguiam para o aeroporto, enquanto o terceiro ficava vigiando
a villa escura.

Enquanto o Renault marrom passava por La Coalle-sur-Loup,
Stanford ergueu-se para o banco.
- Podemos sentar agora, Sophia. - Ele virou-se para
Dmitri. - Aeroporto de Nice. E depressa.


Captulo Dois

Meia hora depois, no aeroporto de Nice, um Boeing
727 adaptado taxiou lentamente pela pista, at o ponto de
descolagem. No alto da torre, o controlador de vo comentou:
- Eles esto mesmo com pressa. O piloto j pediu autorizao 
para descolar trs vezes.
- De quem  o avio!
- Harry Stanford. O rei Midas em pessoa.
- Deve estar a caminho de alguma reunio em que ganhar
mais um ou dois bilhes.
O controlador virou-se para monitorar a descolagem de um
Learjet, depois pegou o microfone.
- Boeing oito nove cinco Papa, aqui  o controle de partida de 
Nice. Est autorizado a descolar Cinco  esquerda. Depois da
descolagem, vire  direita para curso de um quatro zero.
O piloto e o co-piloto de Harry Stanford trocaram um olhar
aliviado. O piloto apertou o boto do microfone.
- Entendido. Boeing oito nove cinco Papa est autorizado
a descolar. Virar  direita para um quatro zero.
Um momento depois, o enorme avio disparou pela pista, e
alou vo para o cu cinzento do amanhecer. O co-piloto tornou
a falar pelo microfone:
- Controle de partida, Boeing oito nove cinco Papa est
subindo para trs mil para nivelar vo em sete zero.
O co-piloto virou-se para o piloto.
- O Velho Stanford estava mesmo com pressa de partir,
hem?
O piloto deu de ombros.
- No nos cabe especular sobre o motivo, devemos apenas
fazer e morrer. Como ele est l atrs?
O co-piloto levantou-se, foi entreabrir a porta da carlinga,
deu uma espiada.
- Descansando.

Eles telefonaram do carro para a torre do aeroporto.
- O avio do Sr Stanford... ainda est no solo?
- Non, monsieur. J descolou.
- O piloto apresentou um plano de voo?
- Claro, monsieur.
- Para onde?
- O avio segue para JFK.
- Obrigado.
O homem desligou, virou-se para seu companheiro.
- Kennedy. Teremos pessoas l para esper-lo.
Quando o Renault passou pelos arredores de Monte Carlo,
seguindo em alta velocidade para a fronteira italiana, Harry
Stanford perguntou:
- No h nenhuma possibilidade de terem nos seguido,
Dmitri?
- No, senhor. Ns os despistamos.
- ptimo.
Harry Stanford recostou-se no banco e relaxou. No havia
mais nada com que se preocupar. Eles seguiriam a pista do
avio.
Stanford avaliou a situao. Era de facto uma questo do que
sabiam e de quanto sabiam. Eram como chacais seguindo a trilha

de um leo, na expectativa de abat-lo. Harry Stanford sorriu
para si mesmo. Haviam subestimado o homem com quem lidavam. 
Outros que tinham cometido o mesmo erro acabaram
pagando caro por isso. Algum tambm pagaria desta vez. Ele
era Harry Stanford, confidente de presidentes e reis, bastante
rico e poderoso para quebrar as economias de uma dzia de
pases. Mesmo assim...

O 727 sobrevoava Marselha. O piloto falou pelo microfone:
- Marselha, Boeing oito nove cinco Papa est com vocs,
subindo nvel de vo de um nove zero para nvel de vo dois
trs zero.
- Entendido.

O Renault chegou a San Remo pouco depois do amanhecer. Harry
Stanford tinha lembranas afetuosas da cidade, mas as mudanas
haviam sido drsticas. Ele recordou um tempo em que era uma
cidade elegante, com hotis e restaurantes de primeira classe,
um cassino em que se exigia o traje a rigor, e no qual se 
podia perder ou ganhar fortunas em uma noite. San Remo 
sucunbira agora ao turismo, com clientes idosos jogando em 
mangas de camisa.
O Renault se aproximava da enseada, a dezanove quilmetros da 
fronteira franco-italiana. Havia duas marinas ali, a
Marina Porto Sole, a leste, e a Porto Communale, a oeste. Em
Porto Sole, um atendente da marina orientava a atracao. Em 
Porto Communale, no havia nenhum atendente.
- Qual das duas? - indagou Dmitri.
- Porto Communale - determinou Stanford.
Quanto menos pessoas por perto, melhor.
- Certo, senhor.
Cinco minutos depois, o Renault parou ao lado do Blue
Skies, o iate de 180 ps. O comandante Vacarro e a tripulao
de doze pessoas estavam alinhados no convs. O comandante 
desceu apressado pela prancha para cumprimentar os 
recm-chegados.
- Bom dia, Signor Stanford - disse o comandante Vacarro. - 
Levaremos sua bagagem para bordo e...
- No tenho bagagem. Vamos partir logo.
- Certo, senhor.
- Espere um instante. - Stanford observava os tripulantes. 
Franziu o rosto. - O homem na extremidade. Ele  novo,
no  mesmo?
- , sim, senhor. Nosso camaroteiro ficou doente em Capri
e contratamos este. Ele foi bastante...
- Dispense-o - ordenou Stanford.
O comandante ficou perplexo.
- Dispens-lo?
- Pague uma indenizao. E vamos partir o mais depressa
possvel.
Vacarro acenou com a cabea.
- Pois no, senhor.
Harry Stanford olhou ao redor, com um renovado senso de
pressgio. Quase podia apalpar o perigo no ar. No queria 
estranhos por perto. O comandante Vacarro e sua tripulao o
serviam h anos. Podia confiar neles. Stanford virou-se para
fitar a moa. Como Dmitri a escolhera ao acaso, no havia 
perigo ali.

E quanto a Dmitri, seu fiel segurana j salvara a vida dele
mais de uma vez. Stanford virou-se para Dmitri.
- Fique perto de mim.
- Pois no, senhor
Stanford pegou Sophia pelo brao.
- Vamos embarcar, minha querida.

Dmitri Kaminsky parou no convs, observando a tripulao se
preparar para zarpar. Esquadrinhou a enseada, mas nada avistou
que pudesse alarm-lo. quela hora da manh, quase no havia
atividade. Os enormes geradores do iate comearam a funcionar
O comandante se aproximou de Harry Stanford.
- Ainda no informou para onde vamos, Signor Stanford.
- No, comandante, no informei, no  mesmo? - Ele
pensou por um instante. - Portofino.
- Certo, senhor
- E antes que eu me esquea, quero que mantenha um
rigoroso silncio de rdio.
O comandante Vacarro franziu o rosto.
- Silncio de rdio? Est bem, senhor, mas se...
Harry Stanford interrompeu-o:
- No se preocupe, apenas faa o que estou mandando. E
no quero ningum usando os telefones por satlite.
- Certo, senhor. Vamos parar em Portofino?
- Eu o avisarei quando chegar a ocasio, comandante.

Harry Stanford levou Sophia numa excurso pelo iate. Era um
dos seus bens mais prezados, e ele gostava de mostr-lo. E era
sem dvida uma embarcao espetacular. Tinha uma luxuosa sute 
principal, com uma sala de estar e um escritrio. O
escritrio era espaoso e confortvel, com um sof, vrias
poltronas, e uma escrivaninha, por trs da qual havia 
equipamentos suficientes para se administrar uma cidade 
pequena. Na parede havia um enorme mapa eletrnico, com um 
pequeno barco em movimento indicando a atual posio do iate. 
Portas de vidro corredias se abriam da sute para um deque, 
onde havia uma chaise longue e uma mesa com quatro cadeiras. 
Uma balaustrada de teca se estendia por toda a parte externa. 
Nos dias mais aprazveis, Stanford tinha o hbito de comer o 
desjejum ali.
Havia seis camarotes para hspedes, cada um com painis de
seda pintados  mo, janelas panormicas e um banheiro com
hidromassagem. A enorme biblioteca era toda em accia
havaiana.
A sala de jantar podia alojar dezasseis convidados. Havia um
salo de recreao todo equipado no convs inferior. O iate
continha ainda uma adega e um pequeno cinema. Harry Stanford
tinha uma das maiores colees de filmes pornogrficos do
mundo. Os mveis por todo o iate eram refinados, e os quadros
poderiam ser o orgulho de qualquer museu.
- J viu a maior parte - disse Stanford a Sophia, ao final
da excurso. - Mostrarei o resto amanh.
Ela estava impressionada.
- Nunca vi nada parecido! ...  como uma cidade!
Harry Stanford sorriu pelo entusiasmo da jovem.
- O camaroteiro a levar  sua cabine. Fique  vontade.
Tenho algum trabalho a fazer.


Harry Stanford voltou ao escritrio e verificou o mapa
eletrnico na parede, para ver a localizao do iate. O Blue 
Skies se encontrava no mar da Ligria, seguindo para nordeste. 
Eles no sabem para onde fui, pensou ele. Estaro me esperando 
no JFI. Quando chegarmos a Portofino, acertarei tudo.

A dez mil metros de altitude, o piloto do 727 estava recebendo
novas instrues.
- Boeing oito nove cinco Papa, tem curso livre direto para
Delta ndia Novembro, nivelado em doze, de acordo com plano
de vo.
- Entendido. Boeing oito nove cinco Papa tem curso livre
directo Dinard, nivelado em doze, conforme plano de vo. - Ele
virou-se para o co-piloto. Tudo certo.
O piloto esticou-se, levantou-se, foi at  porta da carlinga.
Olhou para a cabine.
- Como est nosso passageiro? - indagou o co-piloto.
- Ele me parece faminto.

Captulo Trs

A costa da Li ria  a Riviera Italiana estendendo-se
num semicrculo da fronteira franco-italiana, passando por 
Gnova, e continuando pelo golfo de La Spezia. A linda faixa
costeira e suas guas cintilantes contm os portos histricos
de Portofino e Vernazza, e mais alm se situam Elba, Sardenha 
e Crsega.
O Blue Skies aproximava-se de Portofino, que mesmo 
distncia era uma vista impressionante, as encostas cobertas
por oliveiras, pinheiros, ciprestes e palmeiras. Harry 
Stanford, Sophia e Dtnitri estavam no convs, contemplando a 
costa cada vez mais prxima.
- Visita Portofino com frequncia? - indagou Sophia.
- De vez em quando.
- Onde fica sua residncia principal?
Pessoal demais.
- Vai gostar de Portofino, Sophia.  uma linda cidade.
O comandante Vacarro aproximou-se.
- Vai almoar a bordo, Signor Stanford?
- No. Almoaremos no Splendido.
- Est certo. E devo preparar tudo para levantar ncora
logo depois do almoo?
- Acho que no. Vamos aproveitar a beleza do lugar.
O comandante Vacarro observou-o, perplexo. Num momento Harry 
Stanford tinha a maior pressa, e no instante seguinte
, parecia dispor de todo o tempo do mundo. E silncio de
rdio? Inaudito! Pazzo.

Assim que o Blue Skies ancorou na enseada, Stanford, Sophia e
Dmitri seguiram para terra na lancha do iate. O pequeno porto
era encantador, com uma ampla variedade de lojas fascinantes
e tranorie ao ar livre, ao longo da rua principal, que subia
pela colina. Aproximadamente uma dzia de pequenos barcos 
pesqueiros estavam parados na praia de seixos. Stanford 
virou-se para Sophia.
- Almoaremos no hotel no alto da colina. A vista l de
cima  espetacular.
Ele acenou com a cabea na direo de um txi estacionado
alm do cais.
- Pegue um txi at l, e irei encontr-la dentro de poucos
minutos.
Stanford entregou algumas liras a ela.
- Est bem, caro.
Ele observou-a se afastar por um momento, depois murmurou para 
Dmitri:
- Preciso dar um telefonema.
Mas no do iate, pensou Dmitri.
Eles se encaminharam para duas cabines telefnicas ao lado
do cais. Dmitri ficou esperando, enquanto Stanford entrava
numa das cabines, pegava o telefone, e inseria um carto.
- Telefonista, quero que faa uma ligao para o Banco
Unio da Sua, em Genebra.
Uma mulher seguia para a segunda cabine telefnica. Dmitri
adiantou-se, bloqueando sua passagem.
- Com licena - disse ela. - Eu...
- Estou esperando um telefonema.
Ela fitou-o, surpresa.

- Ahn...
A mulher olhou para a cabine em que Stanford estava,
esperanosa.
- No seu lugar, eu no esperaria-resmungou Dmitri. -
Ele vai demorar.
A mulher encolheu os ombros e afastou-se.
- Al?
Dmitri observava Stanford ao telefone.
- Peter? Temos um pequeno problema.
Stanford fechou a porta da cabine. Passou a falar muito
depressa e Dmitri no conseguiu entender o que ele dizia. Ao
final da conversa, Stanford reps o telefone no gancho, abriu 
a porta da cabine.
- Est tudo bem, Sr. Stanford? - indagou Dmitri.
- Vamos almoar.

O Splendido  a jia da coroa de Portofino, um hotel com uma
magnfica vista panormica da baa cor de esmeralda l 
embaixo. O hotel atende aos muito ricos, e zela ciumento por 
sua reputao. Harry Stanford e Sophia almoaram no terrao.
- Devo pedir por voc? - indagou Stanford. - Eles tm
algumas especialidades aqui que acho que voc vai gostar.
- Ser um prazer - murmurou Sophia.
Stanford pediu o trenette al pesto, a massa local, vitela, e
focaccia, o po salgado da regio.
- E traga-nos uma garrafa de Schram, oitenta e oito. -
Ele tornou a se virar para Sophia. - Ganhei uma medalha de
ouro no Concurso Internacional de Vinho em Londres. Sou dono
do vinhedo.
Ela sorriu.
-  um homem de sorte.
A sorte nada tinha a ver com aquilo.
- Creio que o homem foi criado para desfrutar os prazeres
gustativos oferecidos neste mundo. - Ele pegou a mo de
Sophia. - E outros prazeres tambm.
- Voc  mesmo espantoso.
- Obrigado.
Stanford sentia-se excitado por ter lindas mulheres a 
admir-lo. Aquela era jovem bastante para ser sua filha, e 
isso o excitava ainda mais.
Quando terminaram o almoo, ele fitou Sophia nos olhos,
com um sorriso.
- Vamos voltar para o iate.
- Grande idia!
Harry Stanford era um amante verstil, ardente e hbil. Seu
ego enorme o levava a se preocupar mais com satisfazer uma 
mulher do que com sua prpria satisfao. Sabia como excitar 
as zonas ergenas de uma mulher, e orquestrava o ato de amor 
numa sinfonia sensual, que projetava suas amantes a pncaros 
que nunca haviam alcanado antes.
Passaram a tarde na suite de Stanford e Sophia sentia-se 
exausta quando acabaram de fazer amor. Harry Stanford 
vestiu-se e foi falar com o comandante Vacarro na ponte de 
comando.
- Gostaria de seguir para a Sardenha, Signor Stanford?
- Vamos parar em Elba primeiro.
- Certo. Est tudo satisfatrio?
- Est, sim.

Stanfordj se sentia excitado de novo. Foi para o camarote
de Sophia.
Chegaram a Elba na tarde seguinte e ancoraram em Portoferraio.

Quando o Boeing 727 entrou no espao areo norte-americano,
o piloto fez contato com o controle de terra.
- Centro Nova York, Boeing oito nove cinco Papa est
com vocs, curso de vo dois seis zero, nvel de vo dois
quatro zero.
A voz do Centro Nova York respondeu no mesmo instante:
- Entendido. Est autorizado para um dois mil, direto JFK.
Comunique acesso em um dois sete ponto quatro.
Do fundo do avio veio um rosnado baixo.
- Quieto, Prince. Procure se comportar. J vamos tirar esse
cinto.

Havia quatro homens  espera quando o 727 pousou. Postavam-
se em posies diferentes, e assim podiam observar todas as
pessoas que desembarcassem do avio. Esperaram meia hora. O
nico passageiro a deixar o Boeing foi um pastor alemo
branco.

Portoferraio  o principal centro comercial de Elba. As lojas
so elegantes e sofisticadas, e alm da enseada os prdios do
sculo XVIII se concentram sob a cidadela construda pelo 
duque de Florena no sculo XVI.
Harry Stanford j visitara a ilha vrias vezes e de uma
estranha maneira sentia-se em casa ali. Era o lugar em que
Napoleo Bonaparte fora exilado.
- Vamos visitar a casa de Napoleo. Eu a encontrarei l.
- Ele virou-se para Dmitri. - Leve-a para a Villa dei Mulini.
- Pois no, senhor.
Stanford ficou observando Dmitri e Sophia se afastarem.
Consultou seu relgio. O tempo se esgotava. Seu avioj 
deveria ter pousado no Kennedy. Quando descobrissem que ele 
no se encontrava a bordo, a caada recomearia. Vai demorar 
algum tempo para retomarem a pista, pensou ele. A esta altura, 
tudo j ter sido resolvido. Ele foi para uma cabine 
telefnica na extremidade do cais.
- Quero uma ligao para Londres - disse ele  telefonista. - 
Barclay's Bank. Um sete um...

Meia hora depois, ele foi se encontrar com Sophia e levou-a de
volta ao porto.
- Embarque na minha frente - disse Stanford a ela. -
Preciso dar outro telefonema.
Ela observou-o se encaminhar para a cabine telefnica. Por
que ele no usa os telefones do iate?, especulou Sophia.
Dentro da cabine, Stanford estava dizendo:
- Banco Sumitomo, em Tquio...
Quinze minutos mais tarde, ao voltar ao iate, ele estava
furioso.
- Vamos passar a noite aqui? - perguntou o comandante
Vacarro.
- Vamos - respondeu Stanford, rspido. - No Vamos
seguir para a Sardenha. Agora!


A Costa Smeralda, na Sardenha,  um dos lugares mais 
requintados do Mediterrneo. A cidadezinha de Porto Cervo  um 
refgio para os ricos, uma grande parte ocupada por villas
construdas por Ali Khan.
A primeira coisa que Harry Stanford fez, assim que atracaram, 
foi procurar uma cabine telefnica.
Dmitri seguiu-o e ficou de guarda fora da cabine.
- Quero uma ligao para Banca d'Italia, em Roma...
A porta da cabine estava fechada. A conversa se prolongou
por quase meia hora. Stanford exibia uma expresso sombria
quando saiu da cabine. Dmitri se perguntou o que estaria 
acontecendo.

Stanford e Sophia almoaram na praia de Liscia di Vacca.
Stanford pediu para ambos.
- Vamos comear com malloreddus.
Flocos de massa feitos com gro de trigo duro.
- Depois, comeremos o porceddu.
Leito cozinhado com murta e louro.
- O vinho ser o Vernaccia e na sobremesa teremos sebadas.
Bolinhos fritos com recheio de queijo fresco e casca de limo
raspada, salpicados com mel amargo e acar
- Bene, signor.
O garom afastou-se, impressionado. Stanford virou-se para
Sophia, e sentiu que o corao parava de repente. Perto da
entrada do restaurante, dois homens ocupavam uma mesa, 
observando-o.
Vestiam ternos escuros ao sol do vero, e nem mesmo se davam
ao trabalho de fingir que eram turistas. Esto atrs de mim, 
ou so turistas inocentes? No devo permitir que a imaginao 
me mine, pensou Stanford. Sophia estava falando:
- Nunca perguntei antes, mas qual  o seu negcio?
Stanford estudou-a. Era revigorante a companhia de algum
que nada sabia a seu respeito.
- Sou aposentado. Apenas viajo, aproveitando o mundo.
- E viaja sozinho? - Havia uma simpatia inequvoca na
voz de Sophia. - Deve ser muito solitrio.
Ele teve de fazer um grande esforo para no soltar uma
gargalhada.
- , sim. E  por isso que me sinto contente por sua
companhia.
Sophia ps a mo sobre a dele.
- Eu tambm, caro.
Pelo canto dos olhos, Stanford viu os dois homens se 
retirarem.
Terminado o almoo, Stanford, Sophia e Dmitri voltaram 
cidade. Stanford foi para uma cabine telefnica.
- Quero falar com o Crdit Lyonnais, em Paris...
Observando-o, Sophia murmurou para Dmitri:
- Ele  um homem maravilhoso, no ?
- No h ningum igual.
- Trabalha com ele h muito tempo?
- Dois anos.
- Tem sorte.
- Sei disso.
Dmitri foi montar guarda diante da cabine telefnica. Ouviu
Stanford dizendo:
- Ren? Sabe por que estou ligando... Claro... Claro... Vai
mesmo?... Mas isso  maravilhoso! -Havia um alvio profundo

em sua voz. - No... no a. Vamos nos encontrar na Crsega...
Perfeito... Depois do nosso encontro, poderei voltar direto
para casa... Obrigado, Ren.
Stanford desligou. Pensou por um momento, sorrindo, depois 
ligou para um nmero em Boston. Uma secretria atendeu.
- Gabinete do Sr. Fitzgerald.
- Aqui  Harry Stanford. Quero falar com ele.
- Oh, Sr. Stanford! Sinto muito, mas o Sr. Fitzgerald viajou
em frias. Outra pessoa...
- No. Estou voltando para os Estados Unidos. Avise a ele
que o quero em Boston, em Rose Hill, s nove horas da manh
de segunda-feira. Mande-o levar uma cpia do meu testamento
e um escrivo.
- Tentarei...
- No tente, minha cara, faa o que estou dizendo.
Stanford desligou, e continuou dentro da cabine, a mente em
disparada. Ao sair, sua voz era calma:
- Tenho de tratar de um pequeno negcio, Sophia. V para
o Hotel Pitrizza e espere por mim.
- Est certo - murmurou ela, provocante. - No demore.
- Claro.
Os dois homens observaram-na se afastar.
- Vamos voltar ao iate - disse Stanford a Dmitri. -
Partiremos imediatamente.
Dmitri ficou surpreso.
- E ela...
- Sophia pode dar algumas trepadas para conseguir a
passagem de volta.

Ao chegarem ao Blue Skies, Harry Stanford foi directamente 
falar com o comandante Vacarro.
- Vamos para a Crsega. Agora.
- Acabo de receber o ltimo boletim meteorolgico, Signor 
Stanford. H uma grande tempestade se aproximando. Seria
melhor se esperssemos...
- Quero partir agora, comandante.
Vacarro hesitou.
- Ser uma viagem difcil, senhor.  um libeccio... o vento
sudoeste. Teremos um mar encapelado e muita chuva.
- No me importo.
A reunio na Crsega resolveria todos os problemas dele.
Stanford virou-se para Dmitri.
- Quero que providencie um helicptero para nos pegar na
Crsega e levar para Npoles. Use o telefone pblico no cais.
- Certo, senhor.
Dmitri Kaminsky voltou ao cais e entrou na cabine telef8nica.
O Blue Skies zarpou vinte minutos depois.

Captulo Quatro

Seu dolo era Dan Quayle e muitas vezes
usava seu nome como um ponto de referncia.
- No me importa o que voc diga a respeito de Quayle,
ele  o nico poltico com valores reais. Famlia... isso 
que interessa. Sem valores de familia, este pas estaria numa
crise ainda pior. Todos esses jovens vivendo juntos sem casar, 
tendo filhos ainda por cima...  chocante. No  de admirar 
que ocorram tantos crimes. Se algum dia Dan Quayle fosse 
candidato a presidente, com certeza teria meu voto.
Era uma pena que no pudesse votar por causa de uma lei
estpida, pensava ele, mas ainda assim dava seu apoio total a
Quayle.
Tinha quatro filhos: Billy, de oito anos, e as meninas, Amy,
Clarissa e Susan, de dez, doze e quatorze anos. Eram crianas
maravilhosas e sua maior alegria era passar com elas o que
chamava de tempo de qualidade. Devotava os fins de semana
por completo aos filhos. Fazia churrascos, brincava, levava-os
ao cinema e a jogos, ajudava-os com os deveres de casa. Todas
as crianas na vizinhana o adoravam. Consertava suas 
bicicletas e brinquedos, convidava para piqueniques com sua 
famlia. E Lhe deram o apelido de Papa.

Numa manh ensolarada de domingo ele estava sentado na
arquibancada, acompanhando uma partida de beisebol. Era um
dia perfeito, com um sol quente e nuvens brancas esparsas pelo
cu. Billy, o filho de oito anos, era o batedor, parecendo
muito profissional e adulto no uniforme da Pequena Liga. As 
trs filhas e a esposa de Papa sentavam-se a seu lado. Nada 
pode ser melhor do que isso, pensou ele, feliz. Por que todas 
as famlias no podem ser como a nossa?
Era o final do oitavo turno, ojogo estava empatado, todas as
bases ocupadas. Billy se encontrava na base, trs bolas, j
errara duas. Papa gritou, procurando anim-lo:
- Acabe com eles, Billy! Mande por cima da cerca!
Billy esperou pelo lanamento. Foi rpido e baixo. Billy
desferiu o golpe com o basto, e no acertou. O rbitro disse:
- Bola trs fora!
O turno acabara.
Houve gemidos e aplausos da multido de parentes e amigos. 
Billy ficou parado ali, desolado, observando os times
trocarem de lado. Papa gritou:
- Est tudo bem, filho! Voc conseguir na prxima vez!
Billy tentou forar um sorriso. John Cotton, o treinador do
time, esperava por Billy.
- Voc est fora do jogo! - anunciou ele.
- Mas, Sr. Cotton...
- Vamos logo! Saia do campo!
O pai de Billy observou num espanto magoado, enquanto o
garoto se retirava. Ele no pode fazer isso, pensou Papa. Tem
de dar outra oportunidade a Billy. Falarei com o Sr. Cotton e
explicarei tudo. Foi nesse instante que seu telefone celular
tocou.
Papa deixou tocar quatro vezes antes de atender. S uma pessoa
tinha o nmero. Ele sabe que detesto ser incomodado nos fins
de semana.
Relutante, Papa suspendeu a antena, apertou um boto, e

murmurou para o bocal:
- Al?
A voz no outro lado falou por vrios minutos. Papa escutou,
balanando a cabea de vez em quando, e disse no final:
- J entendi. Pode deixar que cuidarei de tudo.
Ele desligou e guardou o telefone.
- Est tudo bem, querido? - perguntou a esposa.
- No. Infelizmente, no. Querem que eu trabalhe no fim
de semana. E tinha planejado um bom churrasco para amanh.
A esposa pegou a mo dele e murmurou, afectuosa:
- No se preocupe com isso. Seu trabalho  mais importante.
No to importante quanto minha familia, pensou ele, 
obstinado. Dan Quayle compreenderia.
Papa sentiu que a mo comeava a comichar e coou-a com
vigor. Por que isso acontece?, especulou ele. Terei de
procurar um dermatologista um dia desses.

John Cotton era o gerente-assistente do supermercado local. Um
homem corpulento, na casa dos cinquenta anos, concordara em
dirigir o time da Pequena Liga porque seu filho era um dos 
jogadores. O time perdera naquela tarde por causa do pequeno
Billy.
O supermercado fechara e John Cotton estava no estacionamento, 
encaminhando-se para seu carro, quando um estranho se
aproximou, carregando um pacote.
- Com licena, Sr. Cotton.
- O que deseja?
- Posso lhe falar por um momento?
- O supermercado j fechou.
- No  sobre isso. Queria falar sobre meu filho. Billy
ficou transtornado porque o tirou do jogo e disse que ele no
entraria mais no time.
- Billy  seu filho? Pois lamento at que ele tenha entrado
no jogo. Billy nunca vai jogar bem.
O pai de Billy insistiu, muito srio:
- No est sendo justo, Sr. Cotton. Conheo Billy. Ele 
um bom jogador. Vai ver s. Quando ele jogar, no prximo
sbado...
- Ele no vai jogar no prximo sbado. Saiu do time.
- Mas:..
- Nada de mas.  ponto final. Agora, se no tem mais
nada...
- Tenho, sim.
O pai de Billy desembrulhou o pacote que tinha nas mos,
revelando um basto de beisebol, e acrescentou, suplicante:
- Este  o basto que Billy usou. Pode perceber que est
lascado. Assim, no  justo puni-lo porque...
- Escute aqui, no estou interessado em nenhum basto!
Seu filho est fora do time!
O pai de Billy suspirou, infeliz.
- Tem certeza de que no vai mudar de idia?
- No h a menor chance.
No instante em que Cotton estendeu a mo para a maaneta
da porta do carro, o pai de Billy acertou com o basto no
vidro traseiro, quebrando-o. Cotton fitou-o, atordoado.
- Mas... mas o que  isso?
- Estou fazendo um aquecimento - explicou Papa.
Ele tornou a erguer o basto e desta vez acertou no joelho de

Cotton, que gritou, caiu no cho, contorceu-se em dor.
- Socorro! - berrou ele. - Voc  louco!
O pai de Billy ajoelhou-se ao lado dele e disse, calmamente:
- Grite de novo e quebrarei tambm o outro joelho.
Cotton fitou-o em agonia, apavorado.
- Se meu filho no entrar no jogo no prximo sbado,
matarei voc e seu filho. Fui bem claro?
i Cotton acenou com a cabea, fazendo um
tremendo esforo para no gritar de dor.
- Ainda bem. Ah, mais uma coisa: eu no gostaria que
algum soubesse do que aconteceu aqui. Tenho amigos.
Papa olhou para o relgio. Mal lhe restava tempo para
embarcar no prximo vo para Boston.
Sua mo recomeou a comichar.

s sete horas da manh de domingo, vestindo um terno com
colete e carregando uma elegante pasta de couro,
ele passou pela Vendome, atravessou a Copley Square, e seguiu 
pela Stuart Street. Meio quarteiro depois do Park Plaza 
Castle, entrou no Boston Trust Building, e encaminhou-se para 
o guarda. Com dezenas de ocupantes no imenso prdio, no havia 
a menor possibilidade do guarda na recepo poder 
identific-lo.
- Bom dia - disse o homem.
- Bom dia, senhor. Em que posso ajud-lo?
Ele suspirou.
- Nem mesmo Deus pode me ajudar. Pensam que no tenho outra 
coisa para fazer aos domingos a no ser realizar o
trabalho que outros j deveriam ter concludo.
O guarda disse, compreensivo:
- Conheo o sentimento. - Ele empurrou para a frente
um livro de registro. - Quer assinar aqui, por favor?
O homem assinou, e seguiu para os elevadores. O escritrio
que procurava era no quinto andar. Ele subiu no elevador para
o sexto, desceu um lance de escada, foi andando pelo corredor. 
O letreiro na porta dizia RENQUIST, RENQUIST & FITZGE-RALD, 
ADVOGADOS. Ele olhou ao redor, para se certificar de
que o corredor estava mesmo vazio, depois abriu a pasta, tirou
uma pequena chave de fenda e uma ferramenta de presso.
Levou cinco segundos para abrir a porta trancada. Entrou no
escritrio e fechou a porta.
A sala de recepo era decorada ao gosto conservador 
antiquado, como convinha a uma das maiores firmas de advocacia
de Boston. O homem ficou parado ali por um momento, 
orientando-se, e logo seguiu para os fundos, at a sala de
arquivos.
Havia ali uma fileira de arquivos de ao, com etiquetas em
ordem alfabtica na frente. Ele experimentou o arquivo marcado 
R-S.
Estava trancado.
O homem tirou da pasta uma chave virgem, uma lima e um
alicate. Enfiou a chave na pequena fechadura do arquivo,
virou-a devagar, para um lado e outro. Depois de um momento, 
retirou a chave, examinou as marcas escuras. Segurou a chave 
com o alicate, e comeou a limar os pontos escuros. Tornou a 
inserira chave, repetiu o procedimento. Cantarolava baixinho, 
para si mesmo, enquanto trabalhava, e sorriu ao perceber de 
repente qual era a cano. Far Away Places.

Viajarei com minha familia em frias, pensou ele, feliz.
Frias de verdade. Aposto que as crianas vo adorar o Havat.
A gaveta do arquivo se abriu. Ele puxou-a, e demorou apenas um 
instante para encontrar a pasta que procurava. Pegou uma
pequena cmera Pentax e se ps a fotografar todo o contedo.
Acabou em dez minutos. Tirou vrios pedaos de Kleenex de
sua pasta, foi at o garrafo com gua, umedeceu-os. Voltou 
sala dos arquivos, removeu as aparas de ao do cho. Trancou o
arquivo, saiu para o corredor, trancou a porta do escritrio e
deixou o prdio.

Captulo Cinco

No mar, ao final da tarde, o comandante Vacarro foi ao
camarote de Harry Stanford.
- Signor Stanford...
- O que ?
O comandante apontou para o mapa eletrnico na parede.
- O vento est aumentando. Ao que tudo indica, o libeccio
se concentra no estreito de Bonifcio. Sugiro que procuremos
abrigo numa enseada at que...
Stanford interrompeu-o, bruscamente:
- Este  um bom barco e voc  um bom comandante.
Tenho certeza de que pode dar um jeito.
O comandante Vacarro hesitou.
- Como quiser, signor. Farei o melhor que puder.
- Tenho certeza disso, comandante.

Harry Stanford estava sentado no escritrio da sute,
planeando sua estratgia. Iria se encontrar com Ren na 
Crsega, acertaria tudo. Depois, o helicptero o levaria a 
Npoles, e ali fretaria um avio para transport-lo at 
Boston. Tudo vai dar certo, concluiu ele. S preciso de mais 
quarenta e oito horas. Apenas quarenta e oito horas.

Ele foi despertado s duas horas da madrugada pelo violento
balano do iate e o uivo do vento l fora. Stanfordj
enfrentara tempestades antes, mas aquela era a pior de todas. 
O comandante Vacarro tinha razo. Harry Stanford saiu da cama, 
teve de se apoiar na mesinha-de-cabeceira para no cair, e foi 
at o mapa na parede. O iate navegava pelo estreito de 
Bonifcio. Deveremos chegar a Ajaccio nas prximas horas, 
pensou ele. E ali estaremos sos e salvos.

Os eventos que ocorreram um pouco mais tarde, durante aquela
madrugada, tornaram-se uma questo de especulao. Os papis
espalhados pela varanda sugeriam que o vento forte soprara
outros para longe, Harry Stanford tentara peg-los, mas por
causa do balano do iate perdera o equilbrio, e cara no mar.
Dmitri Kaminsky viu-o cair na gua, e no mesmo instante pegou
o interfone.
- Homem ao mar!

#Captulo Seis

estava de mau humor. A ilha estava lotada dos estpidos
turistas de vero, incapazes de guardarem seus passaportes, 
suas carteiras e seus filhos. As queixas no haviam parado de 
fluir, durante o dia inteiro, na pequena chefatura de polcia, 
na Cours Napo-lon, 2, perto da Rue Sergent Casalonga.
- Um homem arrancou minha bolsa...
- Meu navio partiu, me deixando aqui. Minha esposa est
a bordo...
- Comprei este relgio de um homem na rua. No tem
nada dentro...
- As farmcias no tem as plulas de que preciso...
Os problemas eram interminveis...
E tudo indicava que o capito tinha agora um cadver em
suas mos.
- No tenho tempo para isso agora - disse ele, rspido.
- Mas os homens esperam l fora - informou seu assistente. - O 
que devo lhes dizer?
O capito Durer estava impaciente, ansioso para ir se 
encontrar com a amante. Seu impulso foi dizer "Levem o
corpo para outra ilha", mas no podia fazer isso,j que era o 
chefe de polcia, ali.
- Est bem. - Ele suspirou. - Vou receb-los por um
instante.
Um momento depois, o comandante Vacarro e Dmitri Kaminsky 
foram introduzidos na sala.
- Sentem-se - resmungou o capito Durer.
Os dois obedeceram.
- E agora, por favor, contem exactamente o que aconteceu.
O comandante Vacarro foi o primeiro a falar:
- No sei direito. No vi acontecer... - Ele virou-se para
Dmitri Kaminsky. - Ele  que foi testemunha. Talvez seja
melhor deix-lo explicar.
Dmitri respirou fundo.
- Foi terrvel. Trabalho... trabalhava para o homem.
- Fazendo o qu, monsieur?
- Segurana, massagista, motorista. Nosso iate foi apanhado 
pela tempestade ontem  noite. Balanava demais. Ele me
pediu para lhe fazer uma massagem, a fim de relaxar Depois,
pediu-me que buscasse uma plula para dormir. Estavam no
banheiro. Quando voltei, ele sara para a varanda, parara 
junto da amurada. A tempestade sacudia o iate. Tinha alguns 
papis na mo. Um deles escapou, e ele se inclinou para 
peg-lo, perdeu o equilbrio, caiu no mar. Ainda corri para 
tentar salv-lo, mas no havia mais nada que pudesse fazer 
Pedi ajuda. O comandante Vacarro parou o iate no mesmo 
instante. Graas aos esforos hericos do comandante, 
conseguimos encontr-lo. Mas j era tarde demais. Ele se 
afogara.
- Sinto muito.
Durer no poderia se importar menos. O comandante Vacarro 
tornou a falar:
- O vento e o mar afastaram o corpo do iate. Foi pura sorte
encontr-lo. Agora, gostaramos de uma autorizao para levar
o corpo.
- Isso no deve ser problema. - O capito ainda teria
tempo de tomar um drinque com a amante, antes de voltar para

sua casa e a esposa. - Mandarei providenciar imediatamente o
atestado de bito e o visto de sada para o corpo. '
Ele pegou um bloco e perguntou:
- O nome da vtima?
- Harry Stanford.
O capito Durer ficou imvel.
- Harry Stanford?
- Isso mesmo.
- Aqccele Harry Stanford?
- O prprio.
E o futuro do capito Durer se tornou de repente muito mais 
promissor. Os deuses haviam lanado um man em seu colo.
Harry Stanford era um mito internacional ! A notcia de sua
morte reverberaria pelo mundo inteiro e ele o capito Durer, 
tinha o controle da situao. O problema agora era como agir 
para tirar o mximo de proveito. Durer ficou pensando, com o 
olhar perdido no espao.
- Em quanto tempo pode liberar o corpo? - indagou o
comandante Vacarro.
O capito Durer fitou-o.
- Ah,  uma boa pergunta.
 Quanto tempo vai demorar para a imprensa chegar? Devo
pedir ao comandante do iate que participe da entrevista
colectiva? No. Por que partilhar a glria com ele? Cuidarei 
de tudo sozinho.
- H muito a ser feito, documentos a preparar... - Durer
suspirou, pesaroso. - Pode levar uma semana ou mais.
' O comandante Vacarro ficou consternado.
- Uma semana ou mais? Mas acabou de dizer..
- H certas formalidades que devem ser cumpridas -
; i interrompeu-o Durer, com firmeza. - Essas coisas
no podem ser precipitadas. - Ele tornou a pegar o bloco, e 
acrescentou:
- Quem  o parente mais prximo?
O comandante Vacarro olhou para Dmitri, em
busca de ajuda.
- Acho melhor verificar com os advogados dele, em
Boston.
- Os nomes?
- Renquist, Renquist e Fitzgerald.

Captulo Sete

Embora o letreiro na orta dissesse REN QUIST, REN
QUIST & GERALD, os dois Renquists h muito que
estavam mortos. Simon Fitzgerald continuava muito vivo, e aos
76 anos era o dnamo que impulsionava a firma, com sessenta
advogados trabalhando sob o seu comando. Era perigosamente
magro, com uma enorme cabeleira branca e andava com o porte
empertigado de um militar. No momento, andava de um lado
para outro, a mente em turbilho. Parou na frente de sua
secretria.
- Quando o Sr. Stanford telefonou, no deu qualquer indicao 
do que queria me falar com tanta urgncia?
- No, senhor. Ele apenas disse que queria que o senhor 
estivesse na casa dele s nove horas da manh de
segunda-feira, e que levasse seu testamento e um escrivo.
- Obrigado. Pea ao Sr. Sloane para entrar.

Steve Sloane era um dos mais inteligentes e inovadores
advogados da firma. Formado pela Faculdade de Direito de 
Harvard, na casa dos quarenta anos, era alto e esguio, tinha 
cabelos louros, olhos azuis divertidos e inquisitivos, uma 
presena tranq_ila e gentil. Era o encarregado de resolver os 
problemas mais difceis para a firma,
e a escolha de Simon Fitzgerald para assumir o comando um dia.
Se eu tivesse um filho, pensou Fitzgerald, gostaria gue fosse
como Steve. Ele observou Steve Sloane entrar na sala.
- Voc deveria estar pescando salmo na Terra Nova -
comentou Steve.
- Aconteceu uma coisa inesperada. Sente-se, Steve. Temos um 
problema.
Steve suspirou.
- Qual  a novidade?
- Um problema relacionado com Harry Stanford.
Harry Stanford era um dos clientes de maior prestgio da
firma. Meia dzia de outros escritrios de advocacia cuidavam
de vrias subsidirias da Stanford Enterprises, mas Renquist,
Renquist & Fitzgerald tratava dos negcios pessoais dele.
Exceto por Fitzgerald, nenhum outro advogado ali jamais o 
encontrara pessoalmente, mas ele era uma lenda no escritrio.
- O que Stanford fez agora? - indagou Steve.
- Ele morreu.
Steve fcou chocado.
- Ele o qu?
- Acabo de receber um fax da polcia francesa na Crsega. Ao 
que parece, Stanford caiu de seu iate ontem e morreu afogado.
- Essa no!
- Sei que voc nunca se encontrou com ele, mas eu o
representei por mais de trinta anos. Era um homem difcil.
Fitzgerald recostou-se em sua cadeira, pensando no passado.
- Na verdade, havia dois Harry Stanfords... o pblico, que
podia persuadir os passarinhos a sair da rvore do dinheiro, e
o filho da puta que sentia prazer em destruir as pessoas. Era 
um homem encantador, mas podia se virar contra voc como uma
serpente. Tinha uma personalidade dividida... era ao mesmo
tempo o encantador da serpente e a serpente.
- Parece fascinante.
- Foi h cerca de trinta anos... trinta e um, para ser mais

preciso... que ingressei nesta firma de advocacia. O velho 
Renquist atendia Stanford na ocasio. Sabe como as pessoas 
usam a expresso "maior do que a vida"? Pois Harry Stanford 
era de fato maior do que a vida, uma pessoa memorvel. Se no
existisse, no poderia ser inventado. Era um colosso. Possua
uma energia e ambio espantosas. Era um grande atleta. Lutou
boxe na universidade e foi umjogador de plo excepcional. Mas
mesmo quando jovem, Harry Stanford j era insuportvel. Foi o
nico homem que j conheci totalmente desprovido de compaixo. 
Era sdico e vingativo, tinha os instintos de um abutre.
Adorava levar seus concorrentes  falncia. Circularam rumores
de que mais de um se suicidou por causa dele.
- Ele parece um monstro.
- Por um lado, era mesmo. Por outro, fundou um orfanato
na Nova Guin e um hospital em Bombaim, dava milhes a obras
de caridade... sempre annimo. Ningum jamais sabia o que
esperar dele em seguida.
- Como Stanford se tornou to rico?
- Como esto os seus conhecimentos de mitologia grega?
- Um pouco enferrujados.
- Conhece a histria de dipo?
Steve acenou com a cabea.
- Ele matou o pai para ficar com a me.
- Certo. Pois  o caso de Harry Stanford. S que ele matou
o pai para ficar com o voto da me.
- Como assim?
- No incio dos anos trinta, o pai de Harry tinha uma
mercearia aqui em Boston. O negcio prosperou tanto que ele
abriu uma segunda, e logo tinha uma pequena rede de 
mercearias. Quando Harry concluiu os estudos, o pai o incluiu 
na empresa como scio, com um lugar na diretoria. Como eu 
disse, Harry era ambicioso. Tinha grandes sonhos. Em vez de 
comprar de fornecedores, queria que a rede cultivasse seus 
prprios legumes e frutas. Queria comprar terras, criar o 
prprio gado, fabricar suas mercadorias enlatadas. O pai 
discordava, e brigavam muito.
Fitzgerald inclinou-se para a frente.
- Foi ento que Harry teve a maior de suas idias. Disse
ao pai que queria que a companhia construsse uma rede de
supermercados para vender de tudo, de carros a mveis e seguro
de vida, com descontos, cobrando-se uma taxa de associao aos
fregueses. O pai de Harry achou que era uma loucura e rejeitou
a idia. Mas Harry no tinha a menor inteno de desistir.
Decidiu que tinha de se livrar do velho. Convenceu o pai a
tirar umas frias longas. Durante a ausncia dele, Harry 
tratou de conquistar o resto da directoria.
Steve ouvia a histria fascinado. Fitzgerald continuou:
- Ele era um brilhante vendedor e convenceu-os a aceitarem sua 
idia. Persuadiu a tia e o tio, que integravam o
conselho de administrao, a votarem com ele. E atraiu os 
demais. Levava-os para almoar, saia para caar raposa com um, 
iajogar golfe com outro. Foi para a cama com a esposa de um 
diretor que tinha influncia sobre o marido. Mas era a me 
dele quem possua o maior bloco de aces, e a ela caberia a 
deciso final. Harry convenceu-a a votar contra o marido.
- Incrvel !
- Ao voltar, o pai de Harry soube que sua famlia o afastara
da companhia.

- Por Deus!
- E tem mais. Harry no se satisfez com isso. Quando o
pai tentou entrar em sua prpria sala, descobriu que sua
entrada no prdio fora proibida. E Harry tinha apenas trinta e 
poucos anos na ocasio. Seu apelido na companhia era Homem de 
Gelo. Mas h que se fazer justia, Sozinho, Harry fez da 
Stanford Enterprises um dos maiores conglomerados de 
propriedade privada do mundo. Expandiu a companhia para 
incluir madeira, produtos qumicos, comunicaes, aparelhos 
eletrnicos, e uma quantidade excepcional de imveis. E 
terminou com todas as aes.
- Ele deve ter sido um homem extraordinrio-comentou Steve.
- E foi mesmo. Para os homens... e para as mulheres.
- Ele era casado?
Simon Fitzgerald permaneceu em silncio por um longo
momento, recordando, e depois disse:
- Harry Stanford foi casado com uma das mulheres mais
lindas que conheci. Emily Temple. Tiveram trs filhos, dois
rapazes e uma moa. Emily vinha de uma famlia importante de
Hobe Sound, Flrida. Adorava Harry, e tentou fechar os olhos
s inf delidades dele. Mas um dia foi demais para ela.
Contratara uma governanta para as crianas, uma mulher chamada 
Rosemary Nelson. Jovem e atraente. E o que a tornou ainda mais
atraente para Harry Stanford foi o fato de se recusar a ir
para a cama com ele. Isso o levou  loucura. No estava 
acostumado a rejeies. Mas quando Harry Stanford usava todo o 
seu charme, era irresistvel. Conseguiu finalmente levar 
Rosemary para a cama. Engravidou-a, e ela foi procurar um 
mdico. Infelizmente, o genro do mdico era colunista social, 
soube da histria e publicou-a. Houve um escndalo infernal. 
Voc conhece Boston. Saiu em todos os jornais. Ainda tenho os 
recortes guardados em algum lugar
- Ela abortou?
Fitzgerald balanou a cabea.
- No. Harry queria o aborto, mas ela se recusou. Tiveram
uma briga terrvel. Ele disse que a amava, queria casar com
ela. J dissera isso a dezenas de mulheres,  claro. Mas Emily
ouviu a conversa, e nessa mesma noite cometeu suicdio.
- Que coisa terrvel! O que aconteceu com a governanta?
- Rosemary Nelson desapareceu. Sabemos que teve uma
filha a quem deu o nome de Julia, no Hospital St. Joseph, em
Milwaukee. Mandou uma mensagem a Stanford, mas creio que
ele nunca se deu ao trabalho de responder. A esta altura, j
se envolvera com outra mulher. No tinha mais qualquer 
interesse por Rosemary.
- Muito simptico...
- A verdadeira tragdia foi o que aconteceu depois. As
 crianas, com toda a razo, culparam o pai pelo suicdio da

me. Tinham dez, doze e catorze anos na ocasio. Idade 
suficiente para sofrerem, mas ainda muito jovens para 
enfrentarem o pai. Passaram a odi-lo. E o maior medo de Harry 
era o de que um dia fizessem com ele o que fizera com seu pai. 
Por isso, Harry fez tudo o que podia para evitar que tal 
acontecesse. Mandou-os para colgios internos e acampamentos 
de vero diferentes, cuidou para que os filhos se encontrassem 
o mnimo possvel. No recebiam dinheiro dele. Viviam de um 
pequeno fundo de investimentos deixado pela me. Durante todo 
o tempo, Harry usou com os filhos o mtodo da vara com a 
cenoura. Estendia sua fortuna como a cenoura, e depois a 
retirava, se o desagradavam.
- O que aconteceu com as crianas?
- 'I ler  juiz em Chicago. Woodrow no faz nada.  um
playboy. Vive em Hobe Sound, joga plo e golfe. H alguns
anos, saiu com uma garonete, engravidou-a, e acabou casando
com ela, para surpresa de todos. Kendall  uma bem-sucedida
estilista de moda, casada com um francs. Vivem em Nova York.
- Fitzgerald levantou-se. - J visitou a Crsega, Steve?
- No.
- Eu gostaria que voasse at l. Esto retendo o corpo de
Harry Stanford, a polcia se recusa a liber-lo. Quero que
resolva tudo.
- Est bem.
- Se houver alguma possibilidade de partir ainda hoje...
- No tem problema. Darei umjeito.
- Obrigado.

No vo da Air France de Paris para a Crsega, Steve Sloane leu
um folheto de turismo sobre a ilha. Soube que era em grande
parte montanhosa, que sua principal cidade era o porto de
Ajaccio, e que Napoleo Bonaparte nascera ali. O folheto tinha
estatsticas interessantes, mas Steve estava totalmente
despreparado para a beleza da ilha. Quando o avio se 
aproximou da Crsega, ele avistou l embaixo um slido paredo 
de rocha
branca, que se parecia com os penhascos de Dover. Uma cena
espetacular.
O avio pousou no aeroporto de Ajaccio, e um txi levou
Steve  Cours Napolon, a rua principal, que se estendia da
Place General de Gaulle para o norte, at a estao 
ferroviria. Ele acertara que o avio ficaria de prontido 
para levar o corpo de Harry Stanford at Paris, onde o caixo 
seria transferido para outro avio, que o levaria a Boston. do 
que precisava agora era obter a liberao do corpo.
Steve mandou que o txi o deixasse no prdio da prefeitura,
na Cours Napolon. Ele subiu um lance de escada, entrou na
recepo. Um sargento uniformizado estava sentado a uma
mesa.
- Bonjour. Puis je vous aider?
- Quem est no comando aqui?
- O capito Durer
- Eu gostaria de v-lo, por favor.
- Para tratar de que assunto?
O sargento orgulhava-se de seu ingls. Steve tirou do bolso
um carto de visita.
- Sou advogado de Harry Stanford. Vim buscar o corpo
para lev-lo de volta aos Estados Unidos.
O sargento franziu o rosto.
- Espere um momento, por favor.
Ele entrou na sala do capito Durer e fechou a porta. A sala
estava apinhada, com reprteres de redes de televiso e
agncias noticiosas do mundo inteiro. Todos pareciam falar ao 
mesmo tempo.
- Capito, por que ele navegava numa tempestade quando...?
- Como pde cair de um iate no meio...?
- Mandou fazer uma autpsia?
- Quem mais estava no iate com...?

- Por favor, senhores. - O capito Durer ergueu a mo.
- Por favor, senhores, por favor.
Ele correu os olhos pela sala, observando os reprteres,
atentos a cada palavra sua, e ficou extasiado. Sempre sonhara
com momentos assim. Se eu cuidar disso direito, poderei obter 
uma grande promoo e... O sargento interrompeu seus 
pensamentos.
- Capito...
Ele sussurrou algumas palavras no ouvido de Durer, 
entregou-lhe o carto de Steve. O capito estudou o carto, 
franziu o rosto.
- No posso receb-lo agora - disse ele, bruscamente. - 
Mande-o voltar amanh, s dez horas.
- Pois no, senhor
O capito Durer ficou observando o sargento deixar a sala,
pensativo. No tinha a menor inteno de permitir que algum
o privasse de seu momento de glria. Tornou a se virar para os
reprteres, sorrindo.
- Muito bem, o que vocs querem saber?
Na recepo, o sargento disse a Sloane:
- Sinto muito, mas o capito Durer est ocupado neste
momento. Gostaria que o senhor voltasse amanh de manh, s
dez horas.
Steve Sloane ficou consternado.
- Amanh de manh? Isso  um absurdo... no quero
esperar tanto tempo.
O sargento encolheu os ombros.
- Isso  problema seu, monsieur.
Steve franziu o rosto.
- Muito bem. No tenho reserva de hotel. Pode me recomendar 
algum?
- Pois sim.  com prazer que recomendo o Colomba, na
Avenue de Paris, oito.
Steve hesitou.
- No h nenhuma possibilidade...?
- Amanh de manh, s dez horas.
Steve se retirou.
Na outra sala, Durer enfrentava feliz a barragem de perguntas 
dos reprteres. Um reprter de televiso perguntou:
- Como pode ter certeza de que foi um acidente?
Durer olhou para a lente da cmera.
- Ainda bem que houve uma testemunha desse lamentvel
incidente. O camarote de Monsieur Stanford tem uma varanda
aberta. Ao que parece, alguns papis importantes escaparam de
sua mo para essa varanda, e ele saiu correndo para
recuper-los.
Mas acabou perdendo o equilbrio e caiu no mar. Seu segurana
viu quando aconteceu, e pediu ajuda no mesmo instante. O iate
parou, e eles conseguiram recuperar o corpo.
- O que a autpsia mostrou?
- A Crsega  uma ilha pequena, senhores. No temos
condies de efetuar aqui uma autpsia completa. Mas o 
relatrio mdico diz que a causa da morte foi afogamento. 
Encontramos gua do mar nos pulmes. No havia equimoses ou 
qualquer outro sinal de aco criminosa.
- Onde est o corpo agora?
- Estamos guardando-o sob refrigerao at que seja concedida 
autorizao para levarem-no.

Um dos fotgrafos indagou:
- Importa-se que tiremos uma foto sua, capito?
Durer hesitou, por um momento dramtico.
- No. Por favor, senhores, faam o que devem.
E as cmeras foram acionadas.

O Colomba era um hotel modesto, mas impecvel e limpo, o
quarto que lhe deram era satisfatrio. A primeira providncia
de Steve foi telefonar para Simon Fitzgerald.
- Receio que vai demorar mais tempo do que eu pensava - 
anunciou ele.
- Qual  o problema?
- Burocracia. Mas falarei com o homem encarregado amanh, e 
resolverei tudo. Devo partir para Boston  tarde.
- ptimo, Steve. Tornaremos a nos falar amanh.

Steve almoou no La Fontana, na Rue Ntre Dame. Sem nada
para fazer pelo resto do dia, resolveu explorar a cidade.
Ajaccio era uma pitoresca cidade mediterrnea que ainda se
deleitava por ter sido o lugar de nascimento de Napoleo 
Bonaparte. Harry Stanford teria se identificado com Ajaccio,
pensou Steve.
Era a temporada turstica na Crsega, as ruas estavam 
apinhadas de visitantes, falando em francs, italiano, alemo 
e japons.
Naquela noite, Steve teve umjantar italiano no Le Boccaccio, e 
voltou para o hotel.
- Algum recado para mim?-perguntou ao recepcionista,
otimista.
- No, monsieur.
Steve foi se deitar, e recordou o que Simon Fitzgerald
contara sobre Harry Stanford.
Ela abortou?
No. Harry queria o aborto, mas ela se recusou. Tiveram
uma briga terrvel. Ele disse que a amava, que queria casar
com ela. J dissera isso a dezenas de mulheres,  claro. Mas 
Emily ouviu a conversa e nessa mesma noite cometeu suicdio. 
Steve se perguntou como ela se matara.
E finalmente adormeceu.

s dez horas da manh seguinte, Steve Sloane voltou ao prdio
da prefeitura. O mesmo sargento estava de planto.
- Bom dia - disse Steve.
- Bonjour, monsieur. Em que posso ajud-lo?
Steve entregou outro carto ao sargento.
- Estou aqui para falar com o capito Durer
- Um momento.
O sargento levantou-se, foi para a outra sala, fechou a porta.
O capito Durer, vestindo um imponente uniforme novo, estava
sendo entrevistado por uma equipe da RAI, a rede de televiso
da Itlia. Olhava para a cmera ao dizer:
- Quando assumi o comando do caso, minha primeira
providncia foi verificar se no havia alguma aco criminosa
i envolvida na morte de Monsieur Stanford.
! O entrevistador perguntou:
- E est convencido de que no houve nenhuma, capito?
- Absolutamente convencido. No resta a menor dvida
de que foi um lamentvel acidente.

- Bene - disse o diretor - Vamos cortar para outro
ngulo e dar um close.
O sargento aproveitou a oportunidade para entregar o carto
de Steve ao capito Durer
- Ele est l fora.
- O que h com voc? - resmungou Durer. - No
percebe que estou ocupado? Mande-o voltar amanh.
Ele acabara de receber o aviso de que havia mais uma dzia
de reprteres a caminho, inclusive de lugares to distantes
como Rssia e frica do Sul.
- Amanh.
- Sim.
- Est pronto, capito? - perguntou o diretor.
Durer sorriu.
- Estou, sim.
O sargento voltou  sala externa.
- Sinto muito, monsieur, mas o capito Durer est muito
ocupado hoje.
- E eu tambm - disse Steve, rspido. - Explique a ele
que tudo que tem de fazer  assinar um papel autorizando a
liberao do corpo do Sr. Stanford, e irei embora. No  pedir
muito, no  mesmo?
- Receio que seja. O capito tem muitas responsabilidades
e...
- Outra pessoa no pode me dar a autorizao?
- No, monsieur. S o capito tem essa autoridade.
Steve Sloane pensou por um instante, fervendo de raiva.
- Quando poderei falar com ele?
- Sugiro que tente de novo amanh de manh.
As palavras tente de novo ressoaram nos ouvidos de Steve.
- Farei isso. Soube que houve uma testemunha do acidente... o 
segurana do Sr. Stanford, Dmitri Kaminsky.
- Isso mesmo.
- Gostaria de conversar com ele. Pode me informar onde
encontr-lo?
- Austrlia.
-  um hotel?
- No, monsieur. - Havia uma certa compaixo na voz
do sargento. -  um pas.
A voz de Steve se elevou uma oitava.
- Est me dizendo que a nica testemunha da morte de
Stanford teve permisso da polcia para viajar antes que
algum pudesse interrog-la?
- O capito Durer interrogou o homem.
Steve respirou fundo.
- Obrigado.
- De nada, monsieeur.
Steve voltou ao hotel e ligou de novo para Simon Fitzgerald.
- Parece que terei de passar outra noite aqui.
- O que est acontecendo, Steve?
- Ao que tudo indica, o homem no comando  muito
ocupado.  a temporada turstica. Provavelmente ele anda 
procurando por bolsas perdidas. Mas devo sair daqui amanh.
- Mantenha contacto.

Apesar de sua irritao, Steve achou que a ilha da Crsega era
encantadora. Tinha quase 1.500 quilmetros de costa, com 
enormes montanhas de granito, que permaneciam cobertas de neve

at julho. A ilha pertencia  Itlia at ser conquistada pelos
franceses, e a combinao das duas culturas era fascinante.
Durante o jantar, na Crperie U San Carlu, ele recordou
como Simon Fitzgerald descrevera Harry Stanford. Foi o nico
homem que j conheci totalmente desprovido de compaixo. Era
sdico e vingativo...
E Steve pensou: E Harry Stanford continua a causar os
maiores problemas mesmo depois de morto.
A caminho do hotel, Steve parou numa banca de jornal para
comprar um exemplar do International Herald Tribune. A 
manchete dizia: O QUE ACONTECER COM O IMPRIO STANFORD? Ele 
pagou, e no momento em que se virava para ir
embora, avistou as manchetes de alguns outros jornais 
estrangeiros na banca. Tratou de examin-los, aturdido. Cada 
jornal tinha uma reportagem na primeira pgina sobre a morte 
de Harry Stanford, sempre com uma fotografia de um radiante 
capito Durer. Ento  isso que o mantm to ocupado! Pois ele 
vai ver.
Steve voltou  sala de recepo do gabinete do chefe de
polcia da ilha s 9:45 da manh seguinte. O sargento no se
encontrava atrs da mesa e a porta da outra sala estava 
entreaberta. Steve empurrou-a e entrou. O capito vestia outro 
uniforme,  espera das entrevistas naquela manh. Levantou os 
olhos quando Steve entrou.
- Qu'est-ce que vous faites ici? C'est un bureau priv! 
Allez-vous-en!
- Sou do New York Times - disse Steve.
Durer se animou no mesmo instante.
- Hen... entre, entre. Seu nome ...?
- Jones. John Jones.
- Posso lhe oferecer alguma coisa? Caf? Conhaque?
- Nada, obrigado.
- Sente-se, por favor. - A voz de Durer tornou-se sombria. - 
Est aqui, sem dvida, para tratar da terrvel tragdia
que ocorreu em nossa pequena ilha. Pobre Monsieur Stanford.
- Quando planeja liberar o corpo?
O capito Durer suspirou.
- Receio que isso no ser possvel por muitos e muitos
dias. H muitos formulrios a serem preenchidos, em se
tratando de um homem to importante quanto Monsieur Stanford. 
H formalidades que no podem ser omitidas, entende?
- Acho que entendo - murmurou Steve.
- Talvez dentro de dez dias. Ou duas semanas. A esta altura, o 
interesse da imprensa j ter acabado.
- Aqui est meu carto.
Steve entregou um carto ao capito Durer, que o olhou, 
surpreso.
- Ei,  um advogado! No  reprter?
- No. Sou advogado de Harry Stanford. - Steve Sloane
levantou-se. - Quero sua autorizao para levar o corpo.
- Eu bem que gostaria de conced-la logo - disse o
capito Durer, com ar pesaroso. - Infelizmente, estou com as
mos atadas. No vejo como...
- Amanh.
- Impossvel! No h condio...
- Sugiro que entre em contato com seus superiores em
Paris. A Stanford Enterprises tem vrias fbricas grandes na
Frana. Seria uma pena se nosso conselho de administrao

decidisse fechar todas e transferir suas operaes para outros
pases.
O capito Durer fitava-o aturdido.
- Eu... eu no tenho controle sobre essas coisas, monsieur.
- Mas eu tenho-garantiu Steve.-Vai providenciar para
que o corpo do Sr. Stanford seja liberado para mim amanh, ou
vai se descobrir metido numa encrenca muito maior do que pode
imaginar
Steve virou-se para sair
- Espere um instante, monsieur! Talvez dentro de uns
poucos dias eu possa...
- Amanh.
E Steve se retirou.

Trs horas mais tarde, Steve Sloane recebeu um telefonema no
hotel.
- Monsieur Sloane? Tenho uma notcia maravilhosa para
lhe dar! Consegui dar um jeito para que o corpo do Sr.
Stanford seja liberado imediatamente. Espero que compreenda 
todas as dificuldades...
- Obrigado. Um avio particular vai descolar daqui s oito
horas da manh de amanh, para nos levar de volta aos Estados
Unidos. Espero que todos os documentos necessrios j tenham
sido providenciados at l.
- Claro, monsieur. No se preocupe. Cuidarei para que...
- ptimo.
Steve desligou.
O capito Durer continuou sentado em sua cadeira, imvel, por 
um longo tempo. Merda! Mas que azar! Eu poderia ter sido uma 
celebridade pelo menos por mais uma semana.
Quando o avio levando o corpo de Harry Stanford pousou no 
Aeroporto Internacional Logan, em Boston, havia um carro
fnebre  espera. Os servios fnebres foram celebrados trs
dias depois.
Steve Sloane apresentou-se a Simon Fitzgerald.
- Ento o velho finalmente est em casa - disse Fitzgerald. - 
Vai ser um reencontro e tanto.
- Reencontro?
- Isso mesmo. Deve ser interessante. Os filhos de Harry
Stanford estaro aqui para celebrar a morte do pai.'I rler, 
Woody e Kendall.

Captulo Oito

O juiz ler Stanford tomou conhecimento do facto pela emissora 
de TV de Chicago, a WBBM. Ficou mesmerizado, o
corao disparado. Apareceu na tela uma foto do iate Blue
Skies, e um locutor dizia:
-. numa tempestade, em guas da Crsega, quando a
tragdia ocorreu. Dmitri Kaminsky, o segurana de Harry 
Stanford, foi testemunha do acidente, mas no conseguiu salvar 
seu empregador. Harry Stanford era conhecido nos crculos 
financeiros como um dos mais astutos...
Tyler continuou sentado ali, olhando para as imagens sempre
mudando, enquanto recordava... Foram as vozes alteadas que o 
acordaram, no meio da noite. Ele tinha catorze anos de idade. 
Escutou as vozes iradas por uns instantes e poucos minutos 
depois se esgueirou em silncio pelo corredor l de cima, at 
a escada. No saguo, l embaixo, sua me e seu
pai brigavam. A me gritava, e ele viu quando o pai desferiu
um tapa no rosto dela.
A imagem na televiso mudou. Apareceu uma cena de Harry
Stanford no Salo Oval da Casa Branca, apertando a mo do 
presidente Ronald Reagan.
-.. um dos esteios da nova assessoria financeira do
presidente, Harry Stanford vem tendo um papel de destaque...

Estavam jogando futebol americano nos fundos da casa. Seu
irmo, Woody, jogou a bola na direo da casa. 'I ler saiu
correndo para alcan-la. No instante em que a pegou, ouviu o
pai dizer, no outro lado da sebe:
- Estou apaixonado por voc. Sabe disso.
Ele parou, emocionado por descobrir um momento em que
o pai e a me no estavam brigando, mas logo ouviu a voz da 
governanta, Rosemary:
-  um homem casado. Quero que me deixe em paz.
E T ler sentiu de repente um enjo terrivel. Amava a me e
amava Rosemary. O pai era um estranho assustador.

Uma sucesso de fotos apareceu na tela, mostrando Harry 
Stanford com Margaret Thatcher.. presidente Mitterand... 
Mikhail Gorbatchov... O locutor dizia:
- O lendrio magnata se sentia  vontade tanto entre
operrios quanto entre os lderes mundiais.

Ele passava pela porta do escritrio do pai quando ouviu a voz
de Rosemary.
- Vou embora.
E, depois, a voz do pai.
- No vou deix-la partir. Tem de ser razovel, Rosemary.
Esta  a nica maneira pela qual voc e eu podemos...
- No vou mais escut-lo. E terei a criana.
Rosemary desaparecera em seguida.

A imagem na televiso tornou a mudar. Apareceram cenas
antigas da famlia Stanford diante de uma igreja, vendo um
caixo ser levado para um carro fnebre. O locutor dizia:
-... Harry Stanford e os filhos ao lado do caixo... O
suicdio da Sra. Stanford foi atribudo  sua sade precria.
Segundo investigadores da polcia, Harry Stanford...

No meio da noite, ele despertou de repente, sacudido pelo pai.
- Acorde, filho. Tenho uma notcia terrvel para voc.
O garoto de catorze anos comeou a tremer
- Sua me sofreu um acidente, 'I ler
Era uma mentira. O pai a matara. Ela cometera suicdio por
causa do pai e sua ligao com Rosemary.

Os jornais exploraram a tragdia. O escndalo abalou Boston, e
os tablides sensacionalistas procuraram tirar o mximo de
proveito. No havia como esconder as notcias das crianas
Stanfords. Os colegas de escola tornaram suas vidas horrveis.
Em apenas 24 horas, os trs haviam perdido as duas pessoas que
mais amavam. E o pai era o culpado.
- No me importo que ele seja nosso pai -disse Kendall,
soluando. - Eu o odeio!
- Eu tambm!
- E eu tambm!
Pensaram em fugir de casa, mas no tinham para onde ir
Decidiram se rebelar. Tyler foi incumbido de ser o porta-voz.
- Queremos um pai diferente. No queremos voc.
Harry Stanford fitou-o nos olhos e declarou, com absoluta 
frieza:
- Acho que podemos resolver esse problema.
Trs semanas depois, todos foram enviados para colgios 
internos diferentes.
 medida que os anos passavam, as crianas quase no viam
o pai. Liam a seu respeito nos jornais, viam-no na televiso, 
escoltando lindas mulheres ou conversando com celebridades,
mas s o encontravam no que ele chamava de "ocasies"
oportunidades para fotos no Natal e outros feriados, que
serviam para demonstrar como Harry Stanford era um pai 
devotado. Depois, as crianas voltavam para suas escolas ou 
acampamentos de vero diferentes, at a prxima "ocasio".

Tyler estava quase que hipnotizado pelo que assistia. Na tela
da televiso apareceram montagens de fbricas em vrias partes 
do mundo com fotografias de seu pai.
-... um dos maiores conglomerados de propriedade privada do 
mundo. Harry Stanford, que o criou, era uma lenda... A
questo que aflora nas mentes dos homens de Wall Street  a
seguinte: o que vai acontecer com essa empresa familiar agora
que seu fundador morreu? Harry Stanford deixou trs filhos,
mas no se sabe quem vai herdar a fortuna de bilhes de 
dlares que deixou, ou quem vai controlar a corporao...

Ele tinha seis anos de idade. Adorava vaguear pela imensa
casa, explorando todos os cmodos excitantes. O nico lugar 
proibido era o escritrio do pai. 'I ler sabia que reunies 
importantes se realizavam ali. Homens importantes, usando 
ternos escuros, entravam e saam constantemente, 
encontrando-se com o pai. O facto de ser proibido tornava o 
escritrio irresistvel para ele.
Um dia, quando o pai no estava em casa, Tyler decidiu
entrar no escritrio. A sala imensa era assustadora. Tyler

ficou imvel, contemplando a enorme escrivaninha, a cadeira 
estofada em couro do pai. Um dia ainda vou sentar-me nessa 
cadeira, e serei to importante quanto papai. Ele foi examinar 
a escrivaninha. Havia dezenas de papis ali. Sentou-se na 
cadeira do pai. A sensao foi maravilhosa. Agora tambm sou 
importante!
- O que est fazendo a?
Tyler levantou os olhos, aturdido. Deparou com o pai parado
na porta, exibindo uma expresso furiosa.
- Quem lhe disse que podia se sentar a essa mesa?
O menino tremia.
- Eu... eu apenas queria saber como era...
O pai avanou para ele.
- Pois nunca saber como ! Nunca mesmo! E agora saia,
e nunca mais torne a entrar aqui!
Tyler subiu correndo, em lgrimas. A me foi ao seu quarto,
abraou-o.
- No chore, querido. tudo vai acabar bem.
- No... no vai, no! - soluou Tyler. - Ele... ele me
odeia!
- No, querido, seu pai no odeia voc.
- Tudo o que fiz foi sentar-me em sua cadeira.
-  a cadeira dele, querido. E seu pai no quer que ningum
se sente nela.
Tyler no podia parar de chorar. A me aconchegou-o e
murmurou:
- Quando seu pai e eu nos casamos, Tyler, ele disse que
queria que eu fizesse parte da empresa. E me deu uma cota. Era
uma espcie de piada de famlia. Vou Lhe dar essa cota. Ficar
num fundo em seu nome. A partir de agora, voc tambm faz
parte da empresa. Est bem assim?
A Stanford Enterprises tinha apenas cem cotas, e Tyler se
tornou o orgulhoso proprietrio de uma cota. Quando soube o 
que a esposa fizera, Harry Stanford escarneceu:
- O que pensa que ele vai fazer com essa nica cota?
Assumir o controle da empresa?
Tyler desligou a televiso, mas continuou sentado ali,
ajustando-se  notcia. Experimentava uma profunda sensao de
alvio. Tradicionalmente, os filhos queriam ser bem-sucedidos 
para agradar aos pais. 'I ler Stanford ansiara em ser um 
sucesso para poder destruir o pai.
Quando jovem, tinha um sonho recorrente, de que o pai
era acusado de assassinar a me, e Tyler era incumbido de dar
a sentena. Eu o condeno a morrer na cadeira eltrica! s
vezes o sonho variava, e Tyler condenava o pai a ser 
enforcado, envenenado ou fuzilado. E os sonhos se tornaram 
quase reais.

A escola militar para a qual foi enviado era no Mississippi, e
foram quatro anos de puro inferno. Tyler detestava a
disciplina e o estilo de vida rgido. No primeiro ano, chegou 
a pensar seriamente em cometer suicdio e a nica coisa que o 
impediu de fazer isso foi a determinao de no dar essa 
satisfao ao pai. Ele matou minha me. Mas no vai me matar.
Tyler tinha a impresso de que os instrutores eram 
particularmente severos com ele, e estava certo de que o pai 
era responsvel por isso. Tyler recusou-se a permitir que a 
escola o dobrasse. Embora fosse obrigado a voltar para casa 
nos feriados, os encontros com o pai se tornaram mais e mais 
desagradveis.
O irmo e a irm tambm iam para casa nos feriados, mas
no havia qualquer sentimento fraternal. O pai destrura toda

e qualquer afinidade. Eram estranhos um para o outro, 
esperando que os feriados terminassem para poderem escapar.
Tyler sabia que o pai era multibilionrio, mas tambm sabia
que os pequenos estipndios que ele, Woody e Kendall recebiam
saiam da herana da me. Ao se tornar mais velho, Tyler se ps
a especular se teria direito  fortuna da famlia. Estava
convencido de que ele e os irmos vinham sendo enganados. 
Preciso de um advogado. Isso,  claro, seria impossvel, mas o 
pensamento subsequente era inevitvel: Vou me tornar um 
advogado.
Ao saber dos planos de Tyler, o pai disse:
- Quer ser um advogado, hem? E suponho que pensa que
lhe darei um emprego na Stanford Enterprises. Pois esquea.
No o deixarei chegar nem a um quilmetro da companhia.

Ao se formar na faculdade de direito, Tyler poderia exercer a
profisso em Boston, e por causa do nome de famlia, seria bem
recebido em dezenas de empresas. Mas preferiu manter-se longe
do pai.
Decidiu se iniciar na profisso em Chicago. Foi bastante
difcil no comeo. Recusava-se a explorar seu nome de famlia, 
e os clientes eram escassos. Os polticos de Chicago eram
controlados pela mquina partidria, e ele logo percebeu que 
seria vantajoso para umjovem advogado se envolver com a 
poderosa Associao dos Advogados do Condado de Cook. Arrumou 
um emprego no escritrio do promotor distrital. Possua uma 
mente arguta e gil, e no demorou muito para se tornar um 
elemento valioso na organizao. Atuou em processos por todos 
os crimes possveis, e seu registro de condenaes era 
fenomenal. Elevou-se depressa na hierarquia, e finalmente veio 
o dia em que recebeu sua recompensa. Foi eleito parajuiz no 
condado de Cook. Pensou que o pai agora se orgulharia dele. 
Estava enganado.
- Voc, um juiz? Pelo amor de Deus! Eu no o deixaria
julgar um concurso de bolos!
O juiz Tyler Stanford era baixo, com algum excesso de peso,
olhos penetrantes e calculistas, a boca sempre contrada numa 
expresso dura. No possuia nem um pouco do carisma ou
charme do pai. Sua caracterstica mais eminente era uma voz
profunda e sonora, perfeita para pronunciar uma sentena.
Tyler Stanford era um homem retrado, que mantinha seus
pensamentos para si mesmo. Tinha quarenta anos, mas parecia
muito mais velho. A vida era sombria demais para ajovialidade.
Seu nico hobby era o xadrez, e uma vez por semanajogava num
clube local, e sempre ganhava.
Era um jurista brilhante, muito respeitado pelos outros 
juizes, que lhe pediam conselhos com frequncia. Bem poucas
pessoas sabiam que era daquela famlia Stanford. Ele nunca
mencionava o nome do pai.
Seu gabinete ficava no vasto prdio da justia criminal do
condado de Cook, na esquina das ruas 26 e California. Era um
prdio de catorce andares, com uma ampla escadaria na frente.
O bairro era perigoso, e um cartaz na entrada anunciava: POR
ORDEM JUDICIAL, TODAS AS PESSOAS QUE ENTRAREM NESTE PRDIO 
DEVEM SE SUBMETER A UMA REVISTA.
Era ali que Tyler passava seus dias, em audincias de assalto,

arrombamento, estupro, tiroteios, drogas e homicdio. 
Implacvel em suas decises, tornou-se conhecido como o Juiz 
Draconiano. Durante o dia inteiro ouvia rus alegarem pobreza,
maus-tratos na infncia, lares desfeitos e uma centena de 
outras desculpas. No aceitava nenhuma. Um crime era um crime, 
e tinha de ser punido. E no fundo de sua mente, sempre, 
pairava a figura do pai.
Os colegas de Tyler Stanford pouco conheciam de sua vida
pessoal. Sabiam que ele tivera um casamento difcil, era agora
divorciado, morava sozinho numa casa de trs quartos, na 
Kimbark Avenue, em Hyde Park. A rea era cercada por belas 
casas antigas, porque o grande incndio de 1871, que destrura
Chicago, caprichosamente poupara o distrito de Hyde Park. No 
tinha amigos no bairro, e os vizinhos nada sabiam a seu 
respeito.
Tinha uma empregada que vinha trs vezes por semana, mas o 
prprio 'I ler fazia as compras. Era metdico, com uma rotina 
fixa. Aos sbados, ia a Harper Court, um pequeno centro 
comercial perto de sua casa, ou para o Mr. G's Fine Foods, ou 
o Medici's na rua 57.

' De vez em quando, em funes oficiais, Tyler se
encontrava com as esposas de colegas. Todas sentiam que ele 
era um homem solitrio, e se ofereciam para apresent-lo a 
amigas, ou convidavam-no para jantar. Tyler sempre recusava.
- Estarei ocupado nessa noite.
Suas noites pareciam movimentadas, mas ningum tinha a
menor idia do que fazia.
- Tyler no se interessa por qualquer outra coisa que no
seja o direito - explicou um dos juizes  esposa. - E no quer
conhecer nenhuma mulher. Ouvi dizer que teve um pssimo
casamento.
Era verdade.
Depois do divrcio, Tyler jurara para si mesmo que nunca
mais teria outro envolvimento emocional. At que conheceu
Lee, e tudo mudou subitamente. Lee tinha beleza,
sensibilidade e afeto... a pessoa com quem Tyler queria passar 
o resto de sua vida. Tyler atinava com Lee, mas por que Lee 
haveria de am-lo? Um sucesso como modelo, Lee tinha dezenas 
de admiradores, muitos dos quais eram ricos. E Lee gostava de 
coisas caras.
Tyler sentiu que sua causa era perdida. No tinha como
competir com os outros pelo afeto de Lee. Da noite para o dia,
porm, com a morte do pai, tudo podia mudar. Talvez se
tornasse rico alm de seus sonhos mais delirantes. E poderia 
dar o mundo a Lee.

Tyler entrou na sala do presidente do tribunal.
- Keith, tenho de passar alguns dias em Boston. Problemas
de famlia. Gostaria que arrumasse algum para ficar no meu
lugar.
- Claro. Darei umjeito.
- Obrigado.
O juiz Tyler Stanford partiu para Boston  tarde. No avio,
pensou de novo nas palavras do pai naquele dia terrvel:
Conheo o seu segredo sujo.

Captulo NoVe

havia em Paris, um aguaceiro no quente ms de julho,
que fazia os pedestres correrem pelas ruas  procura de um
abrigo, ou de txis inexistentes. No auditrio de um prdio
cinza, enorme, numa esquina da Rue Faubourg St.-Honor, havia
pnico. Uma dzia de modelos seminuas corriam de um lado
para o outro, numa espcie de histeria em massa, enquanto os
atendentes arrumavam as cadeiras e os carpinteiros davam os
retoques finais na passarela. Todos gritavam e gesticulavam,
frenticos, e o nvel de barulho era angustiante.
No olho do furaco, tentando impor ordem ao caos, se 
encontrava a prpria maFtresse, Kendall Stanford Renaud.
Quatro horas antes do incio do desfile, tudo parecia 
desmoronar.
Catstrofe: John Fairchild da W chegara a Paris 
inesperadamente, e no havia um lugar reservado para ele.
Tragdia: O sistema de alto-falantes no estava funcionando.
Desastre: Lili, uma das top models, cara doente.
Emergncia: Dois dos maquiladores haviam brigado nos
bastidores, e seu trabalho ficara bastante atrasado.
Calamidade: Todas as costuras nas saias comeavam a se
desfazer.
Em outras palavras entrou Kendall, irnica, tudo est
normal.

Kendall Stanford Renaud poderia ser tomada por uma das
modelos, e houvera um tempo em que essa fora a sua profisso.
Irradiava uma elegncia meticulosa, do chignon dourado aos
escarpins de Chanel. Tudo nela, curva do brao, a tonalidade
do verniz nas unhas, o timbre de sua risada-demonstrava um
apuro bem-cuidado. O rosto, se despojado da maquilagem
esmerada, era na verdade sem atractivos, mas Kendall se 
empenhava para que ningum jamais percebesse isso... e ningum
percebia.
Ela estava em toda a parte ao mesmo tempo.
- Quem cuidou da iluminao da passarela? Ray Charles?
- Quero um fundo azul...
- O forro est aparecendo. Conserte!
- No quero as modelos fazendo os cabelos e a maquilagem na 
rea de espera. Mande Lulu arrumar um camarim para
elas!
O gerente de desfile de Kendall se aproximou apressado.
- Meia hora  tempo demais, Kendall! O desfile no deve
ter mais que vinte e cinco minutos...
Ela parou o que estava fazendo.
- O que voc sugere, Scott?
- Pode cortar algumas roupas e...
- No. Mandarei as modelos se apresentarem mais depressa.
Ela ouviu seu nome ser chamado de novo e virou-se.
- Kendall, no conseguimos localizar Pia. Quer que Tami
" troque para o casaco e cala cinza-carvo?
- No. D esse traje a Dana. E passe a roupa de gata e a
; tnica para Tami.
- E o jersey cinza-escuro?
- Monique. E cuide para que ela use as meias cinza.
Kendall olhou para o quadro em que havia fotos Polaroid
das modelos numa variedade de trajes. Quando tudo estivesse

pronto, as fotos seriam dispostas numa ordem precisa. Ela
correu os olhos experientes pelo quadro.
- Vamos trocar isto. Quero o cardig bege primeiro, depois
os separados, em seguida o jersey de seda sem alas, o longo
de tafet, os vestidos para a tarde com casacos combinando...
Dois de seus assistentes se aproximaram.
- Kendall, estamos acertando os lugares. Quer os varejistas 
juntos, ou prefere mistur-los com as
celebridades?
O outro assistente acrescentou:
- Tambm podemos misturar as celebridades com o pessoal da 
imprensa.
Kendall mal prestava ateno. H duas noites que se mantinha 
acordada, conferindo tudo, para ter certeza de que nada
sairia errado.
- Resolvam vocs mesmos - murmurou ela.
Kendall correu os olhos por toda aquela actividade frentica,
e pensou no desfile prestes a comear, nos nomes famosos no
mundo inteiro que ali estariam para aplaudir o que ela criara.
Devo agradecer a meu pai por tudo isso. Ele me disse que eu
nunca teria sucesso... Sempre soubera que queria ser uma 
estilista. Desde pequena que possua um senso natural de 
elegncia. Suas bonecas usavam as roupas mais elegantes da 
cidade. Submetia suas crianas  aprovao da me, que a 
abraava e dizia:
- Voc  muito talentosa, querida. E algum dia ser uma 
estilista muito importante.
E Kendall tinha certeza disso.
Na escola, estudou desenho grfico, desenho estrutural, 
concepes espaciais e coordenao de cores.
- O melhor caminho para comear  voc mesma se tornar
uma modelo - aconselhara um de seus professores. - Conhecer 
assim os principais estilistas, e se mantiver os olhos
bem abertos, poder aprender com todos.
Quando Kendall falara de seus sonhos ao pai, ele dissera:
- Voc, uma modelo? Deve estar brincando.

Ao terminar os estudos, Kendall voltou para Rose Hill. O pai
precisa de mim para dirigir a casa, pensou ela. Havia uma
dzia de criados, mas ningum que exercesse o comando. Como 
Harry Stanford passava a maior parte do tempo ausente, os 
criados faziam o que queriam. Kendall tentou organizar tudo. 
Programava as atividades domsticas, servia como anfitri para 
as recepes que o pai oferecia e fazia todo o possvel para 
que ele
se sentisse mais confortvel. Ansiava pela aprovao dele. Em
vez disso, sofria uma saraivada de crticas.
- Quem contratou esse cozinheiro? Livre-se dele...
- No gostei dos pratos que voc comprou. Onde est seu
bom gosto... 
- Quem lhe disse que podia redecorar meu quarto? No se
meta l...
Por mais que Kendall se esforasse, nunca era bastante bom.
E foi a crueldade autoritria do pai que acabou por lev-la a 
sair de casa. Sempre fora uma faizu7ia sem amor, e o pai no
dava a menor ateno aos filhos, a no ser para disciplin-los 
e control-los. Uma noite Kendall ouviu o pai comentar com um
visitante:

- Minha filha tem uma cara de cavalo. Vai precisar de
muito dinheiro para fisgar um pobre otrio.
Foi a gota d'gua. No dia seguinte, Kendall deixou Boston
seguindo para Nova York.

Sozinha em seu quarto no hotel, Kendall pensou: Muito bem,
aqui estou, em Nova York. Como posso me tornar uma estilista?
Como posso entrar na indstria da moda? Como posso fazer
para que algum me note? Ela se lembrou do conselho do
professor: Comearei como modelo.  o melhor caminho.
Na manh seguinte, Kendall consultou as pginas amarelas
da lista telefnica, anotou os endereos e telefones de vrias
agncias de modelos, e comeou a fazer a ronda. Tenho de ser 
franca, decidiu ela. Dir ei que s posso
ficar em carter temporrio, at me tornar uma estilista.
Ela entrou na primeira agncia da sua lista. Uma mulher de
meia-idade, por trs de uma mesa, perguntou:
- Em que posso ajud-la?
- Quero ser modelo.
- Eu tambm, minha cara. Esquea.
- Por qu?
-  alta demais.
Kendall respirou fundo.
- Gostaria de falar com a pessoa que manda aqui.
- Est olhando para ela. Sou a dona da agncia.
Ela no teve mais sucesso na meia dzia de agncias
seguintes.
- Voc  muito baixa.
- Muito magra.
- Muito gorda.
- Muitojovem.
- Muito velha.
- Tipo errado.
No final da semana, Kendall j comeava a se desesperar.
S restava mais um nome em sua lista.
A Paramount Models era a maior agncia de modelos de 
Manhattan. No havia ningum na recepo. Uma voz dizia numa
das salas:
- Ela estar disponvel na prxima segunda-feira. Mas s
pode t-la por um dia. Ela j tem compromissos firmados para 
as prximas trs semanas.
Kendall foi at  porta, deu uma espiada. Uma mulher
usando um tailleur falava ao telefone.
- Est bem. Verei o que posso fazer. -Roxanne Marinack
desligou e levantou os olhos. - Sinto muito, mas no estamos
procurando o seu tipo.
Kendall disse, desesperada:
- Posso ser qualquer tipo que quiser que eu seja. Posso ser
mais alta, ou posso ser mais baixa. Posso ser mais jovem ou
mais velha, mais magra...
Roxanne ergueu a mo.
- Espere um instante.
- Tudo o que quero  uma oportunidade. Preciso realmente
disso...
Roxanne hesitou. Havia uma ansiedade atraente na jovem,
e ela tinha um corpo gracioso. No era bonita, mas talvez, com
a maquilagem certa...
- Tem alguma experincia?

- Claro que tenho. Venho usando roupas por
toda a minha vida.
Roxanne riu.
- Muito bem, mostre-me seu portflio.
Kendall ficou aturdida.
- Meu portflio?
Roxanne suspirou.
- Ora, minha cara, nenhuma modelo que se preza anda sem
seu portflio.  a sua bblia, o que seus clientes em
potencial vo estudar. - Roxanne tornou a suspirar. - Quero 
que tire duas fotos de frente... uma sorrindo, outra sria. 
Vire-se.
- Est bem.
Kendall comeou a se virar.
- Devagar. - Roxanne estudou-a. - Nada mau. Quero
uma foto sua de mai8 ou lingerie, o que seja mais favorvel a
seu corpo.
- Trarei uma de cada - murmurou Kendall,
ansiosa.
Roxanne no pde deixar de sorrir.
- ptimo. Voc ... hen... diferente, mas pode ter uma 
oportunidade.
- Obrigada.
- No me agradea to depressa. Ser modelo para revistas
de moda no  to simples quanto parece.  um trabalho rduo.
- Estou disposta a tudo.
-  o que veremos. Vou lhe dar uma oportunidade. Eu a
levarei a alguns go-sees.
- Como?
- Um go-see  o lugar onde os clientes escolhem as novas
modelos. Haver tambm modelos de outras agncias presentes.
Parece um leilo de gado.
- Darei um jeito.
Esse foi o comeo. Kendall foi a uma dzi a de go-sees antes
que um estilista se interessasse em v-la usando suas 
criaes.
Ela estava to tensa que quase perdeu a oportunidade por falar 
demais.
- Adoro suas criaes, e acho que ficariam timas em
mim. Isto , ficariam timas em qualquer mulher. So 
maravilhosas! Mas acho que ficaro especialmente boas em mim.
Kendall se sentia to nervosa que gaguejava. O estilista
balanou a cabea, compreensivo.
-  o seu primeiro emprego, no ?
- , sim, senhor.
Ele sorriu.
- Muito bem, vou experiment-la. Como  mesmo seu
nome?
- Kendall Stanford.
Ela especulou se o estilista faria a ligao de seu nome com
a famlia Stanford famosa... mas  claro que no havia nenhuma
razo para que isso acontecesse.

Roxanne estava certa. O trabalho de modelo no era fcil.

Kendall teve de aprender a aceitar a constante rejeio, a 
comparecer a go-sees que no davam em nada, a passar semanas 
sem ter o que fazer Quando arrumava algum trabalho, ia para a 
maquilagem s seis horas da manh, terminava uma sesso 
fotogrfica, comeava outra, e muitas vezes no acabava antes 
da meia-noite.
Uma noite, depois de passar o dia inteiro numa sesso com
meia dzia de outras modelos, Kendall contemplou-se no espelho 
e soltou um gemido.
- No poderei trabalhar amanh. Vejam s como meus
olhos esto inchados!
Uma das modelos sugeriu:
- Ponha fatias de pepino sobre os olhos. Ou pode pr alguns 
saquinhos de ch de camomila em gua quente, deixe
esfriar e ajeite sobre os olhos por quinze minutos.
O inchao desaparecera pela manh.

Kendall invejava as modelos em permanente demanda. Ouvia
Roxanne combinando seus compromissos.
- Dei a Scaasi uma opo secundria sobre Michelle.
Ligue para avisar que ela estar disponvel e poderemos fechar
o contrato...
Kendall logo aprendeu a no criticar as roupas que 
apresentava. Conheceu alguns dos fotgrafos mais importantes 
no mercado, e preparou seu portflio. Carregava uma bolsa de 
modelo com os artigos bsicos necessrios - roupas, 
maquilagem, estojo para as unhas,jias. Aprendeu a secar os 
cabelos de baixo para cima, a fim de torn-los mais 
encorpados, e a acrescentar mais cachos com rolos aquecidos.
Havia muito mais a aprender. Kendall se
tornou uma das prediletas dos fotgrafos, e um deles lhe
ofereceu alguns conselhos.
- Kendall, sempre deixe as fotos sorrindo para o final da
sesso. Assim sua boca ter menos pregas.
Ela se tornava cada vez mais popular. No era a beldade
" convencional, como a maioria das modelos, mas
possua algo mais, uma elegncia graciosa.
- Ela tem classe - comentou um agente de publicidade.
E isso a resumia.
Kendall tambm se sentia solitria. Saa com um ou outro de
vez em quando, mas nenhum daqueles homens tinha maior 
importncia para ela. Trabalhava sem parar, mas sentia que no 
se encontrava mais prxima de seu objetivo do que no momento
em que chegara a Nova York. Tenho de encontrar um meio de
fazer contato com os maiores estilistas, decidiu.
- Tenho compromissos para voc nas prximas quatro semanas - 
anunciou Roxanne. - Todos a adoram.
- Roxanne...
- O que , Kendall?
- No quero mais fazer isso.
Roxanne se mostrou incrdula.
- O qu?
- Quero ser modelo de passarela.
Era a actividade a que a maioria das modelos aspirava, por ser 
a mais emocionante e lucrativa.
Roxanne parecia hesitante.
-  quase impossvel entrar nesse crculo e...
- Vou conseguir
Roxanne estudou-a em silncio por um momento.
- Est mesmo decidida, no ?
- Estou.
Roxanne acenou com a cabea.

- Muito bem. Se  isso mesmo o que voc quer, a primeira
coisa que tem de fazer  aprender a andar na viga.
- Como assim?
Roxanne explicou.

Naquela mesma tarde, Kendall comprou uma viga estreita de
dois metros de comprimento, lixou-a para remover as lascas,
estendeu-a no cho do apartamento. Caiu nas primeiras vezes
em que tentou andar sobre a viga. No vai ser fcil, concluiu
Kendall, mas vou conseguir.
Todas as manhs ela se levantava cedo, e praticava andar na
viga, nas pontas dos ps. Equilibre com a pelve. Sinta com os
dedos. Baixe o calcanhar. Dia a dia seu equilbrio melhorou.
Andava de um lado para o outro na frente de um espelho
grande, com msica tocando. Aprendeu a andar com um livro na 
cabea. Treinou trocar num instante de sapatos de tnis e
short para saltos altos e longo.
Quando achou que estava preparada, voltou a procurar Roxanne.
- Vou me expor por sua causa - disse Roxanne. -
Ungaro est procurando uma modelo de passarela. Recomendei
voc. Ele vai lhe dar uma chance.
Kendall ficou emocionada. Ungaro era um dos mais brilhantes 
estilistas do mundo.
Kendall foi participar do desfile na semana seguinte. Tentou
parecer to descontrada quanto as outras modelos.
Ungaro entregou-lhe o primeiro traje que ela apresentaria e
sorriu.
- Boa sorte.
- Obrigada.
; Quando Kendall saiu para a passarela, foi
como se tivesse feito aquilo por toda a sua vida. At mesmo as 
outras modelos ficaram impressionadas. O desfile foi um 
sucesso e daquele momento em diante Kendall passou a pertencer 
 elite. Comeou a trabalhar com os gigantes da indstria da 
moda, Yves Saint Laurent, Halston, Christian Dior, Donna 
Karan, Calvin Klein, Ralph Lauren, St. John. Era 
constantemente requisitada e viajava para desfiles no mundo 
inteiro. Em Paris, os desfiles da
haute couture ocorriam em janeiro e julho. Em Milo, os meses 
de auge eram maro, abril, maio e junho, enquanto em Tquio os
principais desfiles eram realizados em abril e outubro.
Kendall levava uma vida frentica e movimentada, mas adorava 
cada minuto.

Ela continuou a trabalhar e a aprender. Apresentava as roupas
de estilistas famosos e pensava nas mudanas que faria se 
fosse ela a estilista. Aprendeu como as roupas deveriam se 
ajustar, como os tecidos deveriam fluir em torno do corpo.
Aprendeu sobre cortes e ajustamentos, que partes do corpo as
mulheres queriam ocultar e que partes queriam mostrar. Fazia
desenhos em casa e as idias pareciam aflorar com facilidade.
At que um dia levou um portflio com seus desenhos para a
directora de compras da I. Magnin's. A diretora ficou
impressionada e perguntou:
- Quem criou estes modelos?
- Fui eu.
- So bons. Muito bons.

Duas semanas depois, Kendall comeou a trabalhar como 
assistente de Donna Karan e aprendeu o lado empresarial da
indstria da moda. Em casa, continuava a criar seus modelos.
Realizou o primeiro desfile com suas criaes um ano depois.
Foi um desastre.
Os modelos eram corriqueiros, e ningum se interessou. Ela
promoveu um segundo desfile, e ningum compareceu.
Estou na profisso errada, pensou Kendall.
Um dia voc vai se tornar uma estilista famosa.
O que estou fazendo de errado?, especulou ela.
A epifania veio no meio da noite. Kendall acordou de,
repente, ficou deitada na cama, pensando. Estou criando 
vestidos para modelos usarem. Deveria cri-los para mulheres 
reais, com empregos reais, famlias reais. Atraentes, mas
confortveis. Elegantes, mas prticos.
Kendall levou cerca de um ano para promover seu prximo
desfile, mas foi um sucesso imediato.

Kendall poucas vezes voltou a Rose Hill e as visitas foram
terrveis nessas raras ocasies. O pai no mudara. Se alguma
coisa, piorara.
- Ainda no fisgou ningum, hem? Provavelmente nunca
vai conseguir.

Foi num baile de caridade que Kendall conheceu Marc Renaud.
Ele trabalhava na seo internacional de uma corretora de Nova
York, operando com cmbio. Cinco anos mais moo do que
Kendall, era um francs atraente, alto e esguio, charmoso e
simptico. Kendall sentiu-se imediatamente atrada. Ele 
convidou-a parajantar no dia seguinte, e encerraram a noite na
cama.
Depois disso, passavam todas as noites juntos, at que Marc 
disse:
- Kendall, estou perdidamente apaixonado por voc, e
sabe disso.
- Procurei voc por toda a minha vida, Marc - murmurou
ela.
- H um problema srio. Voc  um grande sucesso. Nem
de longe ganho tanto dinheiro quanto voc. Talvez um dia...
I Kendall encostou um dedo nos lbios dele.
- Pare com isso, Marc. Voc me deu muito mais do que eu
jamais sonhei.

No dia de Natal, Kendall levou Marc a Rose Hill para 
apresent-lo ao pai.
- Vai casar com ele? - explodiu Harry Stanford. -
Ele no  ningum! S est querendo casar pelo dinheiro que 
pensa que voc vai receber!
Se Kendall precisasse de algum motivo adicional para
casar com Marc, a reao do pai seria o suficiente. Casaram
em Connecticut no dia seguinte. E o casamento com Marc
proporcionou a Kendall uma felicidade que ela jamais conhecera 
antes.
- No deve permitir que seu pai a atormente - disse ele a 
Kendall. - Durante toda a vida, ele sempre usou o dinheiro
que possui como uma arma. No precisamos do dinheiro dele.
E Kendall o amou ainda mais por isso.,"


Marc era um marido maravilhoso, gentil, atencioso e carinhoso. 
Tenho tudo, pensou Kendall, feliz. O passado est morto e 
enterrado. Ela alcanara o sucesso, apesar do pai. Dentro de 
poucas horas, o mundo da moda estaria focalizando seu talento.
A chuva parou. Era um bom pressgio.
O desfile foi espetacular. Ao final, com msica tocando e
flashes espocando, Kendall saiu para a passarela, fez uma
reverncia e recebeu uma ovao. Kendall desejou que Marc 
pudesse estar em Paris para partilhar seu triunfo, mas a 
corretora recusara-se a lhe dar uma folga.

Depois que a multido se retirou, Kendall voltou a seu
escritrio, eufrica. Seu assistente informou:
- Chegou uma carta para voc. Foi entregue por um mensageiro 
especial.
Kendall olhou para o envelope pardo, e sentiu um sbito
calafrio. Sabia do que se tratava antes mesmo de abrir. A
carta dizia:

Prezada Sra. Renaud:
Lamento inform-la que a Associao de Proteco da
Vida Selvagem passa outra vez por um perodo de dificuldades 
financeiras. Precisamos de cem mil dlares imediatamente para 
cobrir nossas despesas. O dinheiro deve ser
transferido para a conta numerada 804072-A, no banco
Crdit Suisse, em Zurique.
No havia assinatura.
Kendall ficou sentada por um longo momento, imvel,
olhando para a carta, desanimada. Nunca mais vai parar. A
chantagem continuaria para sempre. Outro assistente entrou
apressado na sala.
- Oh, Kendall, sinto muito! Acabo de ouvir a notcia
terrvel!
No posso suportar mais nenhuma noticia terrvel, pensou
Kendall.
- O que... o que aconteceu?
- A Radio-Tl Luxembourg acaba de dar a notcia. Seu
pai... est morto. Morreu afogado.
Kendall demorou um instante para absorver a notcia. E seu
primeiro pensamento foi: O que ser que o deixaria mais 
orgulhoso? Meu sucesso, ou o fato de que sou uma assassina?

Captulo Dez

Peggy Malkovich era casada com Woodrow "Woody "
Stanford h dois anos, mas os residentes de Hobe Sound ainda
se referiam a ela como "aquela garonete".
Ela servia s mesas na Rain Forest Grille quando Woody a
conhecera. Woody Stanford era o jovem dourado de Hobe
Sound. Morava na propriedade da famlia, tinha uma beleza
clssica, era encantador e gregrio, um alvo para todas as
debutantes ansiosas de Hobe Sound, Filadlfia e Long Island.
Por isso, houve um abalo ssmico quando ele casou de repente
com uma garonete de 25 anos, que nada tinha de bonita, nem
conclura o curso secundrio, e era filha de um operrio e uma
dona de casa.
Foi um choque ainda maior porque todos esperavam que
Woody casasse com Mimi Carson, uma jovem linda e inteligente, 
herdeira de uma fortuna em madeira, apaixonada por
ele.
Como regra geral, os residentes de Hobe Sound preferiam
comentar os problemas de seus criados em vez de falar sobre
seus iguais, mas no caso de Woody aquele casamento era to
afrontoso que eles abriram uma excepo. Logo se espalhou a
informao de que ele engravidara Peggy Malkovich e casara
com ela. Todos tinham certeza de qual era o pecado maior.
- Pelo amor de Deus, posso entender o rapaz engravidando
a mulher, mas no se casando com uma garonete!
" Era um caso clssico de dj vu. Vinte e
quatro anos antes, Hobe Sound fora abalada por um escndalo 
similar envolvendo os Stanfords. Emily Temple, filha de uma 
das famlias mais tradicionais da cidade, cometera suicdio 
porque seu marido engravidara a governanta dos filhos.
Woody Stanford no escondia que odiava o pai e a impresso
geral era a de que ele casara com a garonete por rancor, para
mostrar que era mais honrado do que Harry Stanford.

A nica pessoa convidada para o casamento foi o irmo de
Peggy, Hoop, que veio de avio de Nova York. Hoop era dois
anos mais velho do que Peggy e trabalhava numa padaria no
Bronx. Era alto e magro, com um rosto bexiguento e um forte
sotaque do Brooklyn.
" - Est levando uma grande garota - disse
ele a Woody, depois da cerimnia.
- Sei disso - respondeu Woody, aptico.
- Vai cuidar direito da minha irm, hem 
- Farei o melhor que puder
- Isso  bom.
Uma conversa sem nada de memorvel, entre um padeiro e
o filho de um dos homens mais ricos do mundo.
Peggy perdeu o beb quatro semanas depois do casamento.
Hobe Sound  uma comunidade das mais exclusivas, e Jupiter 
Island  a parte mais exclusiva de Hobe Sound. A ilha 
limitada a oeste pela Intracostal Waterway, e a leste pelo 
oceano Atlntico.  um refgio de privacidade - rico, 
reservado e protetor, com mais policiais per capita que quase 
qualquer outro lugar
no mundo. Seus residentes se orgulham de serem discretos. 
Guiam Taurus ou uma caminhonete, possuem pequenos barcos a 
vela, uma Lightning de dezoito ps ou uma Quickstep de 24 ps.

Se uma pessoa no nascia ali, tinha de conquistar o direito
de pertencer  comunidade de Hobe Sound. Depois do casamento 
de Woodrow Stanford com "aquela garonete", surgiu uma
dvida intensa: os residentes aceitariam a esposa em sua
sociedade?
A Sra. Anthony Pelletier, a decana de Hobe Sound, era
rbitro de todas as divergncias sociais, e a misso devota
que assumira na vida era a de proteger sua comunidade contra 
os arrivistas e novos-ricos. Quando os recm-chegados a Hobe
Sound desagradavam a Sra. Pelletier, ela tinha o costume de
mandar seu motorista Lhes entregar uma mala de couro de
viagem. Era o seu meio de inform-los que no eram bem-vindos
na comunidade.
Seus amigos tinham o maior prazer em contar a histria do
mecnico e sua esposa que compraram uma casa em Hobe
Sound. A Sra. Pelletier lhes enviara a valise de couro ritual.
Ao saber do significado, a esposa rira e garantira:
- Se aquela velha megera pensa que pode me expulsar
daqui, est completamente louca.
Mas estranhas coisas comearam a acontecer. Operrios de todos 
os tipos subitamente se tornaram indisponveis, o dono
do armazm nunca tinha as coisas que ela pedia, e foi 
impossvel entrarem para scios do Jupiter Island Club, ou 
mesmo conseguirem reservas em qualquer dos bons restaurantes 
locais. E ningum falava com eles. Trs meses depois de 
receber a mala, o casal vendeu a casa e foi embora.

Assim, quando se espalhou a notcia do casamento de Woody a
comunidade prendeu a respirao. A excomunho de Peggy
Malkovich implicaria a excomunho de seu marido, um homem
bastante popular. Fizeram-se apostas discretas.
' Durante as primeiras semanas, no houve convites para
"; jantares ou qualquer das funes habituais da comunidade. 
Mas os residentes gostavam de Woody, e no podiam esquecer que
sua av materna fora um dos fundadores de Hobe Sound. Pouco a 
pouco, as pessoas passaram a convid-lo e a
Peggy para suas casas. Estavam ansiosos em descobrir como era
sua esposa.
- A mulher deve ter algo especial ou Woody no casaria
com ela.
Mas todos tiveram um grande desapontamento. Peggy era
meio obtusa, sem a menor graa, no tinha personalidade e
vestia-se muito mal. Cafona foi a palavra que aflorou na mente
de todos. Os amigos de Woody ficaram aturdidos.
- O que ele v naquela mulher? Podia ter casado com
qualquer uma!
Um dos primeiros convites foi de Mimi Carson. Ficara
arrasada com a notcia do casamento de Woody, mas era 
orgulhosa demais para deixar transparecer. Sua maior amiga 
tentou consol-la, dizendo:
- No fique to desesperada, Mimi, Vai acabar esquecendo-o.
Ao que Mimi respondeu:
- Continuarei a viver, mas nunca vou esquec-lo.

Woody empenhou-se ao mximo para converter seu casamento num 
sucesso. Sabia que cometera um erro, e no queria punir
Peggy por isso. Tentou desesperadamente ser um bom marido.
O problema era que Peggy nada tinha em comum com ele ou

qualquer de seus amigos.
A nica pessoa com quem Peggy parecia  vontade era seu
irmo, e todos os dias falava com Hoop pelo telefone.
- Sinto saudade dele - comentou Peggy para Woody.
- Gostaria que Hoop viesse passar alguns dias conosco aqui?
- Ele no pode. - Peggy fitou o marido e acrescentou,
despeitada: - Ele tem um emprego.
Nas festas, Woody tentava incluir Peggy nas conversas, mas
logo se tornou evidente que ela nada tinha para contribuir.
Sentava-se num canto, muda, passando a lngua pelos lbios, 
nervosa, visivelmente contrafeita.

Os amigos de Woody sabiam que ele, embora morasse na
propriedade da famlia, era brigado com o pai, e vivia da
pequena penso que a me lhe deixara. Sua paixo era o plo, e 
montava os pneis de seus amigos. No mundo do plo, os 
jogadores so classificados por pontos, e o mximo  dez 
pontos. Woody tinha nove, e j jogara com Mariano Aguerre, de 
Buenos Aires, Wicky el Effendi, do Texas, Andr Diniz, do 
Brasil, e dezenas de outros jogadores destacados. S havia 
doze polistas nota dez no mundo,
e a grande ambio de Woody era se juntar ao grupo.
- Sabem porqu, no ? - comentou um dos seus amigos.
- O pai era um jogador de dez pontos.
Como sabia que Woody no tinha condies de comprar seus 
pneis para o plo, Mimi Carson adquiriu vrios para ele 
montar
Quando os amigos indagaram porqu, ela explicou:
- Quero faz-lo feliz por qualquer meio ao meu alcance.
Quando recm-chegados perguntavam o que Woody fazia
para viver, as pessoas se limitavam a encolher os ombros. Na
verdade, ele levava uma vida de segunda mo, ganhando dinheiro 
no golfe, apostando em partidas de plo, tomando emprestados 
os pneis e lanchas dos outros, e de vez em quando as esposas
tambm. O casamento com Peggy se deteriorava rapidamente, mas
Woody se recusava a admiti-lo.
- Peggy - pediu ele -, quando formos a festas, tente
participar da conversa, por favor.
- Por que deveria? Todos os seus amigos pensam que so
bons demais para mim.
- Mas no so - assegurou Woody.
Uma vez por semana, o Crculo Literrio de Hobe Sound se 
reunia no country club para uma conversa sobre os ltimos
livros publicados, seguida por um almoo.
Naquele dia em particular, enquanto as mulheres comiam, o
matre aproximou-se da Sra. Pelletier
- A Sra. Woodrow Stanford est l fora. Gostaria de participar 
do almoo.
Um silncio total se abateu sobre a mesa.
- Mande-a entrar - murmurou a Sra. Pelletier.
Peggy entrou no restaurante um momento depois. Lavara os
cabelos, passara seu melhor vestido. Parou, nervosa, olhando
para o grupo. A Sra. Pelletier acenou-lhe com a cabea e
disse, cordial:
- Sra. Stanford.
Peggy sorriu, ansiosa.
- Pois no, madame.
- No precisamos de seus servios. J temos uma garonete.

E a Sra. Pelletier voltou a se concentrar em seu almoo. Ao
saber o que acontecera, Woody ficou furioso.
- Como ela ousa fazer isso com voc? - Abraou a
esposa. - Na prxima vez, Peggy, fale comigo antes de fazer
uma coisa assim. Voc tem de ser convidada para aquele
almoo.
- Eu no sabia - disse ela, taciturna.
- No se preocupe mais. Esta noite vamos jantar nos
Blakes e quero...
- Eu no vou!
- Mas aceitamos o convite.
- V voc.
- No quero ir sem...
- Eu no vou.
Woody foi sozinho, e depois disso passou a ir a todas as
festas sem Peggy..
Chegava em casa noite alta, e Peggy tinha certeza de
que o marido andava com outras mulheres.
O acidente mudou tudo.
Aconteceu durante uma partida de plo. Woody atuava na posio 
Nmero Trs. Um jogador da equipe adversria, ao tentar
acertar na bola, bateu acidentalmente nas pernas do pnei de
Woody. O pnei caiu, rolou por cima dele. Na confuso gue se
seguiu, um segundo pnei deu um coice em Woody. No 
pronto-socorro do hospital, os mdicos diagnosticaram uma 
perna quebrada, trs costelas fracturadas e um pulmo 
perfurado.
Durante as duas semanas seguintes, Woody foi submetido a
trs operaes, e sentia uma dor terrvel. Os mdicos lhe
davam morfina para abrandar a dor. Peggy o visitava todos os 
dias.
Hoop voou de Nova York para consolar a irm.

A dor fsica era insuportvel, e Woody s encontrava alvio
nas drogas que os mdicos lhe prescreviam. Foi pouco depois de
voltar para casa que Woody pareceu mudar. Comeou a ter
violentas oscilaes de nimo. Num momento se mostrava 
exuberante como sempre, no instante seguinte se lanava num
sbito acesso de raiva ou mergulhava numa depresso profunda.
Ao jantar, rindo e contando piadas, Woody de repente se 
tornava irado, insultava Peggy, saa furioso da sala. No meio 
de uma frase vagueava para um devaneio total. Esquecia as 
coisas. Marcava '' encontros, mas no comparecia; convidava
pessoas para sua casa, mas no estava l quando elas
chegavam. Todos ficaram preocupados.
No demorou muito para que ele comeasse a insultar Peggy
em pblico. Ao levar caf para um amigo uma manh, Peggy
derramou um pouco no pires. Woody escarneceu:
- Uma vez garonete, sempre garonete.
Peggy tambm comeou a exibir sinais de maus-tratos fsicos e 
dava desculpas quando as pessoas lhe perguntavam o que
acontecera.
"Esbarrei numa porta" ou "Levei um tombo", dizia ela, e
faziapouco-caso da situao. Acomunidade se indignava. Agora, 
era de Peggy que todos sentiam pena.
Mas quando o comportamento extravagante do marido ofendia
algum, Peggy sempre o defendia.
- Woody est sob estresse - dizia ela. - No  ele

prprio.
E Peggy nunca permitia que ningum dissesse qualquer
coisa contra Woody.
Foi o Dr. Tichner quem finalmente exps o problema. Pediu a
Peggy que fosse a seu consultrio. Ela estava nervosa.
- Algum problema, doutor?
Ele estudou-a por um momento. Peggy tinha uma equimose no 
rosto, um olho inchado.
- Peggy, voc sabia que Woody anda tomando drogas?
Os olhos dela faiscaram de indignao.
- No! No acredito nisso! - Peggy levantou-se. - No
vou escutar mais nada!
- Sente-se, Peggy. Est na hora de voc enfrentar a verdade. 
Est se tornando bvio para todos. J deve ter notado o
comportamento dele. Num instante ele est no topo do mundo,
dizendo que tudo  maravilhoso, e no momento seguinte se torna 
suicida.
Ela no disse nada, apenas observava-o, muito plida.
- Woody  viciado.
Peggy contraiu os lbios.
- No , no - insistiu ela, obstinada.
- , sim. Voc tem de ser realista. No quer ajud-lo?
- Claro que quero! - Peggy retorcia as mos. - Faria
tudo para ajud-lo. Qualquer coisa!
- Pois muito bem, vamos comear. Quero que me ajude a
internar Woody num centro de reabilitao. Pedi a ele que me
procurasse.
Peggy fitou o mdico em silncio por um longo momento,
antes de acenar com a cabea.
- Falarei com ele.

Naquela tarde, ao entrar no consultrio do Dr. Tichner, Woody
estava eufrico.
- Queria me falar, doutor?  sobre Peggy, no ?
- No, Woody.  sobre voc.
Woody se mostrou surpreso.
- E qual  o meu problema?
- Acho que voc sabe qual  o seu problema.
- Mas do que est falando?
- Se continuar assim, vai destruir sua vida e a vida de
Peggy. O que anda tomando, Woody?
- Tomando?
- Voc me ouviu.
Houve um longo silncio.
- Quero ajud-lo.
Woody olhava para o cho. Ao falar, sua voz saiu rouca.
- Tem razo. Eu... tenho tentado me iludir, mas no posso
mais continuar.
- O que est tomando?
- Herona.
- Oh, Deus!
- Acredite em mim, tentei parar, mas... no consigo.
- Voc precisa de ajuda e h lugares em que pode obt-la.
Woody murmurou, cansado:
- Peo a Deus que voc esteja certo.
- Quero que voc se interne na Clnica Harbor Group, em
Jupiter. Vai tentar?
Houve uma breve hesitao.

- Vou.
- Quem est lhe fornecendo a herona?
Woody balanou a cabea.
- No posso dizer.
- Est certo. Tomarei as providncias para sua internao
na clnica.

Na manh seguinte, o Dr. Tichner foi ao gabinete do chefe de
polcia.
- Algum est fornecendo a herona, mas ele no quer me
dizer quem .
O chefe de polcia, Murphy, balanou a cabea.
- Acho que sei quem .
Havia vrios suspeitos possveis. Hobe Sound era um pequeno
enclave e todos conheciam as atividades de todos.
Uma loja de bebidas fora aberta recentemente na Bridge
Road e fazia entregas a fregueses em Hobe Sound a qualquer
hora do dia ou da noite.
Um mdico numa clnica local fora multado por receitar
drogas em excesso.
Uma academia de ginstica fora inaugurada um ano antes
no outro lado do canal e circulava o rumor de que o professor
tomava esterides e tinha outras drogas disponveis para os
seus bons clientes.
Mas Murphy tinha outro suspeito em mente.
Tony Benedotti servira como jardineiro de vrias casas em
Hobe Sound por anos. Estudara horticultura e adorava passar os
dias a criar lindos jardins. Os jardins e gramados de que
cuidava eram os mais adorveis de Hobe Sound. Era um homem 
reservado e as pessoas para quem trabalhava pouco sabiam a seu 
respeito. Parecia instrudo demais para ser umjardineiro e
todos eram curiosos sobre seu passado.
Murphy mandou cham-lo.
- Se  sobre a minha carteira de motorista, j a renovei -
disse Benedotti.
- Sente-se.
- Algum problema?
- H, sim. Voc  um homem instrudo, certo?
- Certo.
O chefe de polcia recostou-se em sua cadeira.
- Ento por que se tornou um jardineiro?
- Acontece que amo a natureza.
- O que mais voc ama?
- No estou entendendo.
- H quanto tempo  jardineiro?
Benedotti estava perplexo.
- H algum se queixando dos meus servios?
- Apenas responda  pergunta.
- Cerca de quinze anos.
- Tem uma boa casa e um barco?
- Isso mesmo.
- Como pode ter essas coisas com o que ganha como
jardineiro?
- No  uma casa grande e no  um barco grande.
- Talvez ganhe algum dinheiro por fora.
- Mas o que...
- Trabalha para algumas pessoas em Miami, no ?
- , sim.

- H muitos italianos por l. Costuma lhes prestar pequenos 
favores?
- Que tipo de favores?
- Como traficar drogas.
Benedotti ficou horrorizado.
- Mas claro que no!
Murphy inclinou-se para a frente.
- Deixe-me lhe dizer uma coisa, Benedotti. Ando de olho
em voc. Conversei com algumas das pessoas para quem trabalha. 
No querem mais voc ou seus amigos da Mfia aqui.
Entendido?
Benedotti fechou os olhos por um segundo, tornou a abri-los.
- Entendido.
- Ainda bem. Espero que saia daqui amanh. Nunca mais quero 
ver sua cara.

Woody Stanford passou trs semanas na Clnica Harbor Group.
Ao sair, era de novo o velho Woody, charmoso, gracioso, a
companhia mais agradvel. Voltou a jogar plo, montando os
pneis de Mimi Carson.

Domingo era o dcimo oitavo aniversrio do Palm Beach Polo & 
Country Club, e o trfego no South Shore Boulevard era 
intenso, com trs mil pessoas convergindo para o campo de 
plo. Ocuparam os camarotes no lado oeste do campo e as 
arquibancadas no lado oposto. Alguns dos melhores jogadores do 
mundo participariam da partida naquele dia.
Peggy sentou num camarote ao lado de Mimi Carson. Era
convidada de Mimi.
- Woody me disse que esta  a sua primeira partida de plo,
Peggy. Por que nunca assistiu a nenhuma antes?
Peggy passou a lngua pelos lbios.
- Eu... acho que sempre me senti muito nervosa para ver
Woody jogar. No quero que ele se machuque de novo. No 
um desporto muito perigoso?
Mimi disse, pensativa:
- Quando se tem oito jogadores, cada um pesando cerca
de oitenta quilos, e seus pneis de quatrocentos quilos
correndo uns contra os outros num espao de trezentos metros, 
a uma velocidade de sessenta e cinco quilmetros horrios... 
no resta a menor dvida de que acidentes podem acontecer.
Peggy estremeceu.
- Eu no suportaria se alguma coisa acontecesse de novo
com Woody. Juro que no aguentaria. Enlouqueceria de 
preocupao.
Mimi Carson disse, gentilmente:
- No se preocupe. Ele  um dos melhores. Aprendeu com
Hector Barrantas.
Peggy no registrou qualquer reao.
- Quem?
-  umjogador de dez pontos. Uma das lendas do plo.
- Ah...
Houve um murmrio dos espectadores quando os pneis
avanaram pelo campo.
- O que est acontecendo? - perguntou Peggy.
- Eles acabaram a sesso de treinamento, antes da partida.
Esto prontos para comear agora.
No campo, as duas equipes comearam a se alinhar, sob o

sol quente da Flrida, preparando-se para o incio da partida.
Woody parecia maravilhoso, bronzeado, em grande
forma, gracioso... pronto para a batalha. Peggy acenou, soprou 
um beijo em sua direco.
As duas equipes estavam alinhadas agora, lado a lado. Os
jogadores tinham os tacos abaixados,  espera do lanamento da
bola.
- Apartida em geral tem seis perodos, chamados chukkers
- explicou Mimi Carson a Peggy. - Cada chukker dura sete
minutos. O chukker termina quando a campainha toca. Depois,
h um curto descanso. Eles trocam de pneis a cada perodo. A
equipe que marca mais pontos  a vencedora.
- Certo.
Mimi se perguntou o quanto Peggy de fato entendera.
No campo, os olhos dos jogadores fixavam-se no rbitro,
aguardando o lanamento da bola. O rbitro correu os olhos
pela multido, e subitamentejogou a bola de plstico
branca entre as duas fileiras de jogadores. O jogo comeara.
A aco era rpida. Woody fez a primeirajogada, acertando a
bola no lado inverso. A bola voou na direo de umjogador 
adversrio, que galopou pelo campo em seu encalo. Woody foi 
atrs, e enganchou seu taco no dele para prejudicar a tacada.
- Por que Woody fez isso? - perguntou Peggy.
Mimi Carson explicou:
- Quando o adversrio alcana a bola,  lcito enganchar
o taco dele, para impedi-lo de marcar ou passar a bola. Woody
usar em seguida uma batida de lado para controlar a bola.
A aco acontecia to depressa que era quase impossvel 
acompanh-la.
Soaram gritos.
- Centre...
- Arremesse...
- Deixe...
E os jogadores galopavam pelo campo a toda a velocidade. Os
pneis - em geral puros-sangues ou trs-quartos - eram
responsveis por 75 por cento dos sucessos de seus cavaleiros.
Os pneis tinham de ser velozes e possuir o que os jogadores
chamam de senso do plo, sendo capazes de antecipar cada 
movimento de seus cavaleiros.
Woody foi brilhante durante os trs primeiros perodos,
marcando dois pontos em cada um, e sendo aclamado pelos 
espectadores. Seu taco parecia estar em toda a parte. Era o 
velho Woody Stanford, cavalgando como o vento, destemido. Ao 
final do quinto chukker, sua equipe estava com uma grande 
vantagem.
Os jogadores deixaram o campo para o intervalo.
Ao passar por Peggy e Mimi, sentadas na primeira fila do
camarote, Woody sorriu para ambas. Peggy virou-se para Mimi
Carson, excitada.
- Ele no  maravilhoso?
Mimi avaliou Peggy por um momento, antes de responder:
- , sim. Sob todos os aspectos.

Os companheiros de Woody lhe deram os parabns.
- Est em grande forma, meu caro! Foi fabuloso!
- Fez jogadas sensacionais !
- Obrigado.
- Vamos liquid-los agora. Eles no tm a menor chance.

Woody sorriu.
- No vai ser problema.
Ele observou os companheiros voltarem ao campo e subitamente 
sentiu-se exausto. Fiz um esforo demasiado, pensou.
No deveria voltar a jogar to cedo. No conseguirei manter o
mesmo ritmo. Se for para o campo agora, bancarei o idiota. Ele
comeou a entrar em pnico, o corao disparou. O que preciso
 de uma coisa para me reanimar. No! No farei isso. No
posso. Prometi. Mas a equipe est me esperando. Farei isso, s
esta vez, e depois nunca mais. Juro por Deus que ser a ltima
vez. Ele foi para seu carro, abriu o porta-luvas.

Ao voltar ao campo, Woody cantarolava para si mesmo e havia
um brilho anormal em seus olhos. Acenou para a multido, e
juntou-se  sua equipe. Nem preciso de uma equipe, pensou ele.
Poderia derrotar esses filhos da puta sozinho. Sou o melhor
jogador do mundo. Ele riu para si mesmo.

O acidente ocorreu durante o sexto chukker. Mais tarde, alguns
jogadores insistiram que no fora um acidente.
Os pneis corriam juntos na direo do gol e Woody tinha o
controle da bola. Pelo canto do olho, ele viu um adversrio se
aproximando. Usando uma tacada para trs, elejogou a bola para
a traseira do pnei. Foi apanhada por Rick Hamilton, o melhor 
jogador da equipe adversria, que disparou na direo do gol.
Woody foi atrs dele, a toda a velocidade. Tentou enganchar o
taco de Hamilton, mas no conseguiu. Os pneis aproximavam-se 
do gol. Woody ainda tentava desesperadamente se apoderar da 
bola, falhando a cada vez.
Enquanto Hamilton se acercava do gol, Woody virou seu
pnei, numa atitude deliberada, para esbarrar no de Hamilton, 
desviando-o da bola. Hamilton e seu pnei caram. Os 
espectadores se levantaram, gritando. O rbitro, furioso, 
apitou e ergueu a mo.
A primeira regra no plo  a de que quando um jogador tem
a posse da bola e se encaminha para o gol,  ilegal atravessar
seu curso. Qualquer jogador que cruza essa linha cria uma 
situao perigosa e comete uma falta.
O jogo parou.
O rbitro aproximou-se de Woody, e gritou, irado:
- Foi uma falta deliberada, Sr. Stanford!
Woody sorriu.
- No foi culpa minha! O pnei dele...
- Os adversrios tm direito a uma penalidade mxima.
O chukker se transformou num desastre. Woody cometeu
mais duas faltas, a intervalos de trs minutos, que resultaram
em mais dois pontos para a outra equipe. Em cada caso, os
adversrios tiveram direito a uma penalidade contra o gol
desguarnecido. Nos ltimos trinta segundos da partida, a 
equipadversria marcou o ponto da vitria. O que antes era uma 
vitria inevitvel, virou uma derrota fragorosa.

No camarote, Mimi Carson estava atordoada com a repentina
reviravolta no jogo. Peggy murmurou, tmida:
- No acabou nada bem, no ?
Mimi virou-se para ela.
- No, Peggy, infelizmente.
Um atendente entrou no camarote.

- Posso lhe falar por um momento, Senhorita Carson?
Mimi Carson olhou para Peggy.
- Com licena.
Peggy observou-os se afastarem.

'' Depois da partida, os companheiros de equipe de
Woody se mantiveram calados. Ele sentia-se envergonhado demais 
para fitar os outros. Mimi Carson se encaminhou para ele,
apressada.
- Woody, receio ter uma notcia terrvel para voc... -Ela ps 
a mo no ombro dele. - Seu pai morreu.
Woody levantou os olhos para ela, sacudiu a cabea de um
lado para o outro, e comeou a soluar
- Eu... sou o responsvel... foi minha... minha culpa.
- No, Woody, no deve se culpar. No foi o responsvel.
- Fui, sim - balbuciou Woody. - Ser que no compreende? Se 
no fosse por minhas faltas, ns teramos vencido
o jogo.

Captulo Onze

Julia Stanford nunca conhecera o pai e agora ele estava
morto, reduzido a uma manchete em preto no Kansas City Star: 
MAGNATA HARRY STANFORD MORRE AFOGADO NO MAR!
Ela continuou sentada, olhando para a foto dele na primeira
pgina do jornal, dominada por emoes conflitantes. Eu o 
odeio por causa da maneira como ele tratou minha me, ou o amo 
porque  meu pai? Sinto-me culpada porque nunca tentei entrar 
em contacto com ele, ou sinto-me furiosa porque ele nunca 
tentou me encontrar? No importa mais, pensou Julia. Ele 
morreu.
O pai estivera morto para ela durante toda a sua vida e agora
morrera de novo, privando-a de alguma coisa para a qual no
tinha palavras. Inexplicavelmente, ela experimentava um 
profundo sentimento de perda. Que estupidez!, pensou Julia. 
Como posso sentir a falta de algum que jamais encontrei ? Ela
tornou a olhar para a foto nojornal. Tenho alguma coisa dele 
em mim?
Julia contemplou-se no espelho na parede. Os olhos. Tenho os
mesmos olhos cinzentos profundos.
Julia foi at o armrio do quarto, tirou uma velha caixa de
papelo, pegou um lbum de retratos com capa de couro.
Sentou-se na beira da cama. Durante as duas horas seguintes, 
examinou o contedo familiar. Havia incontveis fotos de sua 
me no uniforme de governanta, com Harry Stanford, a Sra. 
Stanford e seus trs filhos. A maioria fora tirada no iate, em 
Rose Hill e na propriedade em Hobe Sound.
Julia pegou os recortes de jornais amarelados, relatando o 
escndalo que ocorrera tantos anos antes, em Boston. As 
manchetes desbotadas eram terrveis:
NINHO DE AMOR EM BEACON BILION-RIO. HARRY STANFORD ENVOLVidO 
EM ESCNDALO.
ESPOSA DE MAGNATA COMETE SUICDIO.
GOVERNANTA ROSEMARY NELSON DESAPARECE.
Havia dezenas de recortes de colunas com insinuaes.
Julia permaneceu ali por um longo tempo, perdida no passado.

Nascera no Hospital St. Joseph, em Milwaukee. Suas lembranas 
mais antigas eram as de viver em horrveis apartamentos em
prdios sem elevador, constantemente se mudando de uma cidade 
para outra. Havia ocasies em que no tinham nenhum
dinheiro, quase nada para comer. A me vivia doente e tinha 
dificuldades para arrumar um emprego fixo. A menina logo
aprendeu a nunca pedir brinquedos ou vestidos novos.
Julia entrou na escola aos cinco anos e os colegas zombavam 
dela porque usava o mesmo vestido e os mesmos sapatos velhos 
todos os dias. E quando as outras crianas a provocavam, Julia
reagia. Era uma rebelde, e a todo instante tinha de comparecer
 sala da diretora. Os professores no sabiam o que fazer com
ela. Vivia metida em encrencas. Poderia ser expulsa, se no
fosse por uma coisa: Era a aluna mais inteligente de sua 
turma.
A me lhe dissera que seu pai estava morto e Julia aceitara
isso. Mas quando tinha doze anos, encontrou um lbum cheio
de fotos da me com um grupo de estranhos.
- Quem so essas pessoas? - perguntou Julia.
E a me de Julia decidiu que chegara o momento.

- Sente-se, minha querida.
Pegou a mo da filha, apertou com fora. No havia como
dar a notcia com tacto.
- Este  seu pai, esta  sua meia-irm e estes seus 
meio-irmos.
Julia fitou a me, perplexa.
- No estou entendendo.
A verdade finalmente aflorara, destruindo a paz de esprito
de Julia. Seu pai estava vivo! E tinha uma meia-irm, dois
meio-irmos. Era demais para compreender.
- Por que... por que mentiu para mim?
- Voc era pequena demais para entender. Seu pai e eu...
tivemos um caso. Ele era casado e eu... precisei ir embora,
para ter voc.
- Eu o odeio! - exclamou Julia.
- No deve odi-lo.
- Como ele pde fazer uma coisa dessas com voc?
- O que aconteceu foi culpa minha tanto quanto dele. -
Cada palavra era uma agonia. - Seu pai era um homem muito
atraente, e eu jovem e tola. Sabia que nada poderia jamais 
resultar de nossa ligao. Ele disse que me amava... mas era
casado e tinha uma famlia. E... e depois fiquei grvida.
Era-lhe difcil continuar
- Um reprter soube da histria e saiu em todos osjornais.
Fugi. Tencionava voltar para ele junto com voc, mas a esposa
se matou e eu... nunca poderia encar-lo ou s crianas outra
vez. Foi culpa minha. Por isso, no o culpe.
Mas havia uma parte da histria que Rosemary nunca revelou  
filha. Quando a menina nascera, o funcionrio do hospital
encarregado do registro disse:
- Estamos preenchendo a certido de nascimento. O nome
da criana  Julia Nelson?
Rosemary j ia dizer que sim, mas pensara: No! Ela  filha
de Harry Stanford. Tem direito ao nome dele, a seu apoio.
- O nome de minha filha  Julia Stanford.
Ela escrevera para Harry Stanford, contando sobre Julia, mas
nunca recebera uma resposta.
Julia ficou fascinada pela idia de possuir uma famlia que 
no conhecia e tambm pelo fato de que eram bastante famosos 
para aparecerem na imprensa. Foi  biblioteca pblica e leu 
tudo o que encontrou sobre Harry Stanford. Havia dezenas de 
reportagens sobre ele. Era um bilionrio, vivia em outro 
mundo, um mundo do qual Julia e sua me estavam totalmente 
excludas.
Um dia, quando um colega zombou por ela ser pobre, Julia
declarou, em tom de desafio:
- No sou pobre! Meu pai  um dos homens mais ricos do
mundo. Temos um iate e um avio e uma dzia de lindas casas.
; A professora ouviu.
- Julia, venha at aqui.
Julia aproximou-se da mesa da professora.
- No deve contar uma mentira assim.
- No  uma mentira - protestou Julia. - Meu pai  mesmo um 
bilionrio. Conhece reis e presidentes.
A professora contemplou a menina de p  sua frente, num
vestido de algodo surrado.
- Isso no  verdade, Julia.
- , sim! - insistiu a menina, obstinada.

Ela foi despachada para a sala do diretor. Nunca mais tornou
a mencionar o pai na escola.

Julia descobriu o motivo pelo qual ela e a me viviam se
mudando de uma cidade para outra: era por causa da mdia.
Harry Stanford era uma presena constante na imprensa, e
jornais e revistas sensacionalistas viviam desencavando o
escndalo antigo. Reprteres investigadores descobriam quem 
era Rosemary Nelson, onde ela morava, o que a levava a fugir 
com Julia.
Julia lia todas as matrias que apareciam nos jornais sobre
Harry Stanford e cada vez sentia-se tentada a lhe telefonar.
Queria acreditar que durante todos aqueles anos ele procurara
desesperadamente por sua me. vou ligar e dizer: Aqui  sua
filha. Se quiser nos ver...
E ele viria encontr-las, o amor renasceria, o pai casaria com
sua me e viveriam juntos e felizes para sempre.

Julia Stanford tornou-se uma linda jovem. Tinha cabelos
escuros lustrosos, uma boca risonha e generosa, os olhos cinza
luminosos do pai, um corpo de curvas suaves. Mas quando
sorria, as pessoas esqueciam todo o resto, fascinadas por
aquele sorriso.
Como eram foradas a se mudar com tanta frequncia, Julia
estudou em escolas em cinco estados diferentes. Durante os
veres, trabalhava como vendedora numa loja de departamentos, 
por trs do balco numa drugstore, e como recepcionista.
Sempre foi muito independente.
Viviam em Kansas City quando Julia concluiu o colgio,
com uma bolsa de estudo. No tinha certeza do que queria fazer
com sua vida. Amigos, impressionados com sua beleza, sugeriram 
que se tornasse uma atriz de cinema.
- Voc seria uma estrela da noite para o dia!
Julia descartou a idia com uma resposta indiferente:
- Quem quer levantar to cedo todas as manhs?
Mas o verdadeiro motivo do desinteresse era o fato de que
ela queria, acima de tudo, manter sua privacidade. Parecia a
Julia que por toda a sua vida ela e a me haviam sido 
assediadas pela imprensa, por causa de uma coisa que 
acontecera h tantos anos.

O sonho de Julia de reunir a me e o pai terminou no dia em
que Rosemary Nelson morreu. Julia experimentou profunda 
sensao de perda. Meu pai precisa saber, pensou ela. Afinal, 
mame foi parte da vida dele. Ela procurou a sede da firma em 
Boston na lista telefnica. Uma telefonista atendeu.
- Stanford Enterprises, bom dia.
Julia hesitou.
- Stanford Enterprises. Al? O que deseja?
Lentamente, Julia desligou. Mame no ia querer que eu
fizesse esse telefonema.
Estava sozinha agora. No tinha ningum.

Julia enterrou a me no Cemitrio Parque Memorial, em Kansas
City. No havia mais ningum presente. Parada  beira da
sepultura, Julia pensou: No  justo, mame. voc cometeu um
erro e pagou pelo resto de sua vida. Gostaria de poder

diminuir um pouco a sua dor. Eu a amo muito, mame. Sempre a 
amarei.
Tudo o que lhe restava dos anos da me neste mundo era uma
coleo de antigas fotos e recortes de jornal.
Com a morte da me, os pensamentos de Julia se voltaram para
a famlia Stanford. Eles eram ricos. Poderia procur-los,
pedir ajuda. Nunca, decidiu ela. No depois da maneira como 
Harry Stanford tratou minha me.
Mas ela tinha de ganhar a vida. E defrontou-se com a
escolha da carreira. Pensou, irnica: Talvez eu me torne uma
neurocirurgi. Ou uma pintora?
Cantora de pera?
Fisica?
Astronauta ?
Contentou-se com um curso noturno de secretariado no
Colgio Comunitrio de Kansas City.
Um dia depois de terminar o curso, Julia procurou uma
agncia de empregos. Havia uma dzia de pessoas na sala de
espera. Julia sentou-se ao lado de uma moa atraente, de sua
idade.
- Oi. Sou Sally Connors.
- Julia Stanford.
, - Tenho de arrumar um emprego hoje-murmurou Sally.
- Fui despejada do meu apartamento.
Julia ouviu seu nome ser chamado.
- Boa sorte - disse Sally.
- Obrigada.
Julia entrou na sala da conselheira de emprego.
- Sente-se, por favor.
- Obrigada.
- Vejo por seu currculo que tem o curso colegial e alguma
experincia de trabalho no vero. E ainda conta com uma boa 
recomendao do curso de secretariado. - A mulher olhou para
o dossi na mesa. - Faz taquigrafia a noventa palavras por
minuto e datilografia a sessenta palavras por minuto?
- Isso mesmo, madame.
- Talvez eu tenha o emprego certo para voc. H uma
pequena firma de arquitetos procurando uma secretria. O 
salrio no  muito grande...
- No tem problema.
- Est certo. Vou envi-la para l. - Ela entregou um
papel a Julia, com o nome e endereo da firma datilografados.
- Ser entrevistada amanh, ao meio-dia.
Julia sorriu, feliz.
- Obrigada.
Ela sentia uma expectativa agradvel. Quando saiu da sala,
o nome de Sally foi chamado.
- Espero que consiga alguma coisa - disse Julia.
- Obrigada.
Num sbito impulso, Julia decidiu esperar. Dez minutos
depois, ao sair da sala interna, Sally estava sorrindo.
- Consegui uma entrevista! Ela telefonou e vou me apresentar 
amanh na American Mutual Insurance para um emprego
de recepcionista! Como se saiu?
- Tambm saberei amanh.
- Tenho certeza que vai dar tudo certo. Por que no almoamos 
juntas para comemorar?
- Boa idia.


Conversaram durante o almoo e a amizade foi instantnea.
- Fui ver um apartamento em Overland Park - disse
Sally. -Tem dois quartos e um banheiro, cozinha e sala. 
muito simptico. No tenho condies de pagar o aluguel 
sozinha, mas se ns duas...
Julia sorriu.
- Eu adoraria. - Ela cruzou os dedos. - Se obtiver o
' emprego.
- Vai conseguir! - garantiu Sally.

A caminho do escritrio de Peters, Eastman & Tolkin, Julia
pensou: Esta pode ser minha grande oportunidade, capaz de me
levar a qualquer lugar. Afinal, no  um mero emprego. vou
trabalhar para arquitetos, sonhadores que constroem e moldam
a paisagem urbana, que criam beleza e magia de pedra, ao e
vidro. Talvez eu tambm estude arquitetura, a fim de poder
ajud-los, ser parte do sonho.
O escritrio era num velho prdio comercial no Amour
Boulevard. Julia pegou o elevador para o terceiro andar,
saltou, parou diante de uma porta toda escalavrada, com uma 
placa que dizia PETERS, EASTMAN & TOLKIN, ARQUITETOS. Respirou 
fundo para se acalmar e entrou.
Trs homens esperavam na sala de recepo, examinando-a
quando passou pela porta.
- Veio pelo emprego de secretria?
- Isso mesmo.
- Sou al Peters.
O careca.
- Bob Eastman.
De rabo-de-cavalo.
- Max Tolkin.
O barrigudo.
Todos pareciam estar na casa dos quarenta anos.
- Fomos informados de que  o seu primeiro emprego
como secretria - disse al Peters.
-  verdade. - Julia apressou-se em acrescentar: - Mas
aprendo depressa. E trabalharei com o maior afinco.
Ela decidiu no mencionar por enquanto a idia de estudar
arquitetura. Esperaria at que a conhecessem melhor.
- Muito bem, vamos experiment-la e ver o que acontece
- disse Bob Eastman.
Julia ficou exultante.
- Oh, obrigada! No vo...
- Sobre o salrio - interrompeu Max Tolkin. - Infelizmente, 
no podemos pagar muito no incio...
- No tem problema - declarou Julia. - Eu...
- Trezentos por semana - props al Peters.
Eles estavam certos. No era muita coisa. Julia tomou uma
deciso rpida.
- Aceito.
Os trs se fitaram, sorrindo.
- ptimo! - exclamou al Peters. - Vamos lhe mostrar o
escritrio.
Aexcurso demorou apenas alguns segundos. Havia a sala
de recepo e mais trs salas pequenas, que pareciam ter sido
mobiliadas pelo Exrcito da Salvao. O banheiro ficava no
corredor. Eram todos arquitetos, mas Al Peters era o 
administrador, Bob Eastman o vendedor e Max Tolkin cuidava da

construo.
- Vai trabalhar para ns trs - avisou Peters.
- Est certo.
Julia sabia que se tornaria indispensvel para eles. Al Peters
olhou para seu relgio.
- Meio-dia e meia. Vamos almoar?
Julia ficou emocionada. Era parte da equipe agora. Eles
esto me convidando para almoar. Peters virou-se para ela.
- H uma delicatessen na esquina. Vou querer um sanduche de 
corned beef em po de centeio, com mostarda, salada de
batata e uma torta dinamarquesa.
- Ah...
 esse o convite para almoar.
- Eu quero um pastrami e canja de galinha-acrescentou
Tolkin.
- Certo, senhor.
- E eu vou querer o prato de ensopadinho com um refrigerante - 
arrematou Bob Eastman.
- Pea o corned beef magro - ressaltou Peters.
- Corned beef magro.
- Verifique se a canja est quente - recomendou Max
Tolkin.
- Certo. Canja quente.
- E o refrigerante deve ser diettico - ressaltou Bob
Eastman.
- Refrigerante diettico.
- Aqui est o dinheiro.
Al Peters entregou-lhe uma nota de vinte dlares. Dez
minutos depois Julia estava na delicatessen, falando com o
homem por trs do balco:
- Quero um sanduche de corned beef magro em po de
centeio, com mostarda, salada de batata e uma torta
dinamarquesa. Um sanduche de pastrami com uma canja de 
galinha bem quente. E um prato de ensopadinho com um 
refrigerante diettico.
O homem acenou com a cabea.
- Trabalha para Peters, Eastman e Tolkin, no ?

Julia e Sally se mudaram para o apartamento em Overland Park
na semana seguinte. O apartamento consistia em dois quartos
pequenos, uma sala com mveis quej haviam testemunhado a 
passagem de muitos inquilinos, cozinha e banheiro. Nunca
vo confundir este apartamento com o Ritz, pensou Julia.
- Vamos nos revezar na cozinha - sugeriu Sally.
- Combinado.
Sally preparou a primeira refeio, e foi deliciosa.
Na noite seguinte era a vez de Julia. Sally provou o prato
feito por ela e disse no mesmo instante:
- No tenho seguro de vida, Julia. No  melhor eu cozinhar, 
enquanto voc cuida da limpeza?

As duas se davam muito bem. Nos fins de semana saamjuntas
para ir ao cinema, na Glenwood, 4, e para fazer compras no
Bannister Mall. Compravam suas roupas numa loja de segunda
mo. Uma vez por semana saam para jantar num restaurante
barato - o Stephenson's Old Apple Farm ou o Caf Max, de
especialidades mediterrneas. Quando sobrava algum dinheiro,
iam ao Charlie Charlies para ouvir jazz.

Julia gostava de trabalhar para Peters, Eastman & Tolkin.
Dizer que a firma no ia muito bem seria aqum da realidade. 
Os clientes eram escassos. Julia refletiu que no estava 
fazendo muita coisa para ajudar a construir a paisagem urbana, 
mas gostava da companhia dos trs chefes. Eram como uma 
famlia substituta e cada um confidenciava seus problemas a 
Julia. Ela era competente e eficiente e logo reorganizou o 
escritrio.

Julia decidiu fazer algo em relao  falta de clientes. Mas o
qu? Logo teve a resposta. Saiu uma notcia no Kansas City 
Star sobre um almoo de uma nova organizao de executivas, 
presidida por Susan Bandy.
No dia seguinte, ao meio-dia, Julia disse a Al Peters:
- Vou demorar mais um pouco a voltar do almoo.
Ele sorriu.
- No tem problema, Julia.
Peters pensava no quanto eram afortunados por t-la como 
secretria.
Julia chegou ao Plaza Inn e foi para o salo em que era
realizado o almoo. A mulher sentada a uma mesa perto da porta 
perguntou-lhe:
- Em que posso ajud-la?
; - Estou aqui para o almoo das secretrias executivas.
- Nome?
- Julia Stanford.
A mulher procurou na lista  sua frente.
- Seu nome no consta...
Julia sorriu.
- No  tpico de Susan? Terei uma conversinha com ela.
Sou secretria executiva da Peters, Eastman e Tolkin.
A mulher parecia indecisa.
- Bem...
- No precisa se preocupar. Eu mesma falarei com Susan.
Havia um grupo de mulheres bem-vestidas conversando no
salo. Julia abordou uma delas.
- Quem  Susan Bandy?
- Aquela ali.
Ela indicou uma mulher alta e atraente, na casa dos quarenta
anos. Julia foi ao seu encontro.
- Oi. Sou Julia Stanford.
- Ol.
- Trabalho na Peters, Eastman e Tolkin. Tenho certeza que
j ouviu falar
- Hen...
-  a firma de arquitetura que mais cresce em Kansas
City.
- Ah, sim.
- No tenho muito tempo de folga, mas gostaria de contribuir 
com o que for possvel para a organizao.
-  muita gentileza sua, Senhorita...
- Stanford.
Esse foi o comeo.

A organizao das secretrias executivas representava a
maioria das grandes firmas de Kansas City e no demorou muito 
para que Julia estabelecesse um contato estreito com todas.

Almoava com uma ou mais das secretrias pelo menos uma vez 
por semana.
- Nossa companhia vai construir um novo prdio em
Olathe.
E Julia imediatamente comunicava a seus
patres.
- O Sr. Hanley quer construir uma casa de veraneio em
Tonganoxie.
E antes que outros arquitetos soubessem, Peters, Eastman &
Tolkin j haviam sido contratados.
Bob Eastman chamou Julia um dia e Lhe disse:
- Voc merece um aumento, Julia. Est fazendo um excelente 
trabalho.  uma secretria sensacional.
- Pode me fazer um favor?
- Claro!
- Chame-me de secretria executiva. Ajudar em minha
credibilidade.

De vez em quando Julia lia matrias nosjornais sobre seu pai
ou assistia a entrevistas suas na televiso. Nunca o mencionou 
a Sally nem a seus empregadores.
Quando era menor, um dos sonhos de Julia era um dia ser
arrebatada do Kansas, como Dorothy, e transportada para algum
lugar belo e mgico. Seria um lugar repleto de iates, avies 
particulares e palcios. Mas agora, com a notcia da morte do
pai, esse sonho terminava para sempre. Mas a parte do Kansas 
pelo menos est certa, pensou ela, irnica.
No me restou nenhuma famlia. No, estou enganada,
corrigiu-se Julia. Ainda tenho dois meio-irmos e uma
meia-irm. So a minha famlia. Devo procur-los? Boa idia? 
M idia? Como nos sentiriamos?
Sua deciso tornou-se uma questo de vida ou morte.

Captulo Doze

Foi a reunio de um cl de estranhos. H anos que eles no se 
viam nem se comunicavam.
O juiz Tyler Stanford chegou a Boston de avio.
Kendall Stanford Renaud voou de Paris. Marc Renaud viajou de 
trem de Nova York. Woody Stanford e Peggy vieram de carro de 
Hobe Sound.

Os herdeiros haviam sido avisados de que o servio fnebre
seria realizado na King's Chapel. Havia barreiras na rua 
diante da igreja e guardas continham a multido que se reunira 
para assistir  chegada das autoridades. O vice-presidente dos 
Estados Unidos compareceu, assim como senadores, embaixadores 
e estadistas de lugares to distantes quanto Turquia e Arbia
Saudita.
Ao longo de sua vida, Harry Stanford projetara uma sombra
enorme, e todos os setecentos lugares na igreja estariam
ocupados.
Tyler, Woody e Kendall, com seus cnjuges, encontraram-se
na sacristia. Foi uma reunio constrangedora. Eram estranhos
uns para os outros, e a nica coisa que tinham em comum era o
corpo do homem no carro fnebre diante da igreja.
' - Este  meu marido, Marc - disse Kendall.
; - Esta  minha esposa, Peggy. Peggy, minha irm, Kendall, e 
meu irmo, Tyler.
= Foram apenas cumprimentos polidos. Ficaram parados ali,
contrafeitos, estudando-se uns aos outros, at que um 
funcionrio se aproximou do grupo.
- Com licena - disse ele, em voz abafada. - O servio
! est prestes a comear. Podem me acompanhar, por favor?
Ele conduziu-os a um banco reservado na frente da igreja.
Todos se sentaram e esperaram, cada qual absorvido em seus 
pensamentos.
Para Tyler, era estranho voltar a Boston. Suas nicas boas
recordaes da cidade eram do tempo em que a me e Rosemary 
ainda eram vivas. Quando tinha onze anos, Tyler vira um
quadro do famoso Goya, Saturno Devorando Seu Filho, e sempre o
identificara com o pai.
E agora, olhando para o caixo do pai, ao ser carregado pela 
igreja, Tyler pensou: Saturno est morto.
( Conheo o seu segredinho sujo.

O ministro subiu para o histrico plpito em forma de copo de
vinho da capela.
- Jesus disse a ela, sou a ressurreio e a vida; aquele que 
cr em mim, embora morto, ainda assim viver; e aquele que
vive e cr em mim jamais morrer.

Woody sentia-se exultante. Tomara uma dose de herona antes
de vir para a igreja e o efeito ainda no passara. Olhou para
o irmo e a irm. Tyler engordou. Est parecendo mesmo um juiz
Kendall transformou-se numa bela mulher, mas parece sob
tenso. Ser por que o pai morreu? No. Ela o odiava tanto
quanto eu. Woody olhou para a esposa, sentada ao seu lado.
Lamento agora no t-la apresentado ao velho. Ele morreria de
in farto.


O ministro estava dizendo:
- Como um pai se compadece de seus filhos, que o Senhor
tenha piedade daqueles que o temem. Pois Ele conhece nossa
, estrutura e sabe que somos p.
Kendall no prestava ateno. Pensava no vestido vermelho. O
pai telefonara para ela em Nova York uma tarde.
- Agora se tornou uma estilista importante, hem? Pois
vamos ver se  mesmo boa. vou leevar minha nova namorada a
um baile de caridade na noite de sbado. Ela  do seu tamanho.
Quero que lhe faa um vestido.
- At sbado? No posso, pai. Eu...
- Vai fazer, sim.
E ela fizera o vestido mais feio que pudera conceber. Tinha
um enorme lao preto na frente, e metros e metros de fitas e
rendas. Mandara-o para o pai, que tornara a lhe telefonar
- Recebi o vestido. Por falar nisso, minha namorada no
poder ir ao baile no sbado, e por isso voc vai me
acompanhar. E ter de usar o vestido.
- No!
E depois a frase terrvel:
- No vai querer me desapontar, no ?
Kendall fora, no ousando mudar o vestido, e passara a noite
mais humilhante de sua vida.

- Pois nada trouxemos para este mundo e  certo que nada
levaremos ao partirmos. O Senhor nos deu e o Senhor nos tira;
abenoado seja o nome do Senhor.

Peggy Stanford sentia-se contrafeita, intimidada pelo
esplendor da enorme igreja e pelas pessoas de aparncia 
elegante. Nunca estivera antes em Boston, que para ela 
significava o mundo dos Stanfords, com toda a pompa e glria. 
Aquelas pessoas eram muito melhores do que ela. E Peggy 
segurou a mo do marido.

- Toda carne  relva e toda a graa  como a flor do campo...
A relva secou, a flor murchou, mas a palavra de nosso Deus
resistir para sempre.

Marc pensava na carta de chantagem que sua esposa recebera.
Fora escrita com todo o cuidado, com extrema habilidade. Seria
impossvel descobrir quem se encontrava por trs. Ele olhou
para Kendall, sentada ao seu lado, plida e tensa. Quanto mais 
ela pode aguentar?, especulou Marc. E chegou mais perto dela.

-...  misericrdia e proteo de Deus nos entregamos. Que
o Senhor os abenoe e os guarde. O Senhor fez seu rosto se
iluminar para todos e foi generoso com todos. O Senhor nos
projetou a luz de seu semblante e nos deu paz, agora e para
sempre. Amm.

Com o servio religioso concludo, o ministro anunciou:
- O sepultamento ser particular... s para a famlia.
Tyler olhou para o caixo e pensou no corpo l dentro. Na
noite passada, antes do caixo ser fechado, ele fora 
direetamente do ' Aeroporto Internacional Logan, em Boston,
para a agncia funerria.
Queria ver o pai morto.

Woody observou o caixo ser carregado para fora da igreja
e sorriu: D s pessoas o que elas querem.
A cerimnia  beira da sepultura no Cemitrio Mont Auburn, em
Cambridge, foi breve. A famlia observou o corpo de Harry
Stanford ser baixado para o lugar do repouso final. Enquanto a
terra era lanada sobre o caixo, o ministro disse:
- No h necessidade de vocs permanecerem aqui por !
mais tempo, se no desejarem.
Woody balanou a cabea.
- Certo. - O efeito da herona comeava a passar e ele se 
sentia nervoso. - Vamos sair logo daqui.
- Para onde iremos? - perguntou Marc.
Tyler virou-se para o grupo.
- Ficaremos em Rose Hill. J est tudo acertado. 
Permaneceremos l at a leitura do testamento.
Poucos minutos depois, estavam na limusine a caminho da
casa.

Boston tinha uma estrita hierarquia social. Os novos-ricos
residiam na Commonwealth Avenue e os arrivistas sociais na 
Newbury Street. As famlias antigas menos prsperas moravam na
Marlborough Street. Back Bay era o endereo mais novo e de
maior prestgio na cidade, mas Beacon Hill ainda era a
cidadela das famlias mais ricas e mais antigas de Boston. Era 
uma rica mistura de manses vitorianas e casas com fachadas de 
arenito pardo, igrejas antigas e elegantes reas comerciais.
Rose Hill, a propriedade da famlia Stanford, era uma linda
casa vitoriana, no meio de vrios hectares de rvores, em
Beacon Hill. A casa em que as crianas Stanfords haviam sido 
criadas estava repleta de recordaes desagradveis. Quando as 
limusines pararam diante da manso antiga, os passageiros 
saltaram e a contemplaram.
- No posso acreditar que o pai no esteja l dentro, 
nossa espera - comentou Kendall.
Woody sorriu.
- Ele est ocupado demais tentando controlar as coisas no 
inferno.
Tiler respirou fundo.
- Vamos entrar
Ao se adiantarem, a porta da frente foi aberta e eles 
depararam com Clark, o mordomo. Era um servidor distinto e 
competente, j na casa dos setenta anos. Trabalhava em Rose 
Hill h mais de trinta anos. Observara as crianas crescerem e
testemunhara todos os escndalos. O rosto de Clark se iluminou 
ao ver o grupo.
- Boa tarde!
Kendall deu-lhe um abrao afectuoso.
-  to bom v-lo de novo, Clark!
- J faz muito tempo, Senhorita Kendall
- Sou agora a Sra. Renaud. Este  meu marido, Marc.
- Como vai, senhor?
- Minha esposa fala muito a seu respeito.
- Espero que no seja nada de horrvel, senhor
- Ao contrrio. Ela s tem boas lembranas de voc.
- Obrigado, senhor. - Clark virou-se para Tyler. - Boa
tarde,juiz Stanford.
- Ol, Clark.
-  um prazer tornar a v-lo, senhor.

- Obrigado. Est com uma tima aparncia.
- O senhor tambm. Lamento muito o que aconteceu.
- Obrigado. Est aqui para cuidar de todos ns?
- Isso mesmo, senhor. Creio que podemos manter a todos
confortveis.
- Ficarei no meu antigo quarto?
 '' . I' Clark sorriu.
- Isso mesmo. -Ele virou-se para Woody. -Fico muito
satisfeito em v-lo, Sr. Woodrow. Gostaria...
Woody pegou o brao de Peggy.
- Vamos embora - disse ele, rspido. - Preciso descansar.
Os outros observaram Woody subir a escada com Peggy.
O resto do grupo foi para a vasta sala de estar. Era dominada
por dois imensos armoires Luis XIV. Havia tambm um aparador
dourado com tampo de mrmore, vrias cadeiras e sofs antigos.
' Um enorme lustre ormolu pendia do teto alto. As
paredes eram ocupadas por quadros medievais. Clark virou-se 
para T ler.
- Tenho um recado para lhe transmitir, juiz Stanford. O Sr.
Simon Fitzgerald pediu que lhe telefonasse, para combinar
quando seria conveniente uma reunio com a fam'lia.
- Quem  Simon Fitzgerald? - perguntou Marc.
Foi Kendall quem respondeu:
-  o advogado da famlia. O pai sempre trabalhou com
ele, mas nunca o conhecemos pessoalmente.
- Presumo que ele quer conversar sobre a disposio da
herana. - Tyler virou-se para os outros. - Se vocs 
concordarem, marcarei uma reunio conosco aqui, amanh de 
manh.
- Para mim, est timo - respondeu Kendall.
- O chef est preparando o jantar - disse Clark. - Oito
horas  satisfatrio?
- , sim - conf'irmou Tyler. - Obrigado.
- Eva e Millie vo lev-los a seus aposentos.
Tiler olhou para a irm e o cunhado.
- Vamos nos encontrar aqui s oito horas?
To logo entraram no quarto l em cima, Peggy perguntou a
Woody:
- Voc est bem?
- Claro que estou! -resmungou Woody. - S quero que
me deixe em paz.
Ela observou-o entrar no banheiro e bater a porta. Ficou 
parada ali, esperando. Woody saiu dez minutos depois,
sorrindo.
- Oi, meu bem.
- Oi.
- Gostou da velha casa?
- ...  enorme.
-  uma monstruosidade. - Ele se aproximou da cama,
enlaou Peggy. - Este  o meu antigo quarto. As paredes eram
cobertas por cartazes desportivos... Bruins, Celtics, Red Sox.
Eu queria ser um atleta. Tinha grandes sonhos. No ltimo ano 
no colgio interno fui capito do time de futebol americano.
Recebi ofertas de meia dzia de treinadores de equipes
universitrias.
- Qual delas aceitou?
Ele sacudiu a cabea.
- Nenhuma. Meu pai alegou que s estavam interessados

no nome Stanford, que s queriam arrancar seu dinheiro. 
Mandou-me para uma faculdade de engenharia, onde no havia um
time de futebol.
Woody permaneceu em silncio por um longo momento,
antes de murmurar:
- Eu poderia ser um competidor...
Ela ficou perplexa.
- Como?
Woody fitou-a.
- Nunca assistiu a Sindicato de Ladres?
- No.
- Marlon Brando dizia essa frase. Significa que ambos nos
estrepamos.
- Seu pai devia ser muito rigoroso.
Woody soltou uma risada curta e desdenhosa.
; - Esse  o comentrio mais ameno que
algumj fez sobre ele. Lembro de uma ocasio em que, ainda 
garoto, ca do cavalo. Queria montar de novo, mas meu pai no 
deixou e disse: "Voc nunca ser um bom cavaleiro.  
desajeitado demais." Foi por isso que me tornei umjogador de 
plo de nove pontos.
Eles se encontraram  mesa de jantar, estranhos uns para os
outros, sentados num silncio contrafeito. Os traumas da
infncia eram o nico ponto em comum.
Kendall correu os olhos pela sala. Terrveis recordaes se
misturavam com uma apreciao sincera pela beleza do lugar. A
mesa de jantar era francesa, clssica, do incio do perodo
Lus XV, cercada por cadeiras de nogueira do perodo 
diretrio. Num canto havia um armoire provincial francs, 
pintado em creme e azul. Quadros de Watteau e Fragonard 
ornamentavam as paredes. Kendall virou-se para Tiler
- Li sobre sua deciso no caso Fiorello. Ele merecia o que
voc lhe deu.
- Ser juiz deve ser emocionante - comentou Peggy.
- s vezes .
- Que tipo de casos voc costuma julgar? - indagou
Marc.
- Casos criminais... estupros, drogas, homicdios.
Kendall empalideceu, fez meno de dizer alguma coisa.
Marc pegou a mo dela, apertou-a com firmeza, como uma 
advertncia. Tyler disse a Kendall, polido:
- Voc se tornou uma estilista de sucesso.
Kendall sentia dificuldade para respirar
-  verdade.
- Ela  fantstica - declarou Marc.
- E o que voc faz, Marc?
- Trabalho numa corretora de valores.
- Ah, sim,  um daqueles jovens milionrios de Wall Street.
- No  bem assim, juiz. Estou apenas comeando.
Tyler lanou um olhar condescendente para Marc.
- Acho que tem sorte por contar com uma esposa bem-sucedida.
Kendall corou e sussurrou no ouvido de Marc:
- No d ateno. Lembre-se de que eu amo voc.

Woody comeava a sentir o efeito da droga. Virou-se para fitar
a esposa.
- Peggy bem que podia usar algumas roupas decentes -
disse ele. - Mas ela no se importa com sua aparncia... no 

mesmo, meu anjo?
Peggy ficou embaraada, sem saber o que dizer.
- Que tal um traje de garonete? - sugeriu Woody.
- Com licena - balbuciou Peggy.
Ela se levantou, subiu correndo. Todos olharam para Woody,
 aturdidos. Ele sorriu.
- Peggy  sensvel demais. Quer dizer que vamos ouvir o
testamento amanh, hem?
- Isso mesmo - confirmou Tyler
- Aposto que o velho no nos deixou um nico centavo.
- Mas h tanto dinheiro no esplio... - disse Marc.
Woody interrompeu-o com uma risada desdenhosa.
- No conheceu nosso pai.  bem provvel que ele tenha
nos deixado seus palets velhos e uma caixa de charutos. 
Gostava de usar seu dinheiro para nos controlar. Sua frase
predileta era "Voc no vai querer me desapontar, no ?" E 
todos nos comportvamos como boas crianas, porque havia tanto 
dinheiro, como voc disse. Mas aposto que o velho encontrou um 
meio de levar todo o dinheiro com ele.
- Saberemos amanh - comentou Tyler.

Na manh seguinte, bem cedo, Simon Fitzgerald e Steve
Sloane chegaram a Rose Hill. Clark conduziu-os  biblioteca.
- Informarei  famlia que esto aqui - disse ele.
- Obrigado.
A biblioteca era grande e se abria para umjardim atravs de
duas enormes portas de vidro. A sala era revestida por um
carvalho escuro e por estantes com livros encadernados em
couro. Havia ali vrias poltronas confortveis, junto de
abajures italianos. Num canto havia um armrio de mogno e 
vidro bisote fabricado sob medida, em que era exibida a 
invejvel coleo de armas de Harry Stanford. Tinha gavetas 
especiais sob o mostrurio para guardar a munio.
- Ser uma manh interessante - comentou Steve. - Eu
me pergunto como eles vo reagir.
- Descobriremos daqui a pouco.
Kendall e Marc foram os primeiros a entrar na sala.
- Bom dia. Sou Simon Fitzgerald. Este  meu scio, Steve
Sloane - disse.
- Sou Kendall Renaud e este  meu marido, Marc.
Os homens trocaram apertos de mo.
Woody e Peggy entraram. Kendall disse:
- Woody, estes so o Sr. Fitzgerald e o Sr. Sloane.
Woody acenou com a cabea. ;
- Oi. Trouxeram o dinheiro?
- Bem, ns...
- S estou brincando. Esta  minha esposa, Peggy. -
Woody olhou para Steve. - O velho me deixou alguma coisa, 
ou...? - Tyler entrou na biblioteca.
- Bom dia.
- Juiz Stanford?
- Isso mesmo.
- Sou Simon Fitzgerald e este  Steve Sloane, meu scio.
Foi Steve quem providenciou o translado do corpo de seu pai da
Crsega.
Tyler virou-se para Steve.
- Agradeo por isso. Ainda no sabemos exatamente o que
aconteceu. A imprensa apresentou muitas verses diferentes.

Houve alguma aco criminosa?
- No. Tbdo indica que foi mesmo um acidente. O iate de
seu pai foi apanhado por uma terrvel tempestade ao largo da
costa da Crsega. Segundo o depoimento de Dmitri Kaminsky,
o segurana dele, seu pai estava de p numa varanda junto do
camarote, o vento soprou alguns papis de sua mo. Ele tentou
alcan-los, perdeu o equilbrio e caiu no mar. J era tarde
demais quando encontraram o corpo.
- Uma maneira horrvel de morrer... - murmurou Kendall, 
estremecendo.
- Falou com esse Kaminsky? - perguntou Tyler.
- Infelizmente, no. Ele j tinha ido embora quando cheguei  
Crsega.
- O comandante do iate aconselhara seu pai a se manter
longe da tempestade - acrescentou Fitzgerald -, mas por
algum motivo ele tinha pressa em voltar. J tinha contratado
um helicptero para lev-lo da Crsega. Parece que havia algum
problema urgente.
- Sabe que problema era esse? - indagou Tyler
- No. Interrompi minhas frias porque ele me pediu que
viesse encontr-lo aqui, mas no sei o que...
Woody interveio:
- Tudo isso  muito interessante, mas no passa de histria
antiga, no  mesmo? Vamos falar sobre o testamento. Ele nos
deixou alguma coisa ou no?
As mos dele tremiam.
- Por que no nos sentamos? - sugeriu Tyler.
Foi o que fizeram. Simon Fitzgerald sentou-se 
escrivaninha, de frente para todos. Abriu uma pasta, comeou a 
tirar alguns papis. Woody parecia prestes a explodir.
- E ento? Pelo amor de Deus, ele deixou ou no deixou?
Kendall murmurou:
- Woody...
- J sei a resposta! - exclamou Woody, furioso. - Ele
no nos deixou nada!
Fitzgerald contemplou os rostos dos filhos de Harry Stanford
e disse:
- Para ser franco, vocs tero partes iguais no esplio.
Steve pde sentir a sbita euforia na sala. Woody olhava
boquiaberto para Fitzgerald.
- O qu? Fala srio? - Ele se levantou de um pulo. -
; Mas isso  fantstico!
Woody virou-se para os outros.
- Ouviram isso? O velho miservel finalmente reconheceu sua 
culpa! - Ele tornou a olhar para Simon Fitzgerald. -
I' De quanto dinheiro estamos falando?
- No tenho a cifra exacta. Segundo o ltimo nmero da revista 
Forbes, a Stanford Enterprises vale seis bilhes de
dlares. A maior parte est investida em vrias empresas, mas 
h cerca de quatrocentos milhes de dlares disponveis em 
patrimnio lquido.
Kendall estava atordoada.
- Isso  mais de cem milhes para cada um de ns! No
posso acreditar! ;
Estou livre, pensou ela. Posso pagar a eles e ficar livre
para sempre. Ela fitou Marc, os olhos brilhando, apertou a
mo dele..
- Meus parabns - murmurou Marc.

Ele sabia mais do que os outros o que o dinheiro significaria.
Simon Fitzgerald continuou:
- Como sabem, noventa e nove por cento das cotas da
Simon Enterprises pertenciam a seu pai. Essas cotas sero
divididas entre vocs em partes iguais. Alm disso, agora que
Harry ' Stanford morreu, o juiz Stanford entra na posse do 
outro um por cento, que lhe foi deixado num fundo. Haver 
certas formalidades,  claro. E devo tambm inform-los de que 
h uma possibilidade de surgir outra herdeira.
- Outra herdeira? - repetiu Tyler.
- O testamento de seu pai estipula expressamente que a
herana deve ser dividida em partes iguais entre sua prole.
Peggy parecia perplexa.
- O que... o que est querendo dizer com prole?
Tyler explicou:
- Os descendentes naturais e os descendentes legalmente
adotados.
Fitzgerald balanou a cabea.
- Isso mesmo. Qualguer descendente nascido fora do casamento  
considerado um descendente da me e do pai, e conta
com a proteco determinada pela lei.
- Aonde est querendo chegar? - indagou Woody, impaciente.
- Que pode haver mais uma pessoa com direito  herana.
Kendall fitava-o atentamente.
- Quem?
Simon Fitzgerald hesitou. No havia como ter tacto agora.
- Tenho certeza que todos sabem que o pai de vocs, h
muitos anos, teve uma criana com uma governanta que trabalhou 
aqui.
- Rosemary Nelson - murmurou Tyler.
- Isso mesmo. A filha dela nasceu no Hospital St. Joseph,
em Milwaukee, e recebeu o nome de Julia.
Reinava um silncio opressivo na sala.
- Mas isso aconteceu h vinte e cinco anos! - exclamou
Woody.
- Vinte e seis, para ser mais exato.
- Algum sabe onde ela est? - perguntou Kendall.
Simon Fitzgerald podia ouvir a voz de Harry Stanford: Ela
me escreveu para dizer que era uma menina. Pois se pensa que
assim vai me arrancar algum dinheiro, pode ir para o inferno.
- No - respondeu ele, devagar. - Ningum sabe onde
ela se encontra.
- Ento por que estamos falando nisso?-insistiu Woody.
- Queria apenas que vocs soubessem que, se ela aparecer,
ter direito a uma parte igual no esplio.
- No creio que teremos de nos preocupar com isso - declarou 
Woody, confiante. -  provvel que ela nunca tenha sabido quem 
foi seu pai.
Tyler virou-se para Simon Fitzgerald.
- Diz que no sabe o valor exato do esplio. Posso
perguntar por que no?
- Porque nossa firma cuida apenas dos assuntos pessoais de seu 
pai. Os assuntos empresariais so representados por
duas outras firmas de advocacia. J entrei em contacto com 
elas e pedi que preparassem os relatrios financeiros o mais 
depressa possvel.
- E qual seria o prazo? - indagou Kendall, ansiosa. -
Precisaremos de cem mil dlares imediatamente, para cobrir

nossas despesas.
- Provavelmente dois a trs meses.
Marc percebeu a consternao no rosto da esposa. Virou-se
para Fitzgerald.
- No h algum meio de apressar o processo?
Foi Steve Sloane quem respondeu:
- Lamento, mas no  possvel. O testamento deve ser
homologado pelo tribunal de sucesses, que neste momento est
com uma agenda bastante carregada.
- O que  um tribunal de sucesses? - perguntou Peggy.
- Sucesses vem do latim successione...
- Ela no pediu uma porra de uma aula! - explodiu
Woody. - Por que no podemos resolver tudo num instante?
Tyler olhou para o irmo.
- Ajustia no funciona assim. Quando ocorre uma morte, o 
testamento deve ser submetido ao tribunal de sucesses. Tem
de haver uma avaliao de todo o esplio... bens imobilirios,
participaes em empresas, dinheiro, jias... e depois um
inventrio deve ser preparado e apresentado ao tribunal. Os
impostos so deduzidos e pagos os legados especficos. no fim, 
h uma petio para permitir a distribuio do saldo do 
esplio aos beneficirios.
Woody sorriu.
- Ora, no tem problema. Esperei quase quarenta anos
para me tornar um milionrio. Acho que posso esperar mais um
ou dois meses.
Simon Fitzgerald levantou-se.
" - Alm do que seu pai deixou para vocs, h alguns
pequenos legados, mas no chegam a afetar o grosso do esplio. 
-Fitzgerald correu os olhos pelos presentes. -E agora, se no
h mais nada...
Tyler tambm se levantou.
- Creio que no. Obrigado, Sr. Fitzgerald, Sr. Sloane. Se
surgir algum problema, entraremos em contacto.
Fitzgerald acenou com a cabea para o grupo.
' - Senhoras, senhores...
Encaminhou-se para a porta, seguido por Steve Sloane. L
fora, Simon Fitzgerald virou-se para Steve.
- Agora, j conhece a famlia. O que achou?
- Foi mais como uma comemorao do que como um
momento de luto. Se o pai os odiava tanto quanto eles parecem
odi-lo, por que lhes deixou todo o dinheiro?
Simon Fitzgerald encolheu os ombros.
-  uma coisa que nunca saberemos. Talvez fosse sobre
isso que ele queria me falar, deixar o dinheiro para outra
pessoa.
Ningum do grupo conseguiu dormir naquela noite, cada qual
" perdido em seus pensamentos.
Tyler pensou: Aconteceu. Realmente aconteceu! Posso oferecer o 
mundo a Lee. Qualquer coisa! Tudo!
Kendall pensou: Assim que obtiver o dinheiro, encontrarei
uma maneira de pagar a eles para sempre e cuidarei para que
nunca mais me incomodem.
Woody pensou: Terei os melhores pneis de plo do Mundo.
No precisarei mais tomar emprestados os pneis de outra
pessoa. E me tornarei um jogador de dez pontos! Ele olhou para
Peggy, dormindo ao seu lado. E minha primeira providncia
ser me livrar desta filha da puta estpida. Mas ele logo

concluiu: No, no posso fazer isso... E Woody saiu da cama, 
foi para o banheiro. Ao voltar, sentia-se maravilhoso.

O clima ao desjejum, na manh seguinte, era de exultao.
- Imagino que todos vocs tambm ficaram fazendo planos - 
comentou Woody, feliz.
Marc encolheu os ombros.
- Como se pode planear para uma coisa assim?  uma
quantia inacreditvel.
Tyler levantou os olhos.
- Com toda a certeza, vai mudar nossas vidas por completo.
Woody balanou a cabea.
- O miservel deveria ter nos dado o dinheiro enquanto
ainda era vivo, para podermos aproveitar antes. Se no  
impolido odiar um morto, devo lhes dizer uma coisa...
Kendall interrompeu-o, em tom de censura:
- Woody...
- Ora, no vamos ser hipcritas. Todos ns o desprezvamos, e 
ele bem que merecia. Pensem no que ele tentou...
Clark entrou na sala. Parou e ficou imvel por um instante,
contrafeito, antes de murmurar:
- Com licena. H uma certa Senhorita Julia Stanford na porta.

Captulo Treze

Julia Stanford?
Eles se entreolharam, aturdidos.
- No  possvel! -explodiu Woody.
Tyler apressou-se em dizer:
- Sugiro que passemos para a biblioteca. - Ele virou-se
para Clark. - Poderia lev-la at l, por favor?
- Pois no, senhor.
Ela parou na porta, fitando cada um, obviamente constrangida.
- Eu.. talvez no devesse ter vindo - murmurou ela.
- Tem toda a razo! - exclamou Woody. -
Afinal, quem  voc?
- Sou Julia Stanford.
Ela quase gaguejava em seu nervosismo.
- No  isso. Quem  voc realmente?
Ela ia dizer alguma coisa, mas depois sacudiu a cabea.
- Eu... Minha me era Rosemary Nelson. Harry Stanford
foi meu pai.
Os outros se entreolharam
- Tem alguma prova disso? - perguntou Tyler.
Ela engoliu em seco.
- Acho que no tenho nenhuma prova concreta.
- Claro que no tem! - disse Woody, rspido. - Como
tem a desfaatez...
Kendall interrompeu-o:
, -  um choque e tanto para todos ns, como
pode imaginar. Se o que diz  verdade, ento voc ... voc  
nossa meia-irm.
Ela acenou com a cabea.
- Voc  Kendall.
Ela virou-se para Tyler.
- Voc  Tyler.
Ela virou-se para Woody.
- E voc  Woodrow. Todos o chamam de
Woody.
- Como a revista People poderia ter lhe informado -
'" comentou Woody, sarcstico.
Tyler interveio:
- Tenho certeza que pode compreender nossa situao,
Senhorita... hen... Sem alguma prova positiva, no h
possibilidade de aceitarmos...
- Compreendo. - Ela olhou ao redor, bastante nervosa.
- No sei por que vim aqui.
- Acho que sabe - disse Woody. - Pelo dinheiro.
- No estou interessada no dinheiro - protestou ela,
indignada. - A verdade  que... vim aqui na esperana de
conhecer minha famlia.
Kendall estudava-a.
- Onde est sua me?
- Ela morreu. Quando soube que nosso pai havia morrido...
- Decidiu nos procurar- arrematou Woody, zombeteiro.
Tyler tornou a interferir:
- Voc diz que no tem prova legal de quem .
- Legal? Eu... acho que no. Nem pensei nisso. Mas h
coisas que eu no poderia saber se no as tivesse ouvido de
minha me.
- Por exemplo? - indagou Marc.

Ela pensou por um instante.
- Lembro que minha me costumava falar sobre uma
estufa nos fundos da casa. Ela adorava plantas e flores,
passava horas ali...
Woody ressaltou:
- Fotos dessa estufa apareceram em inmeras revistas.
- O que mais sua me lhe contou? - perguntou Tyler.
- Ah, foram tantas coisas! Ela adorava falar sobre todos
vocs e os bons tempos que passaram juntos. - Ela tornou a
pensar por um momento. - Houve o dia em que ela os levou a 
passear em pedalinhos, quando eram bem pequenos. Um de vocs 
quase caiu na gua. No me lembro quem.
Woody e Kendall olharam para Tyler.
- Fui eu - murmurou ele.
- Ela os levou para fazer compras no Filene's. Um de
vocs se perdeu e todos ficaram em pnico.
Kendall disse:
- Fui eu que me perdi naquele dia.
- E que mais? - indagou Tyler.
- Ela levou-o ao Union Oyster House, voc provou sua
primeira ostra e passou mal.
- Lembro disso.
Todos se entreolharam, sem falar. Ela olhou para Woody e
acrescentou:
- Voc e mame foram ao estaleiro naval em Charlestown 
visitarem o Constitution. Voc no queria ir embora e ela teve 
de arrast-lo. - Ela olhou para Kendall. - E um
dia, no Jardim Botnico, voc colheu algumas flores e quase 
foi presa.
Kendall engoliu em seco.
 -  verdade.
Todos escutavam com plena ateno agora, fascinados.
- Mame os levou um dia ao Museu de Histria Natural e ficaram 
apavorados com os esqueletos do mastodonte e da
serpente marinha.
- Nenhum de ns dormiu naquela noite - recordou Kendall.
Ela virou-se para Woody.
- Houve um Natal em que mame o levou para patinar.
Voc deu um tombo e quebrou um dente. Quando tinha sete
anos, caiu de uma rvore e teve de dar vrios pontos na perna.
Ficou com uma cicatriz.
- Ainda a tenho - admitiu Woody, relutante.
Ela virou-se para os outros.
- Um de vocs foi mordido por um cachorro. Esqueci qual.
Minha me teve de lev-lo s pressas para o pronto-socorro do
Hospital Geral de Massachusetts.
Tyler balanou a cabea.
- Tive de tomar as vacinas anti-rbicas.
As palavras da moa saam agora numa torrente.
- Woody, voc fugiu de casa quando tinha oito anos. Ia
para Hollywood, se tornar um ator. Seu pai ficou furioso.
Obrigou-o a ir para o quarto sem jantar. Mame foi at l s 
escondidas, levando comida.
Woody confirmou com um aceno de cabea, sem dizer nada.
- Eu... no sei o que mais lhes contar... -E de repente ela
se lembrou de uma coisa. - Tenho uma foto na bolsa.
Ela abriu a bolsa, tirou a foto, estendeu para Kendall. Todos
se agruparam para olhar. Era um retrato dos trs quando

crianas, ao lado de umajovem atraente, num uniforme de 
governanta.
- Mame me deu isso.
- Ela lhe deixou mais alguma coisa? - indagou Tyler.
Ela sacudiu a cabea.
- No. Sinto muito. Ela no queria qualquer coisa que a
lembrasse de Harry Stanford.
- Exceto voc,  claro - disse Woody.
Ela virou-se para ele, numa atitude desafiadora.
- No me importo se voc acredita ou no em mim. No
est entendendo... eu... esperava...
Ela no pde continuar. Tyler interveio:
- Como minha irm explicou, seu sbito aparecimento foi
um choque e tanto para ns. Afinal... algum surgir do nada e
alegar que  da famlia... pode perceber o nosso problema. 
Acho que precisamos de um pouco de tempo para conversar a esse 
respeito.
- Eu compreendo.
- Onde est hospedada?
- Tremont House.
- Por gue no volta para l? Mandaremos um carro lev-la.
E entraremos em contacto com voc em breve.
Ela acenou com a cabea.
- Est certo. - Ela fitou cada um por um momento, e depois 
acrescentou: - No importa o que pensem, vocs so a minha
fami'lia.
- Eu a acompanharei at  porta - props Kendall.
Ela sorriu.
- No h necessidade. Posso encontrar o caminho. Sinto
como se conhecesse cada palmo desta casa.
' Eles observaram-na se virar e deixar a biblioteca.
Kendall murmurou:
- Parece que temos uma irm.
- Ainda no acredito - insistiu Woody.
- Pois eu acho... - disse Marc.
Todos se puseram a falar ao mesmo tempo. Tyler ergueu a mo.
- Isso no vai nos levar a nenhuma concluso. Vamos
examinar a questo de uma maneira lgica. Num certo sentido,
essa moa est em julgamento aqui, e ns somos os jurados.
Cabe-nos determinar sua inocncia ou culpa. Num julgamento
por jri, a deciso deve ser unnime. Todos devemos concordar.
- Tem razo - disse Woody.
- Neste caso, gostaria de propor a primeira votao -
acrescentou Tyler. - Acho que a moa  uma fraude.
- Uma fraude? Como  possvel? - indagou Kendall. -
Ela no poderia conhecer todos aqueles detalhes ntimos sobre
ns se no fosse autntica.
Tyler virou-se para ela.
- Kendall, quantos criados trabalharam nesta casa quando
ramos crianas?
Kendall fitou-o, perplexa.
- Por qu?
- Dezenas, no  mesmo? E alguns poderiam saber de tudo
o que essa moa nos contou. Ao longo dos anos, houve 
arrumadeiras, motoristas, mordomos, cozinheiros. E qualquer um 
poderia tambm ter dado aquela foto a ela.
- Est querendo dizer... que talvez ela esteja em conluio
com algum?

- Ou mais de uma pessoa-ressaltou T ler. -No vamos
esquecer que h muito dinheiro envolvido.
- Ela diz que no quer o dinheiro - lembrou Marc.
Woody balanou a cabea.
- Isso  o que ela diz. - Ele olhou para Tyler. -Mas como
podemos provar que se trata de uma impostora? No h 
condio...
- H uma maneira - interrompeu-o Tyler, pensativo.
Todos se viraram para ele.
- Como? - perguntou Marc.
- Terei a resposta para vocs amanh.

I Simon Fitzgerald perguntou, em voz pausada:
- Est me dizendo que Julia Stanford apareceu, depois de
todos esses anos?
- Uma mulher que alega ser Julia Stanford - corrigiu
Tyler.
- E no acreditam nela? - indagou Steve.
- Claro que no. As nicas supostas provas de sua identidade 
que ela ofereceu foram alguns incidentes de nossa infncia
que pelo menos uma dzia de ex-empregados poderiam conhecer, 
alm de uma foto antiga, que no prova coisa alguma. Ela
pode estar em conluio com qualquer deles. Tenciono provar que
 uma impostora.
Steve franziu o rosto.
- E como pretende fazer isso?
- Muito simples. Quero que seja realizado um teste de D.N.A.
Steve Sloane se mostrou surpreso.
- Isso exigiria a exumao do corpo de seu pai.
- Sei disso. - Tyler olhou para Simon Fitzgerald. -
Haveria algum problema?
- Nas circunstncias, creio que eu conseguiria obter uma
ordem judicial para a exumao. Ela concordou com o teste?
" - Ainda no falei com ela. Se recusar,  uma
confirmao de que receia o resultado. - Tyler hesitou. -Devo 
confessar que no me agrada fazer isso. Mas acho que  o nico 
meio de determinarmos a verdade.
Fitzgerald pensou por um momento.
- Muito bem. - Ele olhou para Steve. - Pode cuidar disso?
- Claro. - Steve virou-se para Tyler. - Provavelmente
conhece o procedimento. O parente mais prximo... neste caso,
qualquer dos filhos do falecido... tem de solicitar a 
autorizao para a exumao ao juiz de instruo. Devero 
apresentar os motivos para o pedido. Se for aprovado, o juiz 
de instruo entrar em contato com o pessoal do cemitrio. Um 
representante seu dever estar presente no momento da 
exumao.
- Quanto tempo tudo isso vai demorar? - perguntou Tyler.
- Eu diria que trs ou quatro dias para se obter autorizao. 
, Hoje  quarta-feira. Deveremos ter condies de
exumar o corpo na segunda-feira.
- ptimo. - Tyler hesitou. - Vamos precisar de um perito
em D.N.A, algum que seja convincente num tribunal, se 
chegarmos a esse ponto. Espero que conheam algum.
- Conheo o homem certo - disse Steve. - Seu nome 
Perry Winger. Ele est em Boston neste momento. Presta 
depoimentos como perito em tribunais de todo o pas. Falarei 
com ele.

- Obrigado. Quanto mais cedo acabarmos com isso, melhor ser 
para todos.
s dez horas da manh seguinte, Tyler entrou na biblioteca de
Rose Hill, onde Woody, Peggy, Kendall e Marc esperavam. Era 
acompanhado por um estranho.
- Quero apresent-los a Perry Winger - disse Tyler.
- Quem  ele? - perguntou Woody.
-  nosso perito em D.N.A.
Kendall fitou Tyler.
- E para que precisamos de um perito em D.N.A.?
- Para provar que aquela estranha, que surgiu do nada de
uma forma to conveniente,  uma impostora - respondeu
Tyler. - No tenho a menor inteno de permitir que ela escape
impune com sua farsa.
- Vai desenterrar o velho? - indagou Woody.
- Isso mesmo. Pedi a nossos advogados para providenciarem a 
ordem de exumao. Se a mulher for nossa meia-irm, o
teste de d.n.a. o provar. Se no for, isso tambm ficar
provado.
- No entendo muito esse negcio de d.n.a. - murmurou Marc.
Perry Winger limpou a garganta.
- Nos termos mais simples, o cido desoxirnbonuclico...
ou d.n.a...  a molcula da hereditariedade. Contm o cdigo
gentico singular de cada pessoa. Pode ser extrado de
vestgios de sangue smen, saliva, razes de cabelos e at dos 
ossos. Seus vestgios podem ser encontrados num cadver por 
mais de cinquenta anos.
- Entendo-disse Marc. -Parece mesmo muito simples.
Perry Winger franziu o rosto.
- Acredite em mim, no , no. H dois tipos de teste de
D.N.A. O teste PCR, cujos resultados demoram trs dias e o
RFLP, mais complexo, que leva de seis a oito semanas. Para
nossos propsitos, o teste mais simples ser suficiente.
- Como se faz o teste? - perguntou Kendall.
- H vrias etapas. Primeiro, a amostra  colhida e o d.n.a. 
cortado em fragmentos. Os fragmentos so
separados por extenso, colocando-os numa camada de gel, pela 
qual se passa uma corrente eltrica. O d.n.a., que tem carga 
negativa, desloca-se para o positivo e algumas horas depois os 
fragmentos esto dispostos pelo comprimento. - Winger comeava 
a se mostrar entusiasmado na descrio. - Substncias qumicas 
alcalinas so usadas para separar os fragmentos, transferidos 
em seguida para uma camada de nylon, que  imersa num banho, e 
sondas radioactivas...
Os olhos dos ouvintesj se tornavam vidrados.
- Qual a preciso do teste? - interrompeu Woody.
-  cem por cento acurado para determinar se o homem
no  o pai. Se o teste for positivo,  noventa e nove vrgula 
nove por cento acurado.
Woody virou-se para o irmo.
- Tyrler, voc juiz. Vamos supor que ela seja mesmo filha
de Harry Stanford. A me dela e o nosso pai nunca foram
casados. Por que ela teria direito a qualquer coisa?
- Por lei - explicou Tyler -, se a
paternidade de nosso pai for determinada, ela teria direito a 
uma parte igual  nossa.
- Neste caso, vamos logo fazer esse teste de d.n.a. e
desmascar-la!

Tyler, Woody, Kendall, Marc e Julia ocupavam uma mesa no
restaurante do Tremont House. Peggy ficara em Rose Hill.
- Toda essa conversa de desenterrar um cadver me deixa
arrepiada - comentou ela.
O grupo estava de frente para a mulher que alegava ser Julia
Stanford.
- No consigo entender o que esto me pedindo para fazer.
-  muito simples - disse Tyler. - Um mdico vai tirar uma 
amostra de sua pele para compar-la com a de nosso pai. Se as 
molculas de d.n.a. combinarem,  a prova positiva de que
voc  mesmo filha dele. Por outro lado, se no estiver
disposta a fazer o teste...
- Eu... isso no me agrada.
Woody pressionou-a:
- Por que no?
- No sei... - Ela estremeceu. - A idia de desenterrar o 
corpo de meu pai para... para...
- Para provar quem voc .
Ela fitou o rosto de cada um.
- Eu gostaria que todos vocs...
- O qu?
- No h possibilidade de eu poder convenc-los, no ?
- H, sim - respondeu Tyler. - Basta fazer o teste.
Houve um silncio prolongado.
- Est bem, farei o teste.

Foi mais difcil do que se esperava obter a ordem de exumao.
Simon Fitzgerald teve de conversar pessoalmente com ojuiz de
instruo.
- No, Simon, no posso fazer isso! J pensou na repercusso 
que haveria? Afinal, no se trata de um homem qualquer,
mas de Harry Stanford. Se a notcia vazasse, seria um 
escndalo na mdia.
-  muito importante, Marvin. H milhes de dlares em jogo. 
Basta cuidar para que no vaze.
- No h nenhuma outra maneira pela qual voc possa...?
- Infelizmente, no. A mulher  bastante convincente.
- Mas a famlia no est convencida.
- Isso mesmo.
- Voc acha que ela  uma impostora, Simon?
- Para ser franco, no sei. Mas minha opinio no importa.
Na verdade, a opinio de qualquer um de ns no importa. Um
tribunal vai exigir uma prova e o teste de d.n.a. a fornecer.
Ojuiz sacudiu a cabea.
- Conheci o velho Harry Stanford. Ele teria detestado isso.
Eu no deveria permitir...
- Mas vai permitir.
Ojuiz suspirou.
- Acho que sim. Poderia me fazer um favor?
- Claro.
- Mantenha tudo na maior discrio. No vamos permitir
que a mdia crie um circo.
- Tem minha palavra. Ser um caso ultra-secreto. S a
fami'lia estar presente.
- Quando quer fazer a exumao?
- Eu gostaria que fosse na segunda-feira.
! Ojuiz tornou a suspirar.
- Muito bem, falarei com a direco do cemitrio. Fica me

devendo uma, Simon.
- No esquecerei.

, s nove horas da manh de segunda-feira, a
entrada para a parte do Cemitrio Mount Auburn em que fora 
sepultado o corpo de Harry Stanford foi fechada 
temporariamente para "servios de manuteno". Ningum tinha 
permisso para entrar ali. Woody, Peggy, Tyler, Kendall, Marc, 
Julia, Simon Fitzgerald, Steve Sloane e o Dr Collins, 
representante do juiz de instruo, postaram-se ao lado da 
sepultura de Harry Stanford, observando quatro empregados do 
cemitrio levantarem o caixo. Perry Winger esperava ao lado.
Depois que o caixo foi baixado para o solo, um dos coveiros
virou-se para o grupo.
- O que querem que a gente faa agora?
- Abram o caixo, por favor - pediu Fitzgerald, virando-se em 
seguida para Perry Winger. - Quando tempo vai demorar?
- No mais que um minuto. S vou remover uma pequena
amostra da pele.
- Est certo. - Fitzgerald acenou com a cabea para o
coveiro. - Podem abrir.
Os coveiros comearam a desatarraxar os pinos da tampa do 
caixo.
- No quero ver - murmurou Kendall. -  mesmo
necessrio?
- , sim! - declarou Woody. - Temos de ver!
Todos observavam, fascinados, enquanto a tampa do caixo
era retirada, posta de lado. E todos ficaram aturdidos, 
olhando para o interior do caixo.
- Oh, Deus! -exclamou Kendall.
O caixo estava vazio.

Captulo catorze

De volta a Rose Hill, Tyler acabara de desligar o telefone.
- Fitzgerald garante que no haver vazamentos para a 
imprensa. O cemitrio certamente no quer esse tipo
de publicidade negativa. Ojuiz de instruo determinou que o 
Dr. Collins ficasse de boca fechada e podemos confiar que 
Perry Winger no dir nada.
Woody no estava prestando ateno.
- No sei como a desgraada conseguiu! Mas ela no
vai escapar impune! - Ele lanou um olhar furioso para os
outros. - Vocs tambm no imaginam como ela pde fazer
isso, no ?
Foi Tyler quem respondeu, em voz pausada:
- No posso deixar de concordar com voc, Woody. Ningum mais 
poderia ter um motivo para fazer isso. A mulher  esperta e 
engenhosa, e parece bvio que no trabalha sozinha. No sei 
exatamente o que temos de enfrentar
- O que faremos agora? - indagou Kendall.
Tyler encolheu os ombros.
- Para ser franco, no sei. Bem que gostaria de saber. De
qualquer forma, tenho certeza de que ela vai contestar o
testamento no tribunal.
- Ela tem alguma possibilidade de ganhar? - perguntou
Peggy, timidamente.
- Receio que sim. Ela  muito persuasiva. At convenceu
alguns de ns.
- Mas tem de haver alguma coisa que possamos fazer! -
exclamou Marc. - Que tal chamar a polcia?
- Fitzgerald informa que eles j esto investigando o 
desaparecimento, mas chegaram a um beco sem sada - respondeu 
Tyler. - A polcia tambm quer manter toda a discrio no
caso, ou ter todos os malucos da cidade apresentando um
cadver.
- Podemos pedir  polcia que investigue essa impostora!
Tyler sacudiu a cabea.
- No  um caso para a polcia.  um problema particular..
- Ele fez uma pausa e acrescentou, pensativo: - Sabem de
uma coisa...
- O qu?
- Podemos contratar um detective particular para tentar
desmascar-la.
- No  m idia. Conhece algum?
- No, no aqui. Mas podemos pedir a Fitzgerald que arrume 
algum. Ou... - Tyler hesitou. - Nunca o conheci pessoalmente, 
mas j ouvi falar muito de um detective particular
que o promotor distrital de Chicago costuma usar. Ele tem uma
excelente reputao.
- Por que no descobrimos se podemos contrat-lo? -
sugeriu Marc.
Tyler ftou os outros.
- Vai depender de vocs.
- O que temos a perder? - indagou Kendall.
- Ele pode cobrar alto - advertiu Tyler.
Woody soltou uma risada desdenhosa.
- Cobrar caro? Ora, estamos falando de milhes de dlares!
Tyler acenou com a cabea.
- Tem razo.

- Qual  o nome dele?
Tyler franziu o rosto.
- No me lembro... Sim son... Simmons... Algo parecido. Posso 
ligar para o gabinete do promotor distrital em Chicago.
Os outros observaram Tyler pegar o telefone e discar. Dois
minutos depois, ele estava falando com um assistente do 
promotor distrital.
- Aqui  ojuiz Tyler Stanford. Soube que vocs contratam
de vez em quando um detective particular que costuma realizar
um excelente trabalho. O nome dele  Simmons ou...
A voz no outro lado disse:
- Deve estar se referindo a Frank Timmons.
-  isso mesmo, Timmons! -Tyler olhou para os outros,
sorrindo. - Poderia me dar o telefone dele, para eu entrar em
contacto directamente?
Depois de anotar o telefone, Tyler desligou e virou-se para os 
outros.
- Se todos esto de acordo, falarei com ele.
Todos assentiram. '

Na tarde seguinte, Clark entrou na sala de estar, onde todos
esperavam.
- O Sr. Timmons est aqui.
Era um homem na casa dos quarenta anos, com a pele clara
e o corpo largo de um pugilista. Tinha o nariz quebrado e 
olhos brilhantes e inquisitivos. Olhou para Tyler, Marc e 
Woody.
- Juiz Stanford?
Tyler balanou a cabea.
- Sou o juiz Stanford.
- Frank Timmons.
- Sente-se, por favor, Sr. Timmons.
- Obrigado. -O detective sentou-se. -Foi o senhor quem
me telefonou, certo?
- Certo.
- Para ser franco, no sei como poderia ajud-lo. No
tenho contactos oficiais aqui.
-  uma questo extra-oficial - explicou Tyler. - Queremos 
apenas que descubra os antecedentes de uma moa.
- Disse pelo telefone que ela alega ser sua meia-irm, mas
no h como realizar um teste de d.n.a.
- Isso mesmo - confirmou Woody.
Timmons correu os olhos pelo grupo.
- E no acreditam que ela seja a meia-irm de vocs?
Houve um momento de hesitao.
- No, no acreditamos - respondeu Tyler. - Por outro
lado, tambm  possvel que ela esteja dizendo a verdade.
Queremos contrat-lo para nos fornecer uma prova irrefutvel
de que ela  genuna ou uma impostora.
- Muito justo. Vai custar mil dlares por dia, mais as
despesas.
- Mil dlares? - repetiu tyler.
- Ns pagaremos - interveio Woody.
- Precisarei de todas as informaes que tiverem sobre
essa mulher.
- Parece no haver muita coisa - disse Kendall.
Tyler acrescentou:
- Ela no tem qualquer prova. Veio com vrias histrias

que supostamente a me lhe contou sobre a nossa infncia e...
Timmons ergueu a mo.
- Espere um instante. Quem era a me dela?
- Sua suposta me era uma governanta que
tivemos quando crianas, chamada Rosemary Nelson.
- O que aconteceu com ela?
Eles trocaram olhares, contrafeitos. Foi
Woody quem respondeu:
- Ela teve um caso com nosso pai e engravidou. Fugiu
e teve uma filha. - Woody encolheu os ombros. - Ela 
desapareceu.
- Entendo. E essa mulher alega ser a flha dela?
- Isso mesmo.
- No  muita coisa. - Ele pensou por um instante. -
Muito bem, verei o que posso fazer.
- Isso  tudo o que pedimos - murmurou Tyler.

A primeira providncia de Timmons foi ir  biblioteca pblica
de Boston e ler todos os arquivos sobre o escndalo, ocorrido
26 anos antes, envolvendo Harry Stanford, a governanta e o
suicdio da Sra. Stanford. Havia material suficiente para um
romance.
A providncia seguinte foi visitar Simon Fitzgerald.
- Meu nome  Frank Timmons. Sou...
- Sei quem , Sr. Timmons. Ojuiz Stanford me pediu para 
cooperar. Em que posso ajud-lo?
- Quero descobrir a filha ilegtima de Harry Stanford. Ela
estaria com vinte e seis anos agora, no  mesmo?
- , sim. Ela nasceu a 9 de agosto de 1969, no Hospital St.
Joseph, em Milwaukee, Wisconsin. A me deu-lhe o nome de
Julia. - Fitzgerald encolheu os ombros. - As duas 
desapareceram. Lamento, mas isso  tudo o que sei.
-  um comeo - murmurou Timmons. -  um comeo.

A Sra. Dougherty, superintendente do Hospital St. Joseph, em
Milwaukee, era uma mulher de cabelos grisalhos, na casa dos 
setenta anos.
- Claro que me lembro - disse ela. - Como poderia um
dia esquecer? Foi um tremendo escndalo. Sairam notcias em
todos os jornais. Os reprteres daqui descobriram quem era ela
e no deixavam a pobre coitada em paz.
- Para onde ela foi depois que saiu daqui com a criana?
- No sei. Ela no deixou nenhum endereo.
- Ela pagou toda a conta antes de ir embora, Sra. Dougherty?
- Para ser franca... no.
- Como se lembra disso?
- Porque foi muito triste. Lembro-me que ela sentou-se nessa
mesma cadeira, e me disse que s poderia pagar parte da conta, 
mas prometeu me enviar mais tarde o resto do dinheiro. Era
contra as normas do hospital,  claro, mas eu sentia tanta
pena, porque ela passava mal na ocasio, que acabei 
concordando.
- E ela mandou o resto do dinheiro?
- Claro que sim. Cerca de dois meses depois. Lembro-me
agora. Ela arrumou um emprego num servio de datilografia.
- Por acaso se lembra onde ficava esse servio?
Timmons fez uma pausa.
- Segui a pista at a Flrida, onde ela trabalhou na Agncia

Vendaval. As duas se mudaram vrias vezes. Acompanhei a pista
a San Francisco, onde elas residiram at dez anos atrs. Esse 
foi o fim da trilha. Depois disso, elas desapareceram.
Ele levantou os olhos.
- Ento  isso, Timmons? - indagou Woody. - Perdeu
a pista h dez anos?
- No  bem assim. - Ele tirou outro papel da pasta. -
A filha, Julia, solicitou uma carteira de motorista quando
tinha dezassete anos.
- De que isso nos adianta? - perguntou Marc.
- No estado da Califrnia, as fichas de motorista incluem as 
impresses digitais. - Timmons suspendeu um
carto. - Estas so as impresses digitais da verdadeira Julia
Stanford.
Tyler interveio, excitado:
- J entendi! Se combinarem...
' Woody interrompeu-o:
- Ento ela seria mesmo nossa irm!
Timmons balanou a cabea.
- Exactamente. Trouxe um equipamento de tirar impresses 
digitais porttil, caso queiram verificar agora. Ela est 
aqui?
- Est num hotel - disse Tyler - Temos falado com ela
todas as manhs, persuadindo-a a ficar at que tudo seja
esclarecido.
- Ns a pegamos! - exclamou Woody. - Vamos at l!

Meia hora depois, o grupo entrou num quarto no Tremont House.
Ela arrumava uma mala.
- Para onde voc vai? - perguntou Kendall.
Ela virou-se para encar-la.
- Vou voltar para casa. Foi um erro ter vindo para c.
Tyler protestou:
- No pode nos culpar por..?
Ela virou-se para ele, furiosa.
- Desde que cheguei no tive outra coisa alm de suspeita.
Acham que vim aqui para arrancar algum dinheiro de vocs. Pois
no  nada disso. Vim porque queria encontrar minha famlia.
Eu... Ora, no importa!
Ela voltou a arrumar suas coisas. Tyler acrescentou:
- Este  Frank Timmons, um detective particular
Ela virou-se.
- O que  agora? Vo me prender?
- No, madame. Julia Stanford tirou uma carteira de motorista 
em San Francisco quando tinha dezessete anos.
Ela parou.
- Isso mesmo, foi o que fiz.  contra a lei?
- No, madame. A questo  que...
Tyler interveio:
- Aquesto  que as impresses digitais de Julia Stanford
constam do pronturio.
Ela fitou-os.
- No estou entendendo. O que...? .
Woody explicou:
- Queremos conferi-las com as suas impresses digitais.
Ela contraiu os lbios.
- No! No vou permitir!

- Est dizendo que no vai nos deixar tirar suas impresses 
digitais?
- Isso mesmo.
- Por que no? - perguntou Marc.
O corpo dela estava rgido.
- Porque vocs me fazem sentir como se eu fosse alguma
criminosa. J chega! Quero que me deixem em paz!
Kendall interveio, gentilmente:
- Esta  a sua oportunidade de provar quem . Estamos to
transtornados quanto voc por tudo isso. Gostaramos de 
esclarecer a questo de uma vez por todas.
Ela ficou parada ali, fitando-os nos olhos, um a um. Acabou
murmurando, cansada:
- Est bem, vamos acabar logo com isso.
- Sr Timmons... - disse Tyler.
- Pois no. -Ele tirou da pasta um pequeno equipamento
de impresses digitais, ps em cima da mesa. Abriu a almofada 
com tinta. - Agora, se vier at aqui, por favor...
Os outros observaram enquanto ela se encaminhava para a
mesa. Timmons pegou a mo dela e comprimiu os dedos na
almofada, um a um. Em seguida, comprimiu-os contra uma folha
de papel em branco.
- Pronto. No foi to ruim assim, no ?
Ele ajustou as impresses no pronturio ao lado das que
acabara de tirar. O grupo foi at a mesa, examinou os dois
conjuntos de impresses digitais.
Eram idnticos.
Woody foi o primeiro a falar:
- So... iguais.
Kendall olhava para as impresses com uma mistura de
sentimentos.
-  mesmo nossa irm, no ?
Ela sorria atravs das lgrimas.
-  o que estou tentando lhes dizer desde o incio.
Todos desataram de repente a falar ao mesmo tempo.
- Incrvel !
- Depois de tantos anos...
- Por que sua me nunca voltou...?
- Lamento que a tenhamos feito passar por momentos to 
difceis...
O sorriso dela iluminou o quarto.
- Est tudo bem agora. No haver mais problemas.
Woody pegou o carto com as impresses digitais, reverente.
- Por Deus, este  um carto de um bilho de dlares! - Ele 
guardou-o no bolso. - Vou mandar dour-lo.
Tyler virou-se para os outros.
- Isto exige uma comemorao para valer! Sugiro que
voltemos todos a Rose Hill. - Ele virou-se para ela, sorrindo.
- Vamos Lhe oferecer uma festa de boas-vindas.
Ela contemplou-os, os olhos brilhando.
-  como um sonho que se transforma em realidade.
Finalmente tenho uma famlia!

Meia hora depois estavam de volta a Rose Hill, e ela foi se
instalar em seu novo quarto. Os outros ficaram l embaixo,
conversando.
- Ela deve ter experimentado a sensao de passar pela
Inquisio - comentou Tyler.
- E passou mesmo - disse Peggy. - No sei como pde

aguentar.
- Eu me pergunto como vai se ajustar  sua nova vida -
acrescentou Kendall.
- Da mesma maneira como todos ns vamos nos ajustar
- assegurou Woody, secamente. - Com muito champanhe e
caviar.
Tyler levantou-se.
- Confesso que me sinto contente por tudo estar resolvido.
Vou subir para perguntar se ela precisa de alguma ajuda.
Ele subiu, atravessou o corredor at o quarto dela, bateu na
porta e chamou:
- Julia?
- Est aberta. Pode entrar.
Tyler ficou parado na porta, e os dois se fitaram em
silncio.
Depois, ele fechou a porta, estendeu as mos e se desmanchou
num sorriso, enquanto murmurava:
- Ns conseguimos, Margo! Conseguimos!

Captulo quinze

Ele conspirara com a extrema habilidade de um mestre
no xadrez. S que esta fora a partida de xadrez mais lucrativa
da histria, com apostas de bilhes de dlares... e ele 
vencera!
Experimentava um senso de poder invencvel.  assim que voc
se sentia quando fechava um grande negcio, pai? Pois este 
um negcio maior do que todos os que voc fez. Planeei o
crime do sculo, e tudo deu certo.
Num certo sentido, tudo comeara com Lee. E Lee era uma
pessoa linda e maravilhosa. A pessoa que ele mais amava no
mundo. Haviam se conhecido no Berlin, o bar dos gays na West
Belmont Avenue. Lee era alto, musculoso e louro, o homem mais
bonito que Tyler j vira em toda a sua vida.
O encontro comeou com uma proposta:
 " - Posso Lhe pagar um drinque?
Lee o fitou e acenou com a cabea em concordncia.
- Seria timo.
Depois do segundo drinque, Tyler sugeriu:
- Por que no vamos tomar o prximo drinque em minha casa?
Lee sorriu.
- Eu sou caro.
- Caro at que ponto?
- Quinhentos dlares por uma noite.
Tyler no hesitou.
- Vamos embora.

Passaram a noite na casa de Tyler.
Lee era carinhoso, sensvel e interessado, e Tyler sentiu com
ele uma intimidade quejamais experimentara com qualquer outro
ser humano. Foi dominado por emoes quejamais imaginara que
existissem. Pela manh, Tyler estava perdidamente apaixonado.
No passado, ele pegara rapazes no Cairo e no Bijou Theater,
em vrios outros pontos de encontro dos gays em Chicago, mas
compreendeu agora que tudo isso mudaria. Dali por diante, s
queria Lee.
Enquanto preparava o desjejum, Tyler perguntou:
- O que gostaria de fazer esta noite?
Lee fitou-o com alguma surpresa.
- Desculpe, mas tenho um compromisso esta noite.
Tyler teve a sensao de ter sido golpeado na barriga.
- Mas, Lee, pensei que voc e eu...
- Tyler, meu guerido, sou uma mercadoria cara. Vou para
quem oferece mais. Gosto de voc, mas receio que no tenha
condies de me sustentar.
- Posso lhe dar qualquer coisa que quiser.
Lee sorriu, indolente.
-  mesmo? Pois quero uma viagem a St. 'IYopez, num
lindo iate branco. Pode me oferecer isso?
- Sou mais rico do que todos os seus amigos juntos, Lee.
-  mesmo? Pensei que tinha dito que era juiz.
- E sou, mas vou ser rico... muito rico.
Lee enlaou-o.
- No se angustie, Tyler. Tenho uma semana livre, a partir
da prxima quinta-feira. Hum, esses ovos parecem deliciosos...
Isso foi o incio. O dinheiro j era importante para Tyler
antes, mas a partir daquele momento se tornou uma obsesso.

Precisava de dinheiro para Lee. No conseguia tir-lo dos seus
pensamentos. A perspectiva de fazer amor com outros homens era 
insuportvel. Preciso ter Lee s para mim.

Desde os doze anos de idade que T ler sabia que era 
homossexual. Um dia o pai o surpreendeu acariciando e beijando 
um colega da escola, e Tyler teve de suportar todo o impacto 
da ira de Harry Stanford.
- No posso acreditar que tenho um filho bicha! Agora que
conheo seu segredinho sujo, ficarei de olho em voc.

O casamento de tyler foi uma piada csmica, perpetrada por um 
deus com um macabro senso de humor.
- H algum que quero que voc conhea - disse Harry Stanford.
Era Natal e Tyler estava em Rose Hill para os feriados.
Kendall e Woody j haviam partido, e Tyler planeava ir embora
tambm quando a bomba foi lanada.
- Voc vai casar.
- Casar? De jeito nenhum! Eu no...
- Escute aqui, seu maricas. As pessoasj comeam a falar
de voc, e no posso admitir.  prejudicial para a minha
reputao. Se voc casar, todos vo se calar
Tyler assumiu uma atitude de desafio.
- No me importo com o que as pessoas dizem. A vida  minha.
- E quero que seja uma vida rica, Tyler. Estou envelhecendo. 
Muito em breve...
E Harry Stanford encolheu os ombros.
A vara e a cenoura.

Naomi Schuyler era uma mulher feia, de uma famlia de classe
mdia, cujo maior desejo na vida era "melhorar". Ficou to
impressionada com o nome de Harry Stanford que teria casado
com o filho dele mesmo que fosse um atendente de posto de
gasolina, em vez de umjuiz.
Harry Stanford levou Naomi para a cama uma vez. Quando
algum lhe perguntou porqu, Stanford respondeu:
- Porque ela estava ali.
Mas ela logo o entediou, e Harry Stanford decidiu que seria
a esposa perfeita para Tyler.
E o que Harry Stanford queria, Harry Stanford conseguia.
O casamento foi celebrado dois meses depois. Foi um casamento 
pequeno - apenas 150 convidados - e os recm-casados foram 
para a Jamaica em lua-de-mel. Que foi um fracasso.
Na noite de npcias, Naomi disse:
- Pelo amor de Deus, com que tipo de homem me casei?
Para que  que voc tem um pau?
Tyler tentou argumentar com ela.
- No precisamos de sexo. Podemos levar vidas separadas. 
Ficaremos juntos, mas cada um ter seus prprios... amigos.
- Tem toda a razo!  isso mesmo que vou fazer!
Naomi vingou-se dele tornando-se uma compradora faixa-preta. 
Comprava tudo nas lojas mais caras da cidade e realizava
excurses de compras a Nova York.
- No posso pagar suas extravagncias com o meu salrio - 
protestou Tyler
- Ento pea um aumento. Sou sua esposa. Tenho direito
a ser sustentada. '

 Tyler procurou o pai, explicou a situao. Harry Stanford 
sorriu.
- As mulheres podem ser bastante dispendiosas, hem?
Voc ter de dar um jeito.
- Mas preciso de algum...,
- Um dia voc ter todo o dinheiro do mundo.
 Tyler tentou explicar a Naomi, mas ela no tinha inteno
de esperar at "um dia". Sentia que esse "um dia" talvez nunca 
chegasse. Depois de arrancar tudo o que podia de Tyler, Naomi
pediu o divrcio, contentou-se com o que restava na conta
bancria dele e desapareceu. Ao ouvir a notcia, Harry
Stanford comentou:
- Uma vez veado, sempre veado.
E assim terminou o casamento.

O pai fazia tudo o que podia para humilhar Tyler. Um dia, 
quando, Tyler estava no tribunal, no meio de umjulgamento, o 
escrivo se aproximou para sussurrar:
- Com licena, meritssimo...
Tyler virou-se para ele, impaciente.
- O que ?
- Est sendo chamado ao telefone.
- Mas o que h com voc? Sabe que estou no meio de...
-  seu pai, meritssimo. Ele diz que  muito urgente,
precisa lhe falar imediatamente.
Tyler ficou furioso. O pai no tinha o direito de 
interromp-lo. Sentiu-se tentado a ignorar o telefonema. Mas, 
por outro lado, se era to urgente... Tyler levantou-se.
- O tribunal entra em recesso por quinze minutos.
Tyler voltou apressado para sua sala, pegou o telefone.
- Pai?
- Espero no estar incomodando-o,.Tyler.
 Havia malcia na voz de Harry Stanford.
, - Para ser franco, est, sim. Estou no meio
de um julgamento e...
- Ora, aplique logo a multa de trnsito e esquea.
- Pai...
- Preciso de sua ajuda num problema srio.
- Que tipo de problema?
- Meu cozinheiro est me roubando.
Tyler no podia acreditar no que ouvia. Ficou to furioso que
mal conseguia falar.
- Tirou-me do meio de um julgamento porque...
- Voc no representa a lei? Pois ele est violando a lei.
Quero que volte a Boston para investigar todos os meus 
empregados. Eles esto me roubando.
; ' Tyler teve de fazer um grande esforo para no explodir.
- Pai...
- No se pode confiar nessas agncias de empregos.
- Estou no meio de um julgamento. No posso voltar a
Boston agora.
Houve um silncio sinistro.
- O que voc disse?
- Eu disse...
- No vai me desapontar de novo, no , Tyler? Talvez eu
deva conversar com Fitzgerald sobre algumas mudanas em
meu testamento.
E l estava a cenoura outra vez. O dinheiro. Sua parte nos
bilhes de dlares esperando-o quando o pai morresse. Tyler

limpou a garganta. '
- Se puder mandar seu avio me buscar..
- Claro que no! Sejogar suas cartas direito,juiz, o avio
lhe pertencer algum dia. Pense nisso. Enquanto espera, venha
para c num vo comercial, como todo mundo. Mas quero que
venha para c sem demora!
A linha ficou muda. Tyler continuou sentado ali, tremendo
em humilhao. Meu pai fez isso comigo por toda a minha vida.
Ele que se dane! No irei. Isso mesmo, no irei.
Tyler voou para Boston naquela mesma noite.

Harry Stanford tinha 22 empregados em sua casa. Era uma equipa 
de secretrias, mordomos, arrumadeiras, cozinheiros, 
motoristas, jardineiros e um segurana.
- Ladres, todos eles! - queixou-se Harry Stanford a Tyler.
- Se est to preocupado, por que no contrata um detective
particular ou procura a polcia?
- Porque tenho voc - respondeu o pai. - No  juiz?
Pois ento julgue-os para mim.
Era pura maldade.
Tyler correu os olhos pela vasta casa, com seus valiosos
mveis e obras de arte, e pensou na melanclica casinha em que
morava.  isto o que eu mereo ter, concluiu ele. E um dia  o
que terei.

Tyler conversou com o mordomo, Clark, e os outros empregados
mais antigos. Entrevistou todos os que trabalhavam na casa, um
a um, e verificou seus curriculos. Quase todos eram
relativamente novos, porque Harry Stanford era um patro 
insuportvel. A rotatividade de empregados na casa era 
extraordinria. Alguns duravam apenas um ou dois dias. Uns 
poucos novos empregados eram culpados de pequenos furtos, 
havia um alcolatra; afora isso, porm, Tyler no encontrou 
nenhum problema. Exceto por Dmitri Kaminsky.

Dmitri Kaminsky fora contratado por seu pai como segurana e
massagista. A magistratura transformara Tyler num bom juiz de
carter, e havia alguma coisa em Dmitri de que ele desconfiou
no mesmo instante. Era o mais novo empregado. O antigo
segurana de Harry Stanford pedira demisso - Tyler podia
imaginar porqu -e recomendara Kaminsky para substitu-lo.
O homem era enorme, peito estufado, braos grandes e
musculosos. Falava ingls com forte sotaque russo.
- Quer falar comigo?
- Quero, sim. - Tiler indicou uma cadeira. - Sente-se.
Ele examinara a ficha de emprego do homem, que pouco
revelava, exceto que no havia muito tempo que Dmitri viera da 
Rssia.
- Nasceu na Rssia?
- Nasci.
Ele observava Tyler, cauteloso.
- Em que lugar?
- Smolensk.
- Por que deixou a Rssia e veio para os Estados Unidos?
Kaminsky encolheu os ombros.
- H mais oportunidades aqui.
Oportunidades para qu?, especulou Tyler. Havia alguma
coisa evasiva na atitude do homem. Conversaram por vinte

minutos, e no fim Tyler estava convencido de que Dmitri
Kaminsky escondia alguma coisa.
Tyler telefonou para Fred Masterson, um conhecido no FBI.
- Fred, preciso que me preste um favor
- Claro. Se algum dia eu for a Chicago, voc vai relevar
minhas multas de trnsito?
- Falo srio.
- Pode dizer
- Quero que verifique um russo que veio para c h seis meses.
- Espere um instante. No deveria falar com a CIA?
- Talvez, mas acontece que no conheo ningum na CIA.
- Nem eu.
- Se puder fazer isso por mim, Fred, ficarei profundamente
agradecido.
Tyler ouviu um suspiro.
- Muito bem. Qual  o nome dele?
- Dmitri Kaminsky.
- Vou lhe dizer o que farei. Conheo algum na embaixada
russa em Washington. Verei se ele tem alguma informao sobre
Kaminsky. Se no tiver, acho que no poderei ajud-lo.
- Obrigado.
Tyler antou com o pai naquela noite.
Subconscientemente,Tyler sempre torcera para que o pai 
envelhecesse depressa, se tornasse
mais frgil e vulnervel com o passar do tempo. Em vez disso,
Harry Stanford parecia em excelente forma, no vigor da vida.
Ele viver para sempre, pensou Tyler, desesperado. Vai 
sobreviver a todos ns.
A conversa ao jantar foi totalmente unilateral.
- Acabei de fechar um negcio para comprar a companhia
de electricidade do Havai...
- Voarei para Amsterdam na prxima semana, a fim de
resolver algumas complicaes no GATT... O secretrio de 
Estado me convidou para acompanh-lo em sua visita oficial  
China...
Tyler mal ouvia o que o pai dizia. No fim do jantar, o pai
se levantou.
- Como vai o problema dos criados.
- Ainda estou investigando-os, pai.
- No demore toda uma vida - resmungou o pai, antes
de sair da sala.

Na manh seguinte, Tyler recebeu um telefonema de Fred 
Masterson, do FBI.
- Tyler?
- Sou eu.
; - Voc pegou um cara sensacional.
- Como assim?
,. - Dmitri Kaminsky era um executor do
polgoprudnenskaya.
- O que significa isso?
- Vou explicar. H oito grupos criminosos que assumiram
$ o poder em Moscovo. Todos lutam entre si, mas os dois
grupos mais poderosos so os chechens e o polgoprudnenskaya. 
Seu amigo Kaminsky trabalhava para o segundo grupo. H trs
meses eles o incumbiram de executar um contrato contra um dos
lderes dos chechens. Em vez disso, Kaminsky procurou o

homem para fazer um negcio melhor. O pessoal do 
polgoprudnenskaya descobriu e emitiu um contrato contra 
Kaminsky. As quadrilhas tm um estranho costume por l. 
Primeiro cortam os seus dedos e deixam o cara sangrar por 
algum tempo, antes de fuzil-lo.
- Oh, Deus!
- Kaminsky conseguiu fugir da Rssia, mas ainda est
sendo procurado. E procurado com a maior intensidade.
- Isso  incrivell -murmurouTyler.
- E no  tudo. Kaminsky tambm  procurado pela polcia
por alguns assassinatos. Se voc souber de seu paradeiro, eles
adorariam ter essa informao.
Tyler pensou por um momento. No podia se envolver num
caso assim. Implicaria prestar depoimento, o que consumiria
muito tempo.
- No tenho a menor idia. Apenas fiz a indagao a
pedido de um amigo russo. Obrigado, Fred.
Tyler encontrou Dmitri Kaminsky em seu quarto, lendo uma
revista pornogrfica. Dmitri levantou-se quando ele entrou.
- Quero que arrume suas coisas e saia daqui.
Dmitri fitou-o nos olhos.
- Qual  o problema?
- Estou Lhe dando uma opo. Ou voc sai daqui at o final
da tarde ou avisarei  polcia russa onde pode encontr-lo.
Dmitri empalideceu.
- Est me entendendo?
- Eu compreendo.

Tyler foi falar com o pai. Ele vai ficar satisfeito.
Prestei-lhe um grande favor. Encontrou-o em seu escritrio.
- Pai, investiguei todos os empregados e...
- Estou impressionado. Encontrou algum garoto bonito
para levar para sua cama?
O rosto de Tyler ficou vermelho.
- Pai...
- Voc  bicha, Tyler, e sempre ser bicha. No sei como
uma coisa que nem voc pde sair de mim. Volte para Chicago
e seus amigos da sarjeta.
Tyler ficou imvel, fazendo um tremendo esforo para se 
controlar.
- Est bem.
' Ele comeou a se retirar.
,. - H qualquer coisa sobre os empregados que eu
deva saber?
"! Tyler virou-se, estudou o pai.
- No-respondeu ele, falando bem devagar -Absolutamente nada.

' ; .,; Quando voltou ao quarto de Kaminsky, Tyler
encontrou-o fazendo as malas.
- Vouembora-murmurouKaminsky,soturno.
- No precisa. Mudei de idia.
Dmitri fitou-o, perplexo.
- Como?
- No quero que v embora. Quero que continue aqui
como segurana de meu pai.
- Mas... e aquela outra coisa?
- Vamos esquec-la.
Dmitri mostrou-se cauteloso.
- Por qu? O que quer de mim?

; '.'., - Quero que sej a meus olhos e meus ouvidos
aqui. Preciso de algum para vigiar meu pai, me informar de 
tudo o que acontecer.
- Porqu eu?
- Porque se fizer o que estou dizendo, no vou entreg-lo
;'. aos russos. E porque vou torn-lo rico.
Dmitri Kaminsky estudou-o em silncio por um momento.
Um lento sorriso iluminou seu rosto.
- Eu ficarei.
Foi o gambito de abertura. O primeiro peo fora deslocado.

Isso acontecera dois anos antes. De vez em quando Dmitri
passava informaes a Tyler. Em grande parte, eram notcias 
sem importncia sobre o ltimo romance de Harry Stanford ou
dados fragmentados sobre negcios que Dmitri ouvia. Tyler j
comeava a pensar que cometera um erro, que deveria ter
entregado Dmitri  polcia. At que viera o telefonema 
decisivo da Sardenha, e o jogo dera seus frutos.
- Estou com seu pai no iate. Ele acaba de ligar para o
advogado. Vai se encontrar com ele em Boston, na segunda 
feira, para mudar o testamento.
Tyler pensou em todas as humilhaes que o pai lhe infligira
e sentiu uma raiva terrvel. Se ele mudar o testamento, terei
suportado todos esses anos de insultos por nada. No 
permitirei que ele escape impune a tudo o que me fez! E s h 
uma maneira de det-lo.
- Dmitri, quero que volte a me telefonar no sbado.
- Certo.
Tyler desligou, continuou sentado, pensando.
Era tempo de acionar o cavalo.

Captulo Dezasseis

No tribunal criminal do condado de Cook havia um
fluxo constante de rus acusados de incndio criminoso, 
estupro, trfico de drogas, homicdio e uma ampla variedade de 
outras atividades ilegais e repulsivas. No curso de um ms, 
ojuiz Tyler Stanford lidava com pelo menos meia dzia de casos 
de homicdio. A maioria nunca ia a julgamento, j que os 
advogados do ru propunham um acordo e o estado, por causa da 
agenda sempre cheia dos tribunais e da superlotao dos 
presdios, em ` geral concordava. As duas partes definiam o 
acordo e submetiam  aprovao dojuiz Stanford.
O caso de Hal Baker foi uma exceco.
Hal Baker era um homem com boas intenes e muito azar. Quando
tinha quinze anos, o irmo mais velho o persuadira a ajudar no
assalto a uma mercearia. Hal ainda tentou dissuadi-lo; como
no conseguiu, resolveu acompanh-lo. Ele foi preso, enquanto 
o irmo escapava. Dois anos mais tarde, ao deixar o 
reformatrio, Hal estava determinado a nunca mais se meter em 
encrencas com a polcia. Um ms depois, foi com um amigo a uma 
joalheria.
- Quero comprar um anel para minha namorada - disse
o amigo.
Mas assim que entrou najoalheria, o amigo tirou um revlver do 
bolso e gritou:
-  um assalto!
Na confuso subsequente, um empregado levou um tiro
fatal. Hal Baker foi preso por assalto  mo armada. O amigo
escapou.
Quando Baker estava na priso, Helen Gowan, uma assistente 
social que estudara o seu caso e ficara com pena dele,
foi visit-lo. Foi amor  primeira vista, e Baker casou com 
Helen assim que saiu da priso. Durante os oito anos seguintes 
eles tiveram quatro filhos adorveis.
Hal Baker adorava sua famlia. Por causa dos antecedentes
criminais, tinha dificuldade em arrumar empregos, e para 
sustentar a famlia acabou aceitando, embora relutante, 
trabalhar para o irmo, executando vrios atos de incndio 
criminoso, assalto e agresso. Infelizmente para Baker, ele 
foi preso em flagrante ao cometer um assalto. Ojulgamento 
coube ao tribunal do juiz Tyler Stanford.

Era tempo para a sentena. Baker no era primrio, tinha 
antecedentes de delinqunciajuvenil, e o caso era to patente 
que os assistentes do promotor distrital comearam a fazer 
apostas sobre quantos anos o juiz Stanford lhe daria.
- Ele vai conden-lo por todas as acusaes -
comentou um dos assistentes. - Aposto que Lhe dar pelo
menos vinte anos. No  por nada que chamam Stanford de
Juiz Draconiano.
Hal Baker, que sentia no fundo do corao que era inocente,
atuou como seu prprio advogado. Apresentou-se em seu melhor
terno e declarou:
- Meritssimo, sei que cometi um erro, mas somos todos
humanos, no ? Tenho uma esposa maravilhosa e quatro filhos.
Gostaria que pudesse conhec-los, meritssimo... so
maravilhosos. O que eu fiz, foi por eles.
Tyler Stanford escutava com o rosto impassvel. Esperava

que Hal Baker terminasse para passar a sentena. Esse idiota
pensa realmente que vai conseguir escapar com uma histria
sentimental? Hal Baker estava concluindo:
-.. e assim, meritssimo, embora eu tenha feito a coisa
errada, agi pelo motivo certo: a famlia. No preciso lhe 
dizer o quanto isso  importante. Se eu for para a priso, 
minha esposa e filhos passaro fome. Sei que cometi um erro, 
mas estou disposto a repar-lo. Farei qualquer coisa que 
quiser que eu faa, meritssimo...
E essa foi a frase que atraiu a ateno de Tyler Stanford. Ele
fitou o ru  sua frente com um novo interesse. qualquer coisa
que quiser que eu faa. E de repente Tyler teve o mesmo
instinto que sentira em relao a Dmitri Kaminsky. Ali estava 
um homem que um dia poderia lhe ser til. Para total espanto 
do promotor, Tyler disse:
- Sr. Baker, h circunstncias atenuantes neste caso. Por
causa delas e por causa de sua famlia, vou p-lo em sursis
por cinco anos. Espero que cumpra seiscentas horas de servios
pblicos. Venha para o meu gabinete e acertaremos tudo.
Na privacidade de seu gabinete, Tyler disse:
- Eu ainda poderia mand-lo para a priso por muito e
muito tempo.
Hal Baker empalideceu.
- Mas acabou de dizer, meritssimo...
Tyler inclinou-se para a frente.
- Sabe qual  a coisa que mais impressiona em voc?
Hal Baker tentou imaginar o que tinha para impressionar os
outros.
- No, meritssimo.
- Os sentimentos pela famlia.  uma coisa que admiro.
Hal Baker se animou.
- Obrigado, senhor. A famlia  a coisa mais importante no
mundo para mim. Eu...
- Neste caso, no gostaria de perd-la, no  mesmo? Se eu 
mand-lo para a priso, seus filhos crescero sem a presena 
do pai e sua esposa provavelmente encontrar outro homem.
Percebe aonde estou querendo chegar? ;
Hal Baker estava aturdido.
- No, meritssimo. No exactamente.
- Estou salvando-o para sua famlia, Baker. E gostaria de 
pensar que vai se mostrar grato.
Hal Baker declarou, com todo fervor:
- E estou, meritssimo! No tenho palavras para dizer
como me sinto grato! 
- Talvez possa me provar isso no futuro. Posso cham-lo
para cumprir pequenas misses para mim.
- Qualquer coisa!
- ptimo. Vou mant-lo em sursis, e se descobrir qualquer
coisa em seu comportamento que me desagrade...
- Basta me dizer o que quer, meritssimo.
- Eu o avisarei quando chegar o momento. At l, esta
conversa ficar estritamente confidencial, entre ns.
Hal Baker ps a mo no corao.
- Morrerei antes de contar a algum.
-  isso a - murmurou Tyler.

Foi pouco depois disso que Tyler recebeu o telefonema de

Dmitri Kaminsky: Seu pai acaba de telefonar para o advogado. 
Vai se encontrar com ele em Boston na segunda feira, para 
mudar o testamento.
;.. Tyler compreendeu que tinha de conhecer o testamento
atual. Era o momento de acionar Hal Baker.
-... o nome da firma  Renquist, Renquist e Fitzgerald.
,. Tire uma cpia do testamento e me traga.
- No  problema. Cuidarei de tudo, meritssimo.
Doze horas depois, Tyler tinha uma cpia do
testamento nas suas mos. Leu-a com um sentimento de 
exultao. Ele, Woody e Kendall eram os nicos herdeiros. E na 
segunda feira o pai planea mudar o testamento. O desgraado 
vai nos afastar de sua herana, pensou Tyler, amargurado. 
Depois de tudo o que sofremos... os bilhes nos pertencem! Ele 
fez com que ns merecssemos! S havia uma maneira de 
impedi-lo.
Ao receber o segundo telefonema de Dmitri, Tyler disse:
- Quero que voc o mate. Esta noite.
Houve um silncio prolongado.
- Mas se eu for apanhado...
- No se deixe apanhar. Estar no mar. Muitas coisas
podem acontecer no mar
- Est certo. E depois...
- O dinheiro e uma passagem de avio para a Austrlia
estaro  sua espera.
E, mais tarde, o ltimo e maravilhoso telefonema.
- Est feito. Foi fcil.
- No! No! No! Quero saber os detalhes. Conte-me
tudo. No deixe nada fora...
Enquanto escutava, Tyler podia visualizar a cena se 
desenrolando  sua frente.
- Foi durante uma tempestade, a caminho da Crsega. Ele
me pediu que fosse ao seu camarote para lhe aplicar uma
massagem.
Tyler descobriu-se a apertar o telefone com toda a fora.
- Continue...

Dmitri teve de fazer um grande esforo para manter o 
equilbrio contra o balano do iate, ao se encaminhar para o 
camarote de Harry Stanford. Bateu na porta e, depois de um 
instante, ouviu a voz de Stanford:
- Entre!
Stanford estava estendido na mesa de massagem.
- Sinto uma dor lombar.
- Cuidarei disso. Apenas relaxe, Sr. Stanford.
Dmitri passou leo nas costas de Stanford. Seus dedos fortes
comearam a trabalhar, pressionando com habilidade os msculos 
tensos. Sentiu que Stanford comeava a relaxar.
- Est timo - murmurou Stanford, suspirando.
- Obrigado.
I A massagem durou uma hora e Stanford quase adormecera
I quando Dmitri acabou.
- Vou Lhe preparar um banho quente - disse Dmitri.
Ele foi para o banheiro, cambaleando com os movimentos
do iate. Abriu a torneira de gua do mar quente na
banheira de nix preto e voltou ao quarto. Stanford continuava 
deitado na mesa de massagem, os olhos fechados.
- Sr. Stanford...
Stanford abriu os olhos.

- Seu banho est pronto.
- Acho que no preciso...
- Vai ajud-lo a ter uma boa noite de sono.
Ele ajudou Stanford a sair da mesa e ir para o banheiro.
Observou-o arriar para a banheira.
Stanford fitou os olhos frios de Dmitri e nesse instante o
instinto lhe disse o que estava prestes a acontecer.
- No! - gritou ele, comeando a se levantar.
Dmitri ps as mos enormes no topo da cabea de Harry
;... Stanford, e empurrou-a para baixo d'gua. Stanford se
debateu violentamente, tentando erguer a cabea para 
respirar,mas no era adversrio para o gigante. Dmitri o 
manteve no fundo, e a gua do mar foi entrando nos pulmes da 
vtima, at que todo o movimento cessou. Ele ficou imvel por 
um momento, respirando com dificuldade, depois cambaleou para 
o quarto.
Dmitri foi at a escrivaninha, pegou alguns papis, depois 
abriu a porta de vidro para a varanda, deixando entrar o vento
uivante.
Espalhou alguns papis pela varanda, jogou outros no mar.
Satisfeito, voltou ao banheiro, pegou o corpo de Stanford.
Vestiu-lhe um pij ama, chambre e chinelos, carregou o corpo
para a varanda. Dmitri parou na amurada por um instante, e 
depois jogou o corpo no mar. Contou cinco segundos, antes de 
pegar o interfone e gritar:
- Homem ao mar!

Escutando Dmitri relatar como cometera o assassinato, Tyler
experimentou uma emoo sexual. Podia sentir a gua do mar
enchendo os pulmes do pai, o esforo para respirar, o terror.
E, depois, o nada.
Acabou, pensou Tyler. Mas ele logo se corrigiu: No. O jogo
est apenas comeando.  tempo de acionar a rainha.

Captulo Dezassete

A ltima pea de xadrez se ajustou no lugar devido por acaso.
Tyler estivera pensando no testamento do pai, e se indignara 
porque Woody e Kendall receberiam partes iguais  sua. Eles 
no merecem. Se no fosse por mim, ambos seriam cortados do
testamento. Nada teriam. No  justo, mas o que posso fazer?
Ele tinha uma cota, que a me lhe dera h muito tempo, e
recordou as palavras do pai: O que voc pensa que ele vai
fazer com essa cota? Assumir o controle da companhia?
Tyler pensou: Woody e Kendall, juntos, possuem dois teros
da participao do pai na Stanford Enterprises. Como poderei
obter o controle apenas com uma nica cota extra? E foi nesse 
momento que a soluo Lhe ocorreu, to engenhosa que o deixou
aturdido.

"Devo tambm inform-los de que h uma possibilidade de surgir
outra herdeira... O testamento de seu pai estipula
expressamente que a herana deve ser dividida em partes iguais 
entre sua prole... O pai de vocs, h muitos anos, teve uma 
criana com uma governanta que trabalhou aqui..."
Se Julia aparecesse, seramos quatro, pensou Tyler. E se eu
pudesse controlar a parte dela, teria ento cinquenta por 
cento da parte do pai, mais o um por cento que j possuo. 
Poderia assumir o comando da Stanford Enterprises. Poderia 
sentar-se na cadeira de meu pai. Seu prximo pensamento foi: 
Rosemary , deve ter morrido e  bem provvel que jamais tenha
revelado  filha quem era seu pai. Por que tem de ser a 
verdadeira Julia Stanford?
A resposta era Margo Posner.
Ele a conhecera dois meses antes, quando seu tribunal entrara
em sesso. O escrevente virou-se para os presentes e disse:
- O Tribunal Criminal do Condado de Cook est agora em
sesso, sob a presidncia do meritssimo juiz Tyler Stanford.
Levantem-se todos.
Tyler veio de seu gabinete e sentou-se na bancada. Olhou para 
a agenda. O primeiro processo em julgamento era O Estado de
Illinois x Margo Posner. As acusaes eram de agresso e
tentativa de homicdio. O promotor levantou-se.
- Meritssimo, a r  uma pessoa perigosa, que deve ser
mantida fora das ruas de Chicago. O estado provar que a r 
tem longos antecedentes criminais. Foi condenada por furto, 
apropriao indbita e  uma conhecida prostituta. Era uma das
mulheres que trabalhavam para um notrio proxeneta chamado 
Rafael. Em janeiro deste ano eles tiveram uma altercao, e a 
r, a sangue-frio, atirou nele e em seu companheiro.
- Qualquer das vtimas morreu? - perguntou Tyyler.
- No, meritssimo. Foram hospitalizadas com ferimentos
graves. O revlver em poder de Margo Posner era ilegal.
Tyler olhou para a r e ficou surpreso. Ela no se ajustava 
imagem do que acabara de ouvir a seu respeito. Era uma jovem
atraente e bem-vestida, de vinte e tantos anos, com uma suave
elegncia, em contradio com as acusaes. Isso serve para
provar que nunca se pode saber como  de fato uma pessoa,
pensou Tyler, irnico.
Ele escutou os argumentos dos dois lados, mas seus olhos '
eram atrados a todo instante para a r. Havia alguma coisa
nela que o lembrava de sua irm.

Apresentadas as alegaes finais, o jri comeou a deliberar,
e em menos de quatro horas apresentou o veredicto de culpada
de todas as acusaes. Tyler fitou a r e declarou:
- O tribunal no pode encontrar nenhuma circunstncia
atenuante neste caso. Assim,  condenada a cinco anos no 
Centro ' ' '' Correcional Dwight... Prximo caso.
E foi s quando Margo Posner estava sendo retirada do tribunal 
que Tyler compreendeu o que havia nela que o lembrava
de Kendall. Margo possua os mesmos olhos cinza-escuros. Os
olhos dos Stanfords.

Tyler no tornou a pensar em Margo Posner at receber o
telefonema de Dmitri.
A parte inicial da partida de xadrez fora concluda com
sucesso. tyler planeara cada movimento em sua mente. Usou o
gambito da rainha clssico: recusar a abertura proposta,
avanar o peo da rainha por duas casas. Era tempo de entrar 
na parte intermediria do jogo.
Tyler foi visitar Margo Posner na penitenciria
feminina.
- Lembra-se de mim? - perguntou ele.
Ela fitou-o nos olhos.
- Como poderia me esquecer? Foi quem me enviou para c.
- Como est indo?
Margo fez uma careta.
- Deve estar brincando! Isto  um buraco infernal!
- Gostaria de sair daqui?
- Se eu gostaria de sair? Fala srio?
- Muito srio. Posso dar um jeito.
- Mas... seria maravilhoso! Muito obrigada! Mas o que
tenho de fazer em troca?
- H uma coisa que quero que voc faa por mim.
Ela assumiu uma expresso provocante.
- Claro. Isso no  problema.
- No  nisso que estou pensando.
Margo indagou, cautelosa:
- E no que est pensando, juiz?
' ' - Quero que me ajude a fazer uma brincadeira com algum.
- Que tipo de brincadeira?
- Quero que represente outra pessoa.
- Representar outra pessoa? Eu no saberia como...
- H vinte e cinco mil dlares  sua espera.
A expresso de Margo se transformou.
- Claro. Posso representar qualquer pessoa. Em quem est 
pensando?
Tyler inclinou-se para a frente e comeou a falar.
Tyler providenciou para que Margo Posner fosse
libertada, sob sua custdia. Explicou a Keith Percy, o 
presidente do tribunal:
- Soube que ela  uma artista talentosa e est ansiosa em
levar uma vida normal e decente. Acho que  importante 
reabilitar esse tipo de pessoa sempre que possvel. No 
concorda?
Keith se mostrou impressionado e surpreso.
- Claro que concordo, Tyler.  uma coisa maravilhosa o
que est fazendo.

Tyler levou Margo para sua casa e passou cinco dias inteiros

instruindo-se sobre a famlia Stanford.
- Quais so os nomes de seus irmos?
- Woodrow.
- Woodrow.
- Isso mesmo... Woodrow.
- Como o chamamos?
- Woody.
- Voc tem uma irm?
- Tenho. Kendall. Ela  estilista.
- E  casada?
-  casada com um francs. O nome dele ... Marc Renoir.
- Renaud.
- Renaud.
- Qual era o nome de sua me?
- Rosemary Nelson. Era governanta das crianas Stanfords.
- Por que ela foi embora?
- Trepou com...
- Margo!
- Ela foi engravidada por Harry Stanford.
- O que aconteceu com a Sra. Stanford?
- Ela cometeu suicdio.
- O que sua me lhe contou sobre as crianas Stanfords?
Margo pensou por um momento.
- E ento?
- Houve a ocasio em que voc caiu do pedalinho.
- No ca ! - exclamou Tyler. - Quase ca.
- Certo. Woody quase foi preso por colher flores no Jardim
Botnico.
- Isso aconteceu com Kendall...

Ele foi rigoroso. Repassaram o roteiro muitas e muitas vezes,
pela noite afora, at Margo ficar exausta.
- Kendall foi mordida por um cachorro.
- Eu fui mordido por um cachorro.
Ela esfregou os olhos.
- No consigo mais pensar direito. Estou cansada demais.
Preciso dormir um pouco.
- Pode dormir depois!
- Por quanto tempo isso vai continuar? - indagou Margo,
com expresso de desafio.
- At eu achar que voc est pronta. E agora vamos
recomear.
Os ensaios prosseguiram, at Margo saber de tudo na ponta
da lingua. Quando chegou o dia em que ela podia responder a
todas as perguntas, Tyler ficou satisfeito.
- Voc est pronta agora.
Tyler entregou-lhe alguns documentos legais.
- O que  isto?
-  apenas um detalhe tcnico.
Pelo documento que assinou, Margo cedia sua participao
no esplio Stanford a uma empresa, controlada por outra, que
por sua vez era controlada por uma subsidiria no exterior, 
cujo nico dono era Tyler Stanford. No havia possibilidade de 
se rastrear a transaco at Tyler. Ele deu a Margo cinco mil
dlares em dinheiro.
- Receber o resto depois que o trabalho for concludo. Se
conseguir convencer todo mundo de que  mesmo Julia Stanford.


Desde o momento em que Margo se apresentou em Rose Hill,
Tyler assumiu o papel de advogado do diabo. Era o movimento
antiposicional clssico do xadrez.
"Tenho certeza que pode compreender nossa situao, 
Senhorita..."
"...Sem alguma prova positiva, no h possibilidade de 
aceitarmos..."
"... Acho que a moa  uma fraude..."
"...Quantos criados trabalharam nesta casa quando ramos
crianas?... Dezenas, no  mesmo? E alguns poderiam saber
de tudo que essa moa nos contou... E qualquer um poderia,
tambm ter dado aquela foto a ela... No vamos esquecer que
h muito dinheiro envolvido..."
O movimento decisivo fora sua exigncia de um teste de
D.N.A. Ele telefonara para Hal Baker e dera uma instruo:
Desenterre o corpo de Harry Stanford e d um sumio nele.
E depois sua inspirao de chamar um detective particular.
Com a famlia presente, ligara para o gabinete do promotor
distrital em Chicago.
Aqui  o juiz Tyler Stanford. Soube que vocs contratam de vez 
em quando um detective particular que costuma realizar um
excelente trabalho. O nome dele  Simmons ou...
Deve estar se referindo a Frank Timmons.
 isso mesmo, Timmons! Poderia me dar o endereo dele,
para eu poder entrar em contacto directamente?
Em vez disso, ele chamara Hal Baker, e apresentara-o como
Frank Timmons.

A princpio, Tyler planeara que Hal Baker apenas fingisse que
investigava Julia Stanford, mas depois decidiu que o relatrio 
impressionaria muito mais se o trabalho fosse genuno.
Afamlia aceitara as descobertas de Baker sem questionar.
O plano de Tyler transcorrera sem qualquer contratempo.
Margo Posner desempenhara seu papel com perfeio e as
impresses digitais haviam sido o remate final. Todos estavam
convencidos de que ela era a verdadeira Julia Stanford.
Confesso que me sinto contente por tudo estar resolvido. Vou
subir para perguntar se ela precisa de alguma ajuda.
,: Ele subiu, atravessou o corredor at o quarto
dela, bateu na porta e chamou:
Julia?
Est aberta. Pode entrar.
Tyler ficou parado na porta, e os dois se fitaram em silncio.
Depois, ele fechou a porta, estendeu as mos e se desmanchou 
num sorriso, enquanto murmurava:
Conseguimos, Margo! Conseguimos!

Captulo Dezoito

No escritrio de Renquist, Ren uist & Fitz erald, Steve Sloane 
e Simon Fitzgerald estavam tomando um caf.
- Como disse o grande bardo, "H algo de podre no reino da 
Dinamarca".
- O que o incomoda? - perguntou Fitzgerald.
Steve suspirou.
- No tenho a certeza.  a famlia Stanford. Eles me deixam
perplexo.
Simon Fitzgerald soltou uma risada.
- Junte-se ao clube.
- Sempre volto  mesma pergunta, Simon, mas no consigo 
encontrar a resposta.
- Qual  a pergunta?
' - A famlia se mostrou ansiosa em exumar o
corpo de Harry Stanford, a fim de comparar seu d.n.a. com o da 
mulher. Assim, acho que temos de presumir que o nico motivo 
possvel para se livrarem do corpo seria o de garantir que o 
d.n.a. da mulher no pudesse ser comparado com o de Harry 
Stanford. E a nica pessoa que teria alguma coisa a ganhar com 
isso seria a prpria mulher, se fosse uma impostora.
- Tem razo.
- E, no entanto, esse detective particular, Frank Timmons...
verifiquei com o gabinete do promotor distrital em Chicago e
ele tem mesmo uma excelente reputao... apresentou impresses 
digitais que confirmam que ela  a verdadeira Julia Stanford. 
Resta a minha pergunta: quem desenterrou o corpo de Harry
Stanford e por qu?
-  uma pergunta de um bilho de dlares. Se...
O interfone tocou. A voz de uma secretria informou:
- Sr Sloane, uma ligao no dois.
Steve Sloane atendeu.
- Al?
A voz no outro lado da linha disse:
- Sr. Sloane, aqui  o juiz Stanford. Eu agradeceria se
pudesse vir a Rose Hill esta manh.
Steve Sloane olhou para Fitzgerald.
- Est bem. Dentro de uma hora?
- ptimo. Obrigado.
Steve desligou.
- Solicitam minha presena na casa dos Stanfords.
- Eu me pergunto o que eles querem.
- Dez contra um como querem apressar a homologao do
testamento, a fim de pr as mos em todo aquele lindo
dinheiro.

- Lee? Sou eu, Tyler. Como tem passado?
- Muito bem, obrigado.
- Sinto muita saudade.
Houve uma breve pausa.
- Tambm tenho saudade de voc, Tyler
As palavras o deixaram emocionado.
- Lee, tenho uma notcia sensacional. No posso explicar
pelo telefone, mas  uma coisa que vai deix-lo muito feliz.
Quando voc e eu...
- Tenho de desligar agora, Tyler. H algum me esperando.
- Mas...

A ligao foi cortada.
Tyler continuou sentado, e pensou: Ele no diria que sente
saudade de mim se no fosse verdade.

Com excepo de Woody e Peggy, a famlia se encontrava reunida
na sala de estar de Rose Hill. Steve estudou seus rostos.
O juiz Stanford parecia bastante relaxado.
Steve olhou para Kendall. Ela parecia anormalmente tensa.
O marido viera de Nova York no dia anterior para a reunio.
Steve fitou Marc. O francs era bem-apessoado, uns poucos anos
mais jovem do que a esposa.
E havia Julia. Ela parecia considerar sua aceitao na famlia
com muita calma. Eu esperaria que uma pessoa que acaba de
herdar um bilho de dlares se mostrasse um pouco mais
excitada, pensou Steve.
Ele tornou a contemplar cada rosto, especulando se um deles
fora o responsvel pelo desaparecimento do corpo de Harry
Stanford; e neste caso, qual deles? E por qu? Tyler estava
falando:
- Sr. Sloane, estou a par das leis de sucesso no Illinois,
mas no sei at que ponto divergem das leis de Massachusetts.
Gostaramos de saber se no h algum meio de apressar o
procedimento.
Steve sorriu para si mesmo. Eu deveria ter apostado com
Simon.
- J estamos trabalhando nisso, juiz Stanford.
Tyler sugeriu, incisivo:
- O nome Stanford pode ajudar a acelerar tudo.
Ele tem razo nesse ponto, pensou Steve.
- Farei tudo o que puder Se for possvel...
Soaram vozes na escada.
- Cale a boca, sua vaca estpida! No quero ouvir mais
nenhuma palavra! Est me entendendo?
Woody e Peggy entraram na sala. Peggy tinha o rosto bastante 
inchado e um olho preto. Woody sorria, os olhos
faiscando.
- Ol para todos. Espero que a festa no tenha terminado.
As pessoas olhavam para Peggy, em choque. Kendall levantou-se.
- O que aconteceu com voc?
- Nada. Eu... esbarrei numa porta.
Woody sentou-se. Peggy acomodou-se ao seu lado. Woody afagou a 
mo dela e perguntou, solcito:
, ;.. - Voc est bem, minha cara?
Peggy acenou com a cabea, no confiando em si mesma para 
falar.
- ptimo. - Woody virou-se para os outros. - E agora me
digam: o que eu perdi?
Tyler fitou-o com um ar de desaprovao.
- Apenas perguntei ao Sr Sloane se podia apressar a
homologao do testamento.
Woody sorriu.
- Isso seria uma beleza. -Ele olhou para Peggy. -No
gostaria de comprar algumas roupas novas, querida?
- No preciso de nenhuma roupa nova - murmurou ela.
-  verdade. Voc no vai a lugar algum, no ? - Ele
tornou a se virar para os outros. - Peggy  muito tmida. 
Nunca tem nada sobre o que conversar, no ?
Peggy levantou-se e saiu correndo da sala.

- Vou ver se ela est bem - disse Kendall, levantando-se
e saindo apressada atrs de Peggy.
Por Deus!, pensou Steve. Se Woody se comporta assim na
frente dos outros, como deve ser quando fica a ss com a
esposa ?
Woody olhou para Steve.
- H quanto tempo trabalha na firma de advocacia de
Fitzgerald?
- Cinco anos.
- Acho que nunca saberei como eles suportavam trabalhar
para meu pai.
Steve escolheu as palavras com cuidado:
- Soube que seu pai era... podia ser um homem difcil.
Woody soltou uma risada.
- Difcil? Ele era um monstro de duas pernas. Sabia que
ele tinha apelidos para todos ns? O meu era Charlie. Por 
causa de Charlie McCarthy, o boneco de um ventrloquo chamado 
Edgar Bergen. Chamava minha irm de Pnei, pois dizia que ela
tinha cara de cavalo. Tyler era chamado...
Steve interrompeu-o, contrafeito:
- Acho que no deveria...
Woody sorriu.
- No tem problema. Um bilho de dlares podem curar
muitas feridas.
Steve levantou-se.
- Se no h mais nada, acho melhor eu ir embora.
Mal podia esperar para sair daquela casa, respirar um pouco
de ar fresco.
Kendall encontrou Peggy no banheiro, aplicando uma compressa 
fria no rosto inchado.
- Voc est bem, Peggy?
Peggy virou-se.
- Estou, sim. Obrigada. Eu... peo desculpa pelo que aconteceu 
l embaixo.
- Voc se desculpar? Deveria estar fizriosa. H quanto
tempo ele a espanca?
- Ele no me espanca - murmurou Peggy, obstinada. -
Esbarrei numa porta.
Kendall se adiantou.
- Por que atura isso, Peggy? No precisa.
Houve uma pausa.
- Preciso, sim.
,. Kendall ficou aturdida.
- Por qu?
Peggy virou-se para ela.
- Porque eu o amo. - Ela continuou, as palavras saindo
incontrolveis: - E ele tambm me ama. Pode acreditar que
Woody nem sempre se comporta assim. A verdade  que ele...
s vezes Woody no  ele prprio.
- Ou seja, quando ele toma drogas.
- No... - Peggy hesitou.
- Acho que sim.
- Quando comeou?
- Logo depois que casamos. - A voz de Peggy era trmula. - 
Comeou por causa de uma partida de plo. Woody caiu
do pnei, ficou bastante machucado. Enquanto esteve no 
hospital, deram as drogas para aliviar a dor. Foram eles que o
fizeram comear

Ela fitou Kendall com uma expresso suplicante.
- Percebe agora que no foi culpa dele, no ? Depois que
saiu do hospital, Woody... Woody continuou a usar drogas. E
sempre que eu tentava convenc-lo a parar.. ele me batia.
- Pelo amor de Deus, Peggy! Ele precisa de ajuda. No
entende isso? Ele no pode conseguir sozinho.  um viciado em
drogas. O que ele toma? Cocana?
- No. - Uma breve pausa. - Herona.
- Oh, Deus! No pode convenc-lo a procurar ajuda?
- J tentei. - A voz de Peggy era um sussurro. - No
pode imaginar o quanto tentei. Ele j esteve em trs hospitais
de reabilitao.
Peggy respirou fundo, balanou a cabea.
- Woody fica bem por algum tempo, mas depois... comea
de novo. Ele... no consegue se controlar.
Kendall abraou-a.
- Sinto muito...
Peggy forou um sorriso.
- Tenho certeza que Woody ainda vai ficar bom. Ele se
esfora. Juro que se esfora. - O rosto dela se iluminou. -
Assim que casamos, ele era muito divertido. Ramos durante
todo o tempo. Ele me dava pequenos presentes e... - Os olhos
de Peggy se encheram de lgrimas. -Eu o amo tanto!
- Se houver alguma coisa que eu possa fazer..
- Obrigada. - Peggy suspirou. - Eu gostaria muito.
Kendall apertou a mo dela.
- Voltaremos a conversar.
Kendall desceu a escada para se juntar aos outros. Estava
pensando: Quando ramos crianas, antes de mame morrer,
faziamos planos maravilhosos. "Voc vai ser uma estilista 
famosa, mana, e eu serei o maior atleta do mundo! "E o mais 
triste de tudo  que ele poderia mesmo se tornar um grande 
atleta.
Agora est assim.
Kendall no sabia se sentia mais pena de Woody ou de
Peggy. Quando ela chegou ao fundo da escada, Clark se 
aproximou, trazendo uma carta numa bandeja.
- Com licena, Senhorita Kendall. Um mensageiro acaba de
entregar esta carta.
Kendall olhou aturdida para o envelope.
- Mas quem...? - Ela acenou com a cabea, pegou o
, envelope. - Obrigada, Clark.
Ela abriu o envelope, comeou a ler a carta, empalideceu.
- No! - balbuciou ela.
Seu corao batia forte, e ela sentiu uma onda de vertigem.
Ficou parada ali, apoiando-se numa mesa, enquanto tentava
recuperar o flego.
Depois de um momento, seguiu para a sala de estar, muito
plida. A reunio estava terminando.
- Marc... - Kendall fez um esforo para parecer calma.
- Podemos conversar por um minuto?
Ele fitou-a, preocupado.
Tyler perguntou  irm:
- Voc est bem?
Kendall forou um sorriso.
- Estou, sim, obrigada.
Ela pegou a mo de Marc e subiram. Kendall fechou a porta
assim que entraram no quarto.

- O que aconteceu? - perguntou Marc.
Kendall entregou-lhe o envelope. A carta dizia:

Prezada Sra. Renaud:
Parabns! Nossa Associao de Proteco da Vida Selvagem ficou 
muito satisfeita ao saber de sua sorte. Como
 to interessada pelo trabalho que realizamos, esperamos
continuar a contar com seu apoio. Por isso, agradeceramos
se depositasse um milho de dlares em nossa conta bancria 
numerada em Zurique nos prximos dez dias. Aguardamos ansiosos 
por breves notcias suas.

Como nas outras cartas datilografadas, todos os Es eram
quebrados.
- Filhos da puta! - explodiu Marc.
- Como eles descobriram que eu estava aqui?
Marc comentou, amargurado:
- S precisavam pegar um jornal. - Ele leu a carta de
novo, balanou a cabea. - No vo parar por aqui. Temos de
procurar a polcia.
- No! - gritou Kendall. - No podemos fazer isso! 
tarde demais! Ser que no entende? Seria o fim de tudo! De 
tudo!
Marc abraou-a, apertou-a com fora.
- Est bem. Encontraremos uma sada.
Mas Kendall sabia que no havia nenhuma sada.

Acontecera poucos meses antes, no que comeara como um
glorioso dia de primavera. Kendall foi  festa de aniversrio
de uma amiga, em Ridgefield, Connecticut. A festa estava 
maraviLhosa e ela conversou com vrias amigas antigas. Tomou 
uma taa de champanhe. No meio de uma conversa, olhou 
subitamente para o relgio.
- Oh, no! Nem tinha idia de quej era to tarde! Marc
est me esperando.
Houve despedidas apressadas, Kendall pegou seu carro e
partiu. Voltando para Nova York, decidiu entrar numa estrada 
cheia de curvas at a I-684. Desenvolvia uma velocidade de
; quase oitenta quilmetros horrios quando, ao virar
uma curva fechada, avistou um carro estacionado no lado 
direito da estrada.
Numa reao automtica, Kendall desviou-se para a esquerda.
Nesse momento, uma mulher com uma braada de flores 
recmcolhidas comeou a atravessar a estrada estreita. Kendall
ainda fez um esforo frentico para evit-la, mas j era tarde 
demais.
Tudo aconteceu num relance confuso. Ela ouviu um baque
angustiante ao atingir a mulher com o pra-lama dianteiro 
esquerdo. Parou o carro, com um ranger dos pneus, todo o seu
corpo tremendo violentamente. Voltou correndo para o ponto da
estrada em que a mulher estava cada, ensanguentada.
Kendall ficou parada ali, como se congelada. Acabou se
abaixando, virou a mulher, fitou seus olhos vidrados.
- Oh, Deus! -balbuciou Kendall.
Sentiu a blis subir pela garganta. Levantou os olhos, 
desesperada, sem saber o que fazer. Virou-se, em pnico. No 
havia nenhum carro  vista. Ela morreu, pensou Kendall. No

posso ajud-la. No foi culpa minha, mas vo me acusar de 
direco perigosa, encontraro vestgios de lcool em meu 
sangue. Irei para a priso!
Ela lanou um ltimo olhar para o corpo da mulher e voltou
apressada para seu carro. O pra-lama dianteiro esquerdo 
estava amassado, com manchas de sangue. Tenho de guardar o 
carro numa garagem, pensou Kendall. A polcia vai procur-lo. 
Ela partiu.
Pelo resto do percurso at Nova York, Kendall no parou de
olhar pelo espelho retrovisor, esperando avistar a qualquer
instante a luz vermelha piscando, ouvir o som da sirene. Foi
directamente para a garagem na rua 96 em que guardava o carro. 
Sam, o dono da garagem, conversava com Red, seu mecnico. 
Kendall saiu do carro.
- Boa noite, Sra. Renaud - disse Sam.
- Bo... boa noite.
Kendall tinha de fazer o maior esforo para impedir que os
dentes batessem.
- Vai deixar o carro aqui pelo resto da noite?
- Vou, sim... por favor.
Red olhava para o pra-lama.
- Deu uma batida e tanto, Sra. Renaud. E parece que tem
sangue aqui.
Os dois homens olhavam para ela. Kendall respirou fundo.
- , sim. Eu... atropelei um veado na estrada.
- Teve sorte de no haver mais danos. Um amigo meu
bateu num veado e teve perda total. - Sam sorriu. - Tambm
no sobrou muita coisa do veado.
- Agradeceria se estacionassem o carro.
- Claro.
Kendall foi at  porta da garagem, de onde olhou para trs.
Os dois homens examinavam o pra-lama.

Ao chegar em casa, Kendall relatou o terrvel acidente a Marc.
Ele a abraou e murmurou:
- Oh, Deus, querida, como pde...
Kendall estava chorando.
- No pude evitar. Ela atravessou a estrada bem na minha
frente. Tinha... tinha ido colher flores e... ;
- No diga mais nada. Tenho certeza que no foi culpa sua.
Foi um acidente. Temos de comunicar  polcia.
- Sei disso. Voc tem toda a razo. Eu... deveria ter ficado
l, esperado pela polcia. Mas... entrei em pnico, Marc. 
Agora,  um caso de motorista que atropela e foge sem prestar
socorro. Mas no havia nada que eu pudesse fazer para 
ajud-la. Ela ' estava morta. Devia ter visto seu rosto. Foi 
horrvel.
Marc a manteve em seus braos por um longo tempo, at
que ela se acalmasse. S ento Kendall murmurou, hesitante:
- Marc... temos mesmo de procurar a polcia?
Ele franziu o rosto.
- Como assim?
Ela tentava reprimir a histeria.
- Acabou, no ? Nada pode trazer aquela mulher de volta.
De que adiantaria se eles me punissem? No tive a inteno. 
Por que no podemos simplesmente fingir que nunca aconteceu?
- Kendall, se algum dia descobrissem...
- Como poderiam descobrir? No havia ningum por perto.
! - E seu carro? No ficou amassado?

- Ficou, sim. E eu disse ao atendente da garagem que havia
atropelado um veado. - Kendall tinha a maior dificuldade para
se controlar. - Ningum viu o acidente, Marc... Sabe o que
aconteceria se me prendessem e me mandassem para a priso?
Eu perderia meu negcio, tudo o que constru ao longo de
tantos anos, e para qu? Por uma coisa que j acabou! Uma 
coisa irremedivel!
Ela recomeou a soluar. Marc apertou-a entre seus braos.
- Calma, calma... Veremos o que vai acontecer.

Os jornais da manh deram um grande destaque  notcia. O que
proporcionava um drama adicional era o fato de que a morta
estava a caminho de Manhattan para casar. O New York Times
publicou uma reportagem objectiva, mas o aily News e o 
Newsday exploraram o drama sentimental.
Kendall comprou um exemplar de cada jornal e foi se
sentindo mais e mais horrorizada pelo que fizera. Sua mente 
foi invadida por terrveis ses.
Se eu no tivesse ido a Connecticut para a festa de 
aniversrio da minha amiga...
Se eu tivesse ficado em casa naquele dia...
Se eu no bebesse nada...
Se a mulher colhesse as flores alguns segundos antes ou
alguns segundos depois...
Sou responsvel por assassinar outro ser humano!
Kendall pensou na dor profunda que causara  famlia da
mulher,  famlia do noivo, e sentiu um frio no estmago.
Segundo os jornais, a polcia pedia informaes a qualquer
um que pudesse oferecer uma pista para se descobrir a
identidade do motorista atropelador.
Eles no tm como me descobrir, pensou Kendall. Tudo o
que tenho de fazer  agir como se nada tivesse acontecido.

Quando Kendall foi  garagem pegar o carro, na manh seguinte,
encontrou Red ali.
- Limpei o sangue do carro - informou ele. - Quer que
conserte o amassado?
Claro! Eu deveria ter pensado nisso antes.
- Quero, sim, por favor.
Red fitava-a com uma expresso estranha. Ou seria a imaginao 
dela?
- Sam e eu conversamos sobre isso ontem  noite -
acrescentou Red. -  curioso. Um veado deveria ter causado
um dano muito maior
O corao de Kendall bateu descompassado. A boca se
tornou to ressequida que ela mal conseguiu falar.
- Era... um veado pequeno.
Red balanou a cabea.
- Devia ser mesmo bem pequeno.
Kendall pde sentir que ele a observava ao sair da garagem.
Quando Kendall entrou no escritrio, sua secretria, Nadine,
''.;' perguntou no mesmo instante:
- O que aconteceu com voc?
Kendall ficou paralisada.
- Como... como assim?
- Est tremendo toda. Vou buscar um caf.
- Obrigada.
Kendall foi at ao espelho. Tinha o rosto plido e contrado.

"' Todo mundo vai saber s de olhar para mim!
Nadine entrou na sala com uma xcara de caf.
- Tome aqui. Isso far com que se sinta melhor. - Ela
fitou Kendall, curiosa. - Est tudo bem?
 - Eu... sofri um pequeno acidente ontem -
balbuciou Kendall.
-  mesmo? Algum se machucou?
Kendall viu em sua mente o rosto da morta.
- No. Atropelei um veado.
- E seu carro?
- Est sendo consertado.,
- Ligarei para a seguradora.
- Oh, no, Nadine, por favor
Kendall viu a surpresa estampada nos olhos da secretria.

A primeira carta chegou dois dias depois:

;' Prezada Sra. Renaud:
Sou o presidente da Associao de Proteco da Vida
Selvagem, que passa por uma necessidade desesperada.
Tenho certeza de que gostaria de nos ajudar. A organizao
precisa de dinheiro para preservar os animais selvagens.
Temos um interesse especial por veados. Pode depositar
cinquenta mil dlares na conta numerada 804072-A no Crdit 
Suisse, um banco de Zurique. Sugiro com alguma
insistncia que o dinheiro esteja na conta dentro dos prximos 
cinco dias.

No tinha assinatura. Todos os Es na carta estavam quebrados.
Em anexo, havia um recorte de jornal sobre o acidente.
Kendall leu a carta duas vezes. A ameaa era inequvoca. Ela
se angustiou sobre o que fazer. Marc tinha razo, pensou. Eu
deveria ter procurado a polcia. Mas agora era tudo pior.
Tornara-se uma fugitiva. Se a descobrissem agora, seria a 
priso e a desgraa, o fim de seu negcio.
Na hora do almoo, foi a seu banco.
- Quero transferir cinquenta mil dlares para a Sua...

 ` Ao voltar para casa, naquela noite, Kendall mostrou a
carta a Marc. Ele ficou atordoado.
- Oh, Deus! Quem poderia ter mandado isto?
- Ningum... ningum sabe - balbuciou ela, tremendo.
- Kendall, algum sabe.
- Mas no havia ningum por perto, Marc ! Eu...
- Espere um instante. Vamos tentar definir tudo. O que
aconteceu exactamente quando voc voltou  cidade?
- Nada. Eu... levei o carro para a garagem e...
Kendall parou de falar. Deu uma batida e tanto, Sra. Renaud.
E parece que tem sangue aqui.
Marc viu a expresso em seu rosto.
- O que foi?
- O dono da garagem e seu mecnico estavam l. Viram o
sangue no pra-lama. Eu disse que tinha atropelado um veado e
eles comentaram que o dano deveria ter sido muito maior. -
Kendall se lembrou de outra coisa. - Marc...
- O que ?
- Nadine, minha secretria. Contei a mesma coisa a ela. E
percebi que tambm no acreditou. Portanto, s pode ser um dos

;:... trs.
- No deve ser.
Ela fitou-o, aturdida.
- Por que no?
- Sente-se, Kendall, e preste ateno. Se algum deles
ficasse desconf'iado, poderia contar sua histria a uma dzia 
de pessoas. O relato do acidente saiu em todos os jornais. 
Seria inevitvel que algum acabasse somando dois mais dois. 
Acho que a carta  um blefe, a pessoa est querendo test-la. 
Foi um erro terrvel transferir o dinheiro.
- Mas por qu?
- Porque agora sabem que voc  culpada, entende? Deu
a prova de que precisavam.
- Oh, no! O que devo fazer, Marc?
Marc Renaud pensou por um momento.
- Tenho uma idia para descobrir quem so esses desgraados.
Na manh seguinte, s dez horas, Kendall e Marc estavam
sentados na sala de Russell Gibbons, vice-presidente do First
Security Bank, de Manhattan.
- Em que posso ajud-los? - perguntou o Sr. Gibbons.
- Gostaramos de verificar uma conta numerada num banco em 
Zurique - respondeu Marc.
- Como assim?
- Queremos saber de quem  a conta.
Gibbons cruzou as mos sob o queixo.
- H algum crime envolvido?
Marc se apressou em dizer:
! - No! Por que pergunta?
- A menos que haja alguma espcie de atividade criminosa, como 
lavagem de dinheiro ou violao das leis da Sua ou
dos Estados Unidos, as autoridades suas no permitem a
quebra do sigilo de suas contas bancrias numeradas. Sua 
reputao baseia-se na confidncia.
- Mas no h algum meio...?
- Lamento, mas no h.
Kendall e Marc trocaram um olhar. O rosto de Kendall era
uma mscara de desespero. Marc levantou-se.
- Obrigado por seu tempo.
- Lamento no poder ajud-los.
Ele os acompanhou at a porta.

Naquela noite, ao entrar na garagem, Kendall no viu Sam nem
Red. Estacionou o carro, e ao passar pelo pequeno escritrio 
viu uma mquina de escrever numa mesinha. Parou, especulando 
se teria a letra "E" quebrada. Preciso descobrir, pensou ela.
Foi at o escritrio, hesitou por um momento, depois abriu
a porta e entrou. Ao se aproximar da mquina de escrever, Sam
surgiu subitamente do nada.
- Boa noite, Sra. Renaud. Posso ajud-la?
Ela virou-se, sobressaltada.
- No. Eu... acabo de deixar meu carro. Boa noite.
Kendall se encaminhou apressada para a porta.
- Boa noite, Sra. Renaud.
Pela manh, quando Kendall passou pelo escritrio, a
mquina de escrever havia desaparecido. Havia um micro em
seu lugar. Sam percebeu que ela olhava para o computador e
comentou:
- Bonito, hem? Decidi trazer a garagem para o sculo

XX.
Como ele arrumara o dinheiro?
Quando Kendall contou a Marc, naquela noite, ele comentou, 
pensativo:
-  uma possibilidade, mas precisamos de prova.

Na manh de segunda-feira, quando Kendall entrou em seu
escritrio, deparou com Nadine  espera.
- Est se sentindo melhor, Sra. Renaud?
- Estou, sim. Obrigada.
- Ontem foi meu aniversrio, e veja o que meu marido me
deu!
Nadine foi at um armrio e tirou um luxuoso casaco de pele.
;, ; - No  uma beleza ?

Captulo Dezanove

Julia Stanford gostava de ter Sally como colega de 
apartamento. Sally era animada, divertida e otimista. Passara 
por um mau casamento ejurara que nunca mais se envolveria com 
outro homem. Julia no sabia muito bem qual era a definio de 
nunca 'mais de Sally, porque ela parecia sair com um homem 
diferente a cada semana.
- Os homens casados so os melhores-filosofava Sally.
- Sentem-se culpados e por isso esto sempre nos comprando 
presentes. Com um homem solteiro, voc tem de perguntar a
si mesma: por que ele continua solteiro?
' Ela perguntou a Julia:
- No est saindo com ningum, no ?
- No. - Julia pensou em todos os homens que a convidavam. - 
No quero sair apenas por sair, Sally. Quero algum
de quem eu goste de facto.
- Pois tenho o homem certo para voc! - garantiu Sally.
- Vai ador-lo! O nome dele  Tony Vinetti. Falei com ele 
sobre voc e Tony est ansioso em conhec-la.
- Acho que no...
- Ele vir busc-la amanh de noite, s oito horas.

Tony Vinetti era alto, muito alto, de uma maneira atraente. 
Tinha cabelos escuros e abundantes, exibiu um
sorriso exuberante, que desarmou Julia por completo.
- Sally no exagerou. Voc  mesmo espetacular.
- Obrigada.
Julia experimentou um pequeno tremor de prazer.
- J esteve no Houston's?
Era um dos melhores restaurantes de Kansas City.
- No.
A verdade  que ela no tinha condies de comer no
Houston's. Nem mesmo com o aumento que recebera.
- Pois  onde temos uma reserva.

Ao jantar, Tony falou o tempo todo sobre si mesmo, mas Julia
no se importou. Ele era encantador e divertido. Ele  
deslumbrante, dissera Sally. E tinha toda a razo.
O jantar foi delicioso. Para sobremesa, Julia pediu sufl de
chocolate e Tony sorvete. Enquanto se demoravam a tomar o
caf, Julia pensou: Ser que ele vai me convidar a ir a seu
apartamento? E se convidar, eu irei ? No. No posso fazer
isso.
No no primeiro encontro. Ele vai pensar que sou vulgar. Na
prxima vez em que sairmos...
A conta chegou. Tony examinou-a e disse:
- Parece que est certa. - Ele se ps a enumerar os itens
da conta. - Voc comeu o pat e a lagosta...
- Isso mesmo.
- Batatas fritas, salada e sufl, certo?
Julia estava perplexa.
- Certo...
- Muito bem. -Tony fez o clculo. - Sua parte na conta
 de cinquenta dlares e quarenta centavos.
Julia ficou chocada.
- Como?
Tony sorriu. '

- Sei como as mulheres so independentes hoje em dia. ?
No deixam que os homens faam nada por vocs, no 
mesmo? - E ele acrescentou, magnnimo: - Assumirei sua
parte na gorjeta.

- Lamento que no tenha dado certo - desculpou-se Sally. -
Ele  realmente lindo. Vai sair com ele de novo?
- No tenho condies - respondeu Julia, amargurada.
- Pois tenho outro homem para voc. Vai ador-lo...
- No, Sally. No quero...
- Confie em mim.

Ted Riddle estava no final da casa dos trinta anos e Julia
teve de admitir que era bastante atraente. Levou-a ao 
restaurante Jennie's, na Historic Strawberry Hill, famoso por 
sua autntica comida croata.
- Sally me prestou um grande favor - comentou Riddle.
- Voc  adorvel.
- Obrigada.
- Sally contou que tenho uma agncia de propaganda?
- No.
- Pois tenho.  uma das maiores agncias de Kansas City.
Todo mundo me conhece.
- Isso  ptimo. Eu...
- Atendemos alguns dos maiores clientes do pas.
-  mesmo? Eu no...
- , sim. Cuidamos das contas de celebridades, bancos,
grandes indstrias, redes de lojas...
- Pois eu...
-.. supermercados. Pode dizer qualquer nome, ns o
representamos.
- Isto ...
- Deixe-me contar como comecei...

Ele no parou de falar durante todo ojantar e o assunto nico
foi Ted Riddle.
-  bem provvel que ele apenas estivesse nervoso -
desculpou-se Sally.
- Pois posso garantir que me deixou nervosa. Se quiser
saber alguma coisa sobre a vida de Ted Riddle, desde o dia em
que ele nasceu, basta me perguntar
- Jerry McKinley.
- Como?
- Jerry McKinley. Acabei de me lembrar. Ele costumava
sair com uma amiga minha. Ela era louca por Jerry.
- Agradeo, Sally, mas no quero.
- Vou ligar para ele.

Jerry McKinley apareceu na noite seguinte. Era bonito, tinha
uma personalidade doce e cativante. Ao passar pela porta e
olhar para Julia, foi logo dizendo:
- Sei que esses encontros em que as pessoas no se conhecem 
sempre so difceis. Sou um pouco tmido e por isso sei
como voc se sente, Julia.
Ela gostou de Jerry McKinley no mesmo instante.
Foram jantar no restaurante chins Evergreen, na State Avenue.
- Voc trabalha para uma firma de arquitetura. Deve ser
fascinante. Acho que as pessoas no compreendem como os

arquitetos so importantes.
Ele  sensvel, pensou Julia, feliz. Ela sorriu.
- Concordo plenamente.
A noite foi maravilhosa; quanto mais conversavam, mais
Julia gostava dele. E decidiu ser ousada.
- Gostaria de voltar ao apartamento para um ltimo drinque?
- No. Vamos para o meu apartamento.
- Seu apartamento?
Ele inclinou-se para a frente, apertou a mo de Julia.
-  l que eu guardo os chicotes e correntes.

Henry Wesson possua uma firma de contabilidade no mesmo
prdio da Peters, Eastman & Tolkin. Duas ou trs manhs por
semana Julia o encontrava no elevador. Parecia bastante 
simptico. Estava na casa dos trinta anos, possua uma 
aparncia inteligente, cabelos ruivos, usava culos de aros 
escuros. O conhecimento comeou com polidos acenos de cabea, 
passou para Bom dia, depois para "Voc est parecendo
muito bem hoje", e alguns meses depois chegou a "No gostaria
de jantar comigo uma noite dessas?" Ele a observava ansiosa, 
espera da resposta.
Julia sorriu.
- Est bem.
Foi amor instantneo da parte de Henry. No primeiro encontro,
levou Julia ao EBT, um dos mais destacados restaurantes de
Kansas City. Estava obviamente emocionado por sair com ela.
Falou pouco de si mesmo.
- Nasci aqui, na velha KC. Meu pai tambm
nasceu aqui. A bolota no cai muito longe do carvalho. Sabe o 
que estou querendo dizer?
Julia sabia.
- Eu sempre soube que queria ser contador. Quando sa da
escola, fui trabalhar para a Bigelow & Benson Financial 
Corporation. E agora tenho minha prpria firma.
- Isso  ptimo - comentou Julia.
- Isso  praticamente tudo o que tenho a dizer a meu
respeito. Fale-me de voc.
Julia ficou calada por um momento. Sou filha
ilegitima de um dos homens mais ricos do mundo. Provavelmente 
j ouviu falar dele. Acaba de morrer afogado. Sou sua 
herdeira. Ela correu os olhos pelo elegante restaurante. 
Poderia comprar este restaurante, se quisesse. Talvez pudesse 
at comprar toda esta cidade, se quisesse.
Henry a fitava atentamente.
- Julia!
- Ah... desculpe. Nasci em Milwaukee. Meu... meu pai
morreu quando eu era pequena. Minha me e eu viajamos muito
por todo o pas. Quando ela morreu, decidi ficar aqui, arrumar
um emprego.
Espero que meu nariz no esteja crescendo. Henry Wesson
ps a mo sobre a dela.
- Ou seja, nunca teve um homem para cuidar de voc. -
Ele inclinou-se para a frente e acrescentou, muito srio: - Eu 
gostaria de cuidar de voc pelo resto de sua vida.
Julia se surpreendeu.
- No pretendo bancar a Doris Day, mas mal nos conhecemos.
- Quero mudar isso.
Ao voltar para casa, Julia encontrou Sally  espera.

- E ento, como foi o encontro? - indagou Sally.
Julia murmurou, pensativa:
- Ele  muito doce e...
- Ele  louco por voc!
Julia sorriu.
- Acho que ele me pediu em casamento.
Os olhos de Sally se arregalaram.
- Voc acha que ele a pediu em casamento? Oh, Deus!
No tem certeza se o homem a pediu em casamento ou no?
- Ele disse que queria cuidar de mim pelo resto de minha
vida.
- Mas isso  um pedido de casamento! -exclamou Sally.
- Case com ele! E depressa! Case logo, antes que ele mude de
idia!
Julia riu.
- Por que a pressa?
- Preste ateno. Convide-o para jantar aqui. Eu farei o
jantar e dir a ele que foi voc.
Julia riu de novo.
- Obrigada, mas no quero. Quando eu encontrar o homem
com quem quiser casar, poderemos comer comida chinesa em
pratos de papelo, mas pode ter certeza de que a mesa ser 
muito bem posta, com flores e velas.

No encontro seguinte, Henry disse:
- Kansas City  um ptimo lugar para se criar filhos.
- Tambm acho.
O nico problema de Julia era que no tinha certeza se queria
criar os filhos dele. Henry era confivel, srio, decente,
mas...
Conversou a esse respeito com Sally.
- Henry continua a me pedir em casamento.
- Como ele ?
Julia pensou por um instante, procurando definir as coisas
mais romnticas e excitantes que poderia dizer sobre Henry 
Wesson.
- Ele  confivel, srio, decente...
Sally fitou-a em silncio por um momento.
- Noutras palavras,  um chato.
Julia protestou, na defensiva:
- No chega a ser chato...
Sally balanou a cabea.
-  mesmo chato. Case com ele.
- Como?
- Case com ele. Maridos bons e chatos so difceis de
encontrar.

Passar de um dia de pagamento para outro era um campo
minado financeiro. Havia dedues no salrio, o aluguel,
despesas com o carro, comida, roupas a comprar. Julia tinha
um Toyota Tercel, e sua impresso era a de que gastava mais
com o carro do que consigo mesma. Vivia pedindo dinheiro
emprestado a Sally.

Uma noite, quando Julia se vestia, Sally disse:
- Outra grande noite com Henry, hem? Onde ele vai
lev-la esta noite?
- Vamos ao Salo Sinfnico. Cleo Laine vai se apresentar.

- Henry a pediu em casamento de novo?
Julia hesitou. A verdade  que Henry a pedia em casamento
cada vez que se encontravam. Sentia-se pressionada, mas ainda
no era capaz de dizer sim.
- No o perca - advertiu Sally.
Provavelmente Sally tem razo, pensou Julia. Henry Wesson 
daria um bom marido.  um homem... Ela hesitou.  um homem
confivel, srio, decente... Isso  suficiente?
No momento em que Julia passava pela porta, Sally perguntou:
- Pode me emprestar seus sapatos pretos?
- Claro.
E Julia saiu.
Sally foi ao quarto de Julia, abriu o armrio. Os sapatos que
queria se encontravam na prateleira de cima. Quando os puxou,
uma caixa de papelo equilibrada de forma precria na beira da
prateleira caiu, o contedo espalhou-se pelo cho.
- Droga!
` ` Sally abaixou-se para recolher os papis. Havia dezenas de
recortes de jornais e fotos, tudo sobre a famlia de Harry
Stanford. Parecia haver centenas. Subitamente, Julia voltou
apressada ao quarto.
- Esqueci minha... - Ela estacou ao ver as coisas no cho.
- O que est fazendo?
- Desculpe - murmurou Sally. - A caixa caiu.
Corando, Julia abaixou-se, comeou a guardar tudo na caixa.
- Nunca imaginei que voc fosse to interessada pelos
ricos e famosos - comentou Sally.
Sem dizer nada, Julia continuou a recolher as coisas. Ao
pegar um punhado de fotografias, deparou com um pequeno
medalho de ouro, em forma de corao, que a me Lhe dera
antes de morrer. Julia ps o medalho de lado. Sally a
observava,
aturdida.
- Julia...
- O que ?
- Por que est to interessada em Harry Stanford?
- No estou. Eu... Essas coisas eram de minha me.
Sally encolheu os ombros.
- Tudo bem.
;' Ela pegou um recorte. Era de uma revista de escndalos e o 
ttulo da reportagem atraiu sua ateno: MAGNATA ENGRA'vidA 
GOVERNANTA DOS FILHOS - NASCE CRIANA
DA UNIO ILEGTIMA - ME E FILHA DESAPARECEM!
Sally virou-se para Julia, boquiaberta.
- Oh, Deus! Voc  filha de Harry Stanford!
Julia contraiu os lbios. Sacudiu a cabea e continuou a 
guardar as coisas.
- No ?
Julia parou.
- Por favor, prefiro no falar a esse respeito, se
no se incomoda.
Sally levantou-se de um pulo.
- Prefere no falar a esse respeito?  filha de um dos homens
mais ricos do mundo e prefere no falar a esse respeito? Est
louca?
- Sally...
- Sabe o quanto ele valia? Bilhes!
- Isso nada tem a ver comigo.

- Se  filha dele, tem tudo a ver com voc.  uma herdeira!
S precisa comunicar  famlia quem voc ...
- No.
- No? Por qu?
- Voc no entende. - Julia levantou-se, mas foi arriar na
cama. - Harry Stanford era um homem horrvel. Abandonou
minha me. Ela o odiava, e eu tambm odeio.
- No se pode odiar algum com tanto dinheiro. Tente procurar 
entender.
Julia sacudiu a cabea.
- No quero me envolver com essa gente.
- Julia, herdeiras no vivem em apartamentos ordinrios,
no compram roupas de segunda mo, no pedem dinheiro 
emprestado para pagar o aluguel. Sua famlia detestaria saber 
que voc vive assim. Iriam se sentir humilhados.
- Nem sabem que estou viva.
- Ento deve lhes dizer.
- Sally...
- O que ?
- Esquea o assunto.
Sally fitou-a em silncio por longo tempo.
- Est bem. Antes que eu me esquea, poderia me emprestar um 
ou dois milhes at o prximo pagamento?

Captulo Vinte

Tyler estava ficando frentico. H 24 horas que ligava
para a casa de Lee, e ningum atendia. Quem est com ele? 
agoniava-se Tyler. O que ele est fazendo?
Ele pegou o telefone e discou mais uma vez. A campainha
tocou por um longo tempo, e no momento em que ia desligar,
Tyler ouviu a voz de Lee.
- Lee! Como voc est?
- Quem est falando?
- Sou eu, Tyler.
- Tyler? - Houve uma pausa. - Ah, sim.
Tyler sentiu uma pontada de decepo.
- Como voc tem passado?
- Muito bem - respondeu Lee.
- Eu disse que teria uma surpresa maravilhosa para voc.
-  mesmo?
Lee parecia entediado.
- Lembra-se do que me falou sobre ir a St. Tropez num lindo
iate branco?
- O que tem isso?
- Gostaria de partir no prximo ms?
- Fala srio?
- Pode apostar que sim.
- No sei... Voc tem um amigo com um iate?
- Estou prestes a comprar um iate.
- No est se metendo em alguma fria, no , juiz?
- Fria? Oh, no! Acontece que estou recebendo um dinheiro. 
Muito dinheiro.
- St. Tropez, hem? Parece sensacional. Claro que eu adoraria 
ir com voc.
Tyler sentiu um alvio profundo.
- Maravilhoso! At l, no... - Ele no podia sequer
pensar a esse respeito. - Manterei contacto com voc, Lee.
Tyler desligou e sentou-se na beira da cama. Eu adoraria ir 
com voc. Podia visualizar os dois num belo iate, navegando 
pelo mundo. Juntos.
Ele pegou na lista telefnica e comeou a procurar nas pginas
amarelas.

O escritrio da John Alden Yachts, Inc. ficava no Commercial
Wharf de Boston. O gerente de vendas adiantou-se no momento
em que Tyler entrou.
- Em que posso ajud-lo, senhor?
Tyler fitou-o e disse, casual:
- Eu gostaria de comprar um iate.
As palavras saram com a maior naturalidade. O iate do pai
provavelmente seria parte do esplio, mas Tyler no tinha a
menor inteno de partilhar uma embarcao com o irmo e a
irm.
- A motor ou  vela?
- Hum... no sei. Quero poder viajar pelo mundo no iate.
- Ento estamos falando de um iate a motor
- Deve ser branco.
O gerente de vendas fitou-o com alguma estranheza.
- Claro, claro. Qual o tamanho do barco que tem em
mente?
O Blue Skies tem cento e oitenta ps.

- Duzentos ps.
O gerente de vendas piscou, aturdido.
- Entendo. Um iate assim seria muito caro, Sr....
- Juiz Stanford. Meu pai era Harry Stanford.
O rosto do homem se iluminou.
- Dinheiro no  problema - acrescentou Tyler.
- Claro que no! Muito bem, juiz Stanford, vamos lhe
arrumar um iate que todos invejaro. Branco,  claro. Aqui 
est um portflio de alguns iates disponveis. Ligue-me quando
decidir por qual deles se interessa.

Woody Stanford estava pensando em pneis de plo. Durante
toda a sua vida tivera de montar os pneis de amigos, mas 
agora poderia comprar os melhores do mundo. Ele telefonou para
Mimi Carson.
- Quero comprar seus pneis.
A voz de Woody ressoava de excitamento. Ele escutou por
um momento.
- Isso mesmo, todos eles. Falo srio. Certo...
A conversa demorou meia hora. Woody sorria ao desligar.
Foi procurar Peggy.
Ela estava sentada sozinha na varanda. Woody ainda podia
ver as equimoses no rosto dela, onde a agredira. ;
- Peggy;..
Ela fitou-o, cautelosa.
- O que ? ;
- Preciso conversar com voc... e no sei por onde
comear.
Peggy ficou esperando. Ele respirou fundo.
- Sei que sou um pssimo marido. Algumas das coisas que
fiz so indesculpveis. Mas tudo isso vai mudar agora, 
querida. No percebe? Estamos ricos. Muito ricos. Quero 
compensar tudo para voc. - Woody pegou a mo de Peggy. - Vou 
deixar as drogas para sempre desta vez. Juro que vou. Vamos 
ter uma vida completamente diferente.
Ela perguntou sem qualquer entonao:
- Vamos mesmo, Woody?
- Vamos, sim. Prometo. Sei que euj disse isso antes, mas
desta vez tudo dar certo. Tomei uma deciso. Vou me internar 
numa clnica onde possam me curar. Quero sair do inferno em
que tenho vivido. Peggy... - Havia desespero na voz. - No
vou conseguir sem voc. Sabe que no poderei...
Ela contemplou-o em silncio por um longo tempo, depois
aninhou-o em seus braos.
- Sei disso, meu pobre querido. Eu o ajudarei...

Era tempo de Margo Posner sair de cena.
Tyler encontrou-a no estdio. Fechou a porta.
- Queria lhe agradecer mais uma vez, Margo.
Ela sorriu.
- Tem sido divertido. E muito. - Ela fitou-o com uma
expresso maliciosa. - Talvez eu devesse me tornar uma actriz.
Tyler sorriu.
- Voc  boa nisso. No resta a menor dvida de que
conseguiu enganar esta platia.
- Consegui, no  mesmo?
- Aqui est o resto do seu dinheiro. - Ele tirou um
envelope do bolso. - E a passagem de volta para Chicago.

- Obrigada.
Tyler olhou para seu relgio.
-  melhor voc se apressar
- Certo. Quero apenas que saiba que me sinto grata, por
me ter tirado da priso e tudo o mais.
Tyler tornou a sorrir.
- No foi nada. Faa uma boa viagem.
- Obrigada.
Ele observou-a subir para arrumar suas coisas. A partida
terminara.
Xeque e xeque-mate.

Margo Posner estava no quarto, terminando de arrumar suas
coisas, quando Kendall entrou.
- Oi, Julia. Eu s queria... - Ela parou. - O que est
fazendo?
- Vou voltar para casa.
Kendall ficou aturdida.
- To cedo? Por qu? Eu esperava que pudssemos passar
algum tempojuntas, para nos conhecermos melhor. Temos muitos 
anos para recuperar.
- Claro, mas vamos deixar para outra ocasio.
Kendall sentou-se na beira da cama.
-  como um milagre, no , nos encontrarmos depois de
tantos anos?
Margo continuou a arrumar a mala.
- Tem toda a razo, um milagre.
- Voc deve se sentir como Cinderela. Afinal, num momento 
levava uma vida normal, e no instante seguinte algum
lhe entrega um bilho de dlares.
Margo ficou imvel.
- Como?
- Eu disse...
- Um bilho de dlares?
- Isso mesmo. Segundo o testamento do pai,  o que cada
um de ns vai herdar
Margo estava atordoada.
- Cada um vai receber um bilho de dlares?
- No lhe disseram?
- No - murmurou Margo. - Ningum me contou. -
Ela fez uma pausa, pensativa, antes de acrescentar: - Sabe,
Kendall, acho que voc tem razo. Talvez devssemos nos
conhecer melhor

Tyler estava no solrio, examinando fotografias de iates, 
quando Clark se aproximou.
- Com licena, juiz Stanford. H uma ligao para o
senhor.
- Atenderei aqui.
Era Keith Percy, ligando de Chicago.
- Tyler?
- Sou eu.
- Tenho uma notcia sensacional para voc!
- O que ?
- Agora que vou me aposentar, no gostaria de assumir o
meu posto?
Tyler teve de fazer um esforo para no rir.
- Seria maravilhoso, Keith.

- Pois o cargo  seu!
- Eu... no sei o que dizer.
O que devo dizer? "Bilionrios no se sentam na bancada de
um tribunal srdido em Chicago para aplicar sentenas aos
desajustados do mundo?"Ou "Estarei ocupado demais a navegar 
pelo mundo em meu iate?"
- Quando poder voltar para Chicago, Tyler?
- Vai demorar um pouco. Ainda tenho muito o que fazer
aqui.
- Estaremos todos  sua espera.
 melhor esperarem sentados.
- Adeus.
Tyler desligou, olhou para o relgio. Era hora de Margo
partir para o aeroporto. Tyler subiu para verificar se ela j
estava pronta.
Quando entrou no quarto de Margo, encontrou-a a desarrumar a 
mala. Ele ficou surpreso.
- Ainda no est pronta.
Ela sorriu.
- No. Estive pensando. Gosto daqui. Talvez eu deva flcar
por mais algum tempo.
Tyler franziu o rosto.
- Mas do que est falando? Tem de pegar o avio para
Chicago!
- Sempre haver outro avio, juiz. - Margo tornou a
sorrir - Talvez at eu compre meu prprio avio.
- Como?
- Disse que queria que eu pregasse uma pea em algum.
- E da?
- Pois parece que a pea foi em cima de mim. Descobri
que valho um bilho de dlares.
A expresso de Tyler endureceu.
- Quero que saia daqui. Agora.
- Voc quer? Pois acho que s irei embora quando estiver
pronta... e ainda no estou.
Tyler estudou-a por um momento.
- O que... o que voc quer?
Ela balanou a cabea.
- Assim  melhor. O bilho de dlares que eu deveria
receber. Planeava ficar com tudo, certo? Calculei que estava
dando um golpe para ganhar um dinheiro extra, mas nunca
pensei que fosse um bilho de dlares. Isso torna o jogo
diferente. Acho que mereo uma boa parte.
Houve uma batida na porta do quarto.
- Com licena - disse Clark. - O almoo est servido.
Margo olhou para Tyler.
- V voc. No almoarei agora. Tenho algumas coisas a
fazer.

No final daquela tarde comearam a chegar pacotes em Rose
Hill. Havia caixas de vestidos de Armani, trajes esportes da
Scaasi Boutique, lingerie de Jordan Marsh, um casaco de 
zibelina da Neiman Marcus, e uma pulseira de diamantes de 
Cartier. Todos os pacotes se destinavam  Senhorita Julia 
Stanford.
Quando Margo voltou para casa, s quatro e meia, Tyler
esperava para confront-la, furioso.
- O que pensa que est fazendo? - indagou ele.

Margo sorriu.
- Precisava de algumas coisas. Afinal, sua irm tem de se
vestir bem, no ?  espantoso quanto crdito uma loja pode
conceder quando se  uma Stanford. Cuidar das contas, no ?
- Julia...!
- Margo. Por falar nisso, vi fotos de iates na mesa. Planea
comprar um?
- Isso no  da sua conta.
- No tenha tanta certeza. Talvez voc e eu possamos fazer
um cruzeiro. Daremos ao iate o nome de Margo. Ou Julia fica
melhor? Podemos viajar pelo mundojuntos. No gosto de ficar 
sozinha.
Tyler pensou por um momento.
- Parece que a subestimei.  uma mulher muito esperta.
- Partindo de voc  um grande elogio.
- Espero que seja tambm uma mulher razovel.
- Depende. O que chama de razovel?
- Um milho de dlares. Em dinheiro vivo.
O corao de Margo disparou.
- E posso ficar com as coisas que comprei hoje?
- Leve tudo.
Ela respirou fundo.
- Negcio fechado.
- ptimo. Providenciarei o dinheiro para lhe entregar o
mais depressa possvel. Terei de voltar a Chicago nos prximos
dias. - Ele tirou uma chave do bolso, entregou a Margo. -
Aqui est a chave da minha casa. Quero que fique l e espere
por mim. No fale com ningum.
- Combinado.
Margo tentou esconder seu excitamento. Talvez eu devesse
ter pedido mais, pensou.
- Reservarei uma passagem para voc no prximo avio.
- E as coisas que comprei?
- Cuidarei para que lhe sejam enviadas.
- Muito bem. Ns dois samos ganhando, hem?
Tyler balanou a cabea.
- Tem razo.
Tyler acompanhou Margo ao Aeroporto Internacional Logan. L
chegando, ela perguntou:
- O que vai dizer aos outros sobre a minha partida?
- Explicarei que teve de ir visitar uma amiga que ficou
doente... uma amiga na Amrica do Sul.
Ela fitou-o nos olhos, ansiosa.
- Quer saber de uma coisa, juiz? Aquela viagem de iate
seria divertida.
O vo foi chamado pelo sistema de alto-falantes.
- Acho que  o meu.
- Boa viagem.
- Obrigada. Estarei  sua espera em Chicago.
Tyler observou-a entrar no terminal de partida e esperou at
o avio descolar. Voltou  limusine e disse ao motorista:
- Rose Hill.

Ao chegar em casa, Tyler foi directamente para seu quarto e
telefonou para Keith Percy.,
- Estamos todos  sua espera, tyler. Quando voltar?
Planeamos uma pequena comemorao em sua homenagem.
- Muito em breve, Keith. Enquanto isso, preciso de sua

ajuda para um pequeno problema.
- Claro. Em que posso ajud-lo?
-  sobre uma criminosa que tentei ajudar. Margo Posner.
Creio que lhe falei sobre ela.
- Estou lembrado. Qual  o problema?
- A pobre mulher adquiriu a iluso de que  minha irm.
Veio para Boston e tentou me matar
- Mas isso  terrvel!
- Ela est voltando para Chicago agora, Keith. Roubou a
chave da minha casa e no sei o que planea fazer em seguida.
 uma luntica perigosa. Ameaou matar toda a minha famlia. 
Quero que a interne no Centro de Sade Mental Reed. Se me
passar por fax os documentos de internao, assinarei tudo. E
eu mesmo providenciarei os exames psiquitricos dela.
- Claro. Cuidarei de tudo imediatamente, Tyler
- Muito obrigado. Ela partiu no Vo 307 da United
Airlines. Deve chegar a s oito e quinze da noite. Sugiro que
mande algum peg-la no aeroporto. Ela deve ficar na ala de
segurana mxima do Reed, sem permisso para receber visitas.
- No se preocupe. Lamento que tenha passado por isso,
Tyler.
Havia uma insinuao de estoicismo na voz de Tyler.
- Sabe o que costumam dizer, Keith? "Nenhuma boa aco,
por menor que seja, fica impune."

ao jantar, naquela noite, Kendall perguntou:
- Julia no vai jantar conosco?
Tyler disse, pesaroso:
- Infelizmente, no. Ela me pediu para transmitir suas
despedidas a vocs. Foi cuidar de uma amiga na Amrica do Sul
que sofreu um infarto. Foi um tanto sbito.
- Mas o testamento no...
- Julia me passou uma procurao, com instrues para
aplicar sua parte num fundo de investimentos.
Um criado ps uma tigela com sopa de mariscos na frente
de Tyler.
- Ah! - exclamou ele. - Isso parece delicioso! E estou
com muita fome esta noite!

O Vo 307 da United Airlines efectuou o acesso final ao 
Aeroporto Internacional O'Hare dentro do horrio. Uma voz 
metlica saiu pelo sistema de alto-falantes:
- Senhoras e senhores, queiram fazer o favor de aflxar o
cinto de segurana.
Margo Posner adorara o vo. Passara a maior parte do tempo
sonhando com o que faria com o milho de dlares, com as
roupas e jias que comprara. E tudo porque fui presa! No 
sensacional?
Quando o avio pousou, Margo pegou as coisas que trouxera
e comeou a descer a rampa. Uma aeromoa se postou atrs dela.
Na pista, perto do avio, havia uma ambulncia, com dois
paramdicos e um mdico  espera. A aeromoa olhou para eles
e apontou para Margo. Assim que Margo saiu da rampa, um dos
homens abordou-a.
- Com licena - disse ele.
Margo fitou-o.
- O que deseja?
- Voc  Margo Posner?

- Isso mesmo. O que...?
- Sou o Dr. Zimmerman. - Ele pegou-a pelo brao. -
Gostaria que nos acompanhasse, por favor.
O mdico comeou a conduzi-la para a ambulncia. Margo
tentou se desvencilhar.
- Ei, espere um pouco! O que est fazendo?
Os outros dois se aproximaram para segurar os braos dela.
- Por favor, no tente resistir, Senhorita Posner - murmurou
o mdico.
- Socorro! - berrou Margo. - Socorro!
Os outros passageiros olhavam, espantados.
- O que h com vocs? - gritou Margo. - Esto cegos?
Estou sendo sequestrada! Sou Julia Stanford, filha de Harry
Stanford!
- Claro que  - disse o Dr. Zimmerman, num tom tranquilizador. 
- Mas tente se acalmar.
As pessoas viram Margo ser levada para as portas traseiras
da ambulncia, se debatendo e gritando.
Dentro da ambulncia, o mdico pegou uma seringa, inseriu
a agulha no brao de Margo.
- Relaxe - murmurou ele. - tudo vai acabar bem.
- Devem estar loucos! - protestou Margo. - Devem...
Os olhos dela se tornaram pesados demais para mant-los
abertos. As portas foram fechadas e a ambulncia partiu em 
alta velocidade.

tyler soltou uma risada ao ser informado de tudo. Podia 
visualizar a sacana gananciosa sendo levada na ambulncia. 
Providenciaria para que ela fosse mantida numa instituio de 
sade mental pelo resto de sua vida.
Agora o jogo acabou mesmo, pensou ele. Consegui! O velho
se reviraria na sepultura-se ainda estivesse numa -ao saber
que vou assumir o controle da Stanford Enterprises. Darei a
Lee tudo o que ele jamais sonhou.
Perfeito. Tudo estava perfeito.

Os acontecimentos do dia deixaram tyler com um intenso
excitamento sexual. Preciso de algum alvio. Ele abriu sua
pasta e tirou do fundo um exemplar do Damron's quide. Havia 
vrios bares de gays relacionados em Boston.
Ele escolheu o Quest, na Boylston Street. No vou jantar.
Irei directamente para o clube. E depois ele pensou: Mas que
bom.

Julia e Sally se vestiam para ir trabalhar. Sally perguntou:
- Como foi seu encontro com Henry ontem  noite?
- A mesma coisa de sempre.
- To ruim assim? Os proclamas do casamento ainda no
saram?
- Deus me livre! Henry  doce, mas... - Julia suspirou.
- Ele no  para mim.
- Ele pode no ser, mas isto .
Sally entregou cinco envelopes a Julia. Eram contas. Julia
abriu os envelopes. Trs tinham o carimbo de ATRASADO e
outro estava marcado TERCEIRO AVISO. Julia examinou as
contas por um momento.
- Sally, ser que poderia me emprestar..?
Sally fitou-a, espantada.

- No consigo entend-la.
- Como assim?
- Trabalha que nem uma escrava, no consegue pagar suas
contas, e tudo o que tem de fazer  levantar o dedo mindinho
para receber alguns milhes de dlares, uns poucos trocados a
mais ou a menos.
- O dinheiro no  meu. ',
- Mas claro que ! - disse Sally, rspida. - Harry Stanford 
no era seu pai? Portanto, voc tem direito a uma parte
da herana. E no uso a palavra portanto com frequncia.
- Esquea. J contei como ele tratou minha me. No teria
me deixado um nico centavo.
Sally suspirou.
- E eu torcendo para estar morando com uma milionria!
As duas se encaminharam para o estacionamento em que
deixavam seus carros. A vaga de Julia estava vazia. Ela ficou
olhando, em choque.
- Sumiu!
- Tem certeza que deixou o carro aqui ontem  noite?
- Tenho. ;
- Ento algum roubou. '
Julia sacudiu a cabea.
- No.
- Como assim?
Ela virou-se para fitar Sally.
, - A companhia deve t-lo levado de volta. Estou
com trs prestaes atrasadas.
- Isso  ptimo - disse Sally, sem qualquer entonao. -
Simplesmente maravilhoso.

Sally no conseguia tirar da cabea a situao de sua colega 
de apartamento.  como um conto de fadas, pensou Sally. Uma
princesa que no sabe que  uma princesa. S que neste caso
ela sabe, mas  orgulhosa demais para fazer qualquer coisa.
No  justo. A famlia tem todo aquele dinheiro e ela no tem
nada. Mas se ela no quer fazer nada, tomarei uma providncia.
E depois ela vai me agradecer por isso.
Naquela noite, depois que Julia saiu, Sally tornou a examinar
a caixa com os recortes. Pegou uma notcia recente, informando
que os herdeiros Stanfords haviam voltado a Rose Hill para os
servios fnebres.
' Se a princesa no vai a eles, pensou Sally, eles
viro  princesa.
Ela sentou-se e comeou a escrever uma carta, endereada ao
juiz Tyler Stanford.

Captulo Vinte e Um

Tyler Stanford assinou os documentos de internao de
Margo Posner no Centro de Sade Mental Reed. Era necessrio
que trs psiquiatras concordassem com a internao, masTyler
sabia que conseguiria isso sem a menor dificuldade.

Ele revisou tudo o que fizera desde o incio e concluiu que
no houvera falhas em seu plano de jogo. Dmitri desaparecera 
na Austrlia, e Margo Posner fora devidamente descartada. 
Restava Hal Baker, mas ele no seria um problema. Todos tinham 
um calcanhar-de-aquiles e o dele era sua estpida famlia. 
Baker nunca falar, porque no pode suportar a perspectiva de 
passar a vida na priso, longe da famlia.
Tudo estava perfeito.
Assim que o testamento for homologado, voltarei a Chicago
e pegarei Lee. Talvez at compremos uma casa em St. Tropez.
Tyler comeou a se sentir excitado ao pensar nisso.
Viajaremos pelo mundo em meu iate. Sempre desejei conhecer 
veneza... Positano... Capri... Faremos um safri no Qunia, 
veremos o Taj Mahal juntos, ao luar. E a quem devo tudo isso?A 
papai. O velho e querido papai. "Voc  bicha, Tyler, e sempre 
ser um bicha. No sei como algum como voc pde sair de 
mim... "
Quem riu por ltimo, pai?
Tyler desceu para almoar com o irmo e a irm. Estava
faminto outra vez.

- Foi uma pena que Julia tivesse de partir to de repente -
comentou Kendall. - Eu gostaria de conhec-la melhor.
- Tenho certeza que ela planea voltar assim que puder-
disse Marc.
Isso  verdade, pensou Tyler. Mas ele cuidaria para que ela
nunca voltasse.
A conversa passou para o futuro.
- Woody vai comprar um grupo pneis de plo - informou Peggy, 
timidamente.
- No  um grupo! -protestou Woody, rspido. - um
stud. Um stud de pneis de plo.
- Desculpe, querido. Eu apenas...
- Esquea!
Tyler olhou para Kendall.
- Quais so os seus planos?
... contamos com seu apoio... Agradeceriamos se depositasse um 
milho de dlares... nos prximos dez dias.
- Kendall?
- hen... Estou pensando... em expandir o negcio. Abrirei
lojas em Londres e Paris.
- Parece emocionante - murmurou Peggy.
- Promoverei um desfile em Nova York dentro de duas
semanas. Tenho de ir at l para aprontar tudo.
Kendall olhou para Tyler
- O que pretende fazer com sua parte da herana?
- Doarei a obras de caridade, a maior parte - respondeu
Tyler, em tom devoto. - H muitas organizaes meritrias que
precisam de ajuda.
Ele prestava apenas meia ateno  conversa. Olhou para o
irmo e a irm. Se no fosse por mim, vocs no receberiam

nada. Absolutamente nada.
Tyler se concentrou em Woody. O irmo se tornara um
viciado em drogas, desperdiando sua vida. O dinheiro no vai
ajud-lo, pensou Tyler. S lhe servir para comprar mais 
drogas. Ele especulou onde Woody obtinha as drogas.
Tyler virou-se para a irm. Kendall era inteligente e 
bem-sucedida, tirara o maior proveito de seus talentos.
Marc estava sentado ao lado dela, contando uma piada
engraada a Peggy. Ele  atraente e charmoso. Uma pena que
seja casado.
E ainda havia Peggy. Tyler pensava nela como Pobre
Peggy. No podia entender por que ela aturava Woody. Deve
am-lo muito. Pois  certo que no lucrou coisa alguma com
seu casamento.
Ele especulou como os outros reagiriam se se levantasse e
anunciasse: Controlo a Stanford Enterprises. Mandei assassinar
nosso pai, desenterrar o corpo e contratei algum para 
representar o papel de nossa meia-irm. Tyler sorriu ao 
pensamento.
Era difcil guardar um segredo to delicioso.
Depois do almoo, Tyler voltou a seu quarto, a fim de
telefonar outra vez para Lee. Ningum atendeu. Ele est com 
algum, pensou Tyler, desesperado. No acredita no iate. Pois 
provarei a ele! Quando o testamento ser homologado? Preciso 
de ligar para Fitzgerald ou para aquele jovem advogado, Steve 
Sloane.
Houve uma batida na porta. Era Clark.
- Com licena,juiz Stanford, mas acaba de chegar uma carta.
Provavelmente de Keith Perey, dando-me os parabns.
- Obrigado, Clark.
Ele pegou o envelope. Tinha um endereo de remetente em
Kansas City. Ele contemplou-o por um momento, surpreso,
depois abriu o envelope e leu a carta.
Prezado juiz Stanford:
Acho que deve saber que tem uma meia-irm chamada
Julia. Ela  filha de Rosemary Nelson e de seu pai. Vive
em Kansas City. Seu endereo  Metcalf Avenue,1.425,
Apartamento 3B, Kansas City, Kansas.
Tenho certeza que Julia ficaria feliz em receber notcias 
suas.
Atenciosamente,
Uma Amiga

Tyler ficou olhando para a carta, incrdulo, e sentiu um
calafrio.
- No! - gritou ele. - No!
No posso admitir! No agora! Talvez ela seja uma impostora. 
Mas ele tinha o terrvel pressentimento de que esta
Julia era a genuna. E agora a desgraada vai se apresentar 
para reivindicar sua parte na herana! Minha parte! No 
pertence a ela. No posso deixar que venha para c. Arruinaria 
tudo. Eu teria de explicar a outra Julia e... Ele estremeceu.
- No! - gritou outra vez, em voz alta.
Tenho de me livrar dela. E depressa.
Tyler pegou o telefone e discou para Hal Baker.

Captulo Vinte e Dois

O dermatologista balanou a cabea.
- J tinha visto casos similares, mas nenhum to grave assim.
Hal Baker coou a mo.
- H trs possibilidades, Sr Baker. Essa coceira pode ser
causada por um fungo, uma alergia ou pode ser neurodermatite.
A raspa de pele que tirei de sua mo e examinei ao microscpio
indicou que no se tratava de um fungo. E disse que no
manuseia substncias qumicas em seu trabalho...
- isso mesmo.
- Assim, reduzimos as possibilidades a uma. O que tem 
lichen simplex chronicus ou neurodermatite localizada.
- Parece horrvel. Podemos fazer alguma coisa?
- Felizmente, sim. -O mdico pegou um tubo num armrio
no canto da sala e abriu-o. - Sua mo est coando agora?
Hal Baker tornou a coar a mo.
- Est, sim. A sensao  de que pegou fogo.
- Quero que esfregue um pouco deste creme na mo.
Hal Baker espremeu um pouco do creme e comeou a passar
na mo. Foi como um milagre.
- A coceira parou!
- ptimo. Use isso, e no ter mais problemas.
- Obrigado, doutor. No tenho palavras para descrever
meu alvio.
- Vou lhe dar uma receita. Pode levar esse tubo.
- Obrigado.

Voltando para casa, Hal Baker cantava em voz alta. Era a
primeira vez que sua mo no coava desde que conhecera ojuiz
Tyler Stanford. Era uma sensao maravilhosa de liberdade.
Ainda assoviando, ele estacionou o carro na garagem e entrou
na cozinha. Helen o esperava.
- Ligaram para voc - avisou ela. - Um certo Sr. Jones.
Disse que era urgente.
A mo de Hal Baker recomeou a coar.

Ele machucara algumas pessoas, mas fizera isso por amor a seus
filhos. Cometera alguns crimes, mas fora pela famlia. Hal
Baker no acreditava realmente que tivesse errado. Mas aquilo 
era diferente. Era assassinato a sangue-frio. Bem que 
protestara ao responder  ligao.
- No posso fazer isso, juiz. Ter de encontrar outro.
Houvera um momento de silncio. E depois:
- Como vai sua famlia?

O vo para Kansas City transcorreu sem qualquer incidente. O
juiz Stanford dera instrues detalhadas. O nome dela  Julia
Stanford. Tem seu endereo. Ela no estar  sua espera. Tudo
o que tem de fazer  ir at l e liquid-la.
Ele pegou um txi no aeroporto de Kansas City e seguiu para
o centro da cidade.
- Lindo dia - comentou o motorista.
- , sim.
- De onde voc vem?
- Nova York. Vivo aqui.
- Um bom lugar para se viver.
- Claro que . Tenho alguns reparos a fazer em casa. Pode

me deixar numa loja de ferragens?
- Claro.
Cinco minutos depois, Hal Baker disse a um balconista na loja:
- Preciso de um faco de caa.
- Temos o que precisa, senhor. Pode me acompanhar, por favor?
O faco era uma beleza, com cerca de quinze centmetros de
comprimento, a ponta afiada, os lados serrilhados.
- Este serve?
- Serve - respondeu Hal Baker.
- Vai pagar em dinheiro ou carto de crdito?
- Dinheiro.
A parada seguinte foi numa papelaria.

Hal Baker estudou o prdio de apartamentos na Metcalf Avenue,
1.425 por cinco minutos, verificando todas as sadas. Foi
embora e s voltou s oito horas da noite, quando comeava a
escurecer.
Queria se certificar de que Julia Stanford tinha um emprego, 
se j voltara para casa quela hora. Notara que o prdio no
tinha porteiro. Havia um elevador, mas ele subiu pela escada. 
No era sensato se meter em pequenos espaos fechados. Podiam 
virar armadilhas. Ele chegou ao terceiro andar. O apartamento 
3B ficava no lado esquerdo do corredor. O faco estava preso 
com fita adesiva no bolso interno do palet. Ele tocou a
campainha. A porta foi aberta um momento depois, e ele se 
descobriu a fitar uma mulher atraente.
- Ol. - Ela tinha um sorriso simptico. - O que deseja?
Era mais jovem do que ele imaginara, e Hal Baker especulou
de passagem por que ojuiz Stanford queria mat-la. Ora, no 
da minha conta. Ele tirou um carto do bolso e estendeu-o.
- Trabalho com a A.C. Nielsen Company. No temos
ningum da famlia Nielsen nesta rea e procuramos por pessoas
que possam estar interessadas.
A mulher sacudiu a cabea.
- No, obrigada.
Ela comeou a fechar a porta.
- Pagamos cem dlares por semana.
A porta permaneceu entreaberta.
- Cem dlares por semana?
- Isso mesmo, madame.
A porta foi escancarada agora.
 - Tudo o que tem a fazer  registrar os nomes
dos programas que assiste. Faremos um contrato de um ano.
Cinco mil dlares!
- Entre.
Ele entrou no apartamento.
- Sente-se, Sr...
- Allen. Jim Allen.
- Como me escolheu, Sr. Allen?
- Nossa companhia efectua uma verificao ao acaso. Temos de 
cuidar para que nenhuma das pessoas esteja ligada por
qualquer forma a uma emissora de televiso, a fim de manter
nossa pesquisa acurada. No tem ligaes com a produo de
nenhum programa de televiso, no ?
Ela riu.
- Claro que no. O que exactamente eu teria de fazer?
-  muito simples. Ns lhe daremos um mapa com todos
os programas de televiso relacionados e s precisa fazer uma

marca cada vez que assistir a um programa. Dessa maneira nosso
computador pode calcular quantos espectadores cada programa
tem. A famlia Nielsen est espalhada por todos os Estados
Unidos e assim temos uma noo clara de que programas so
populares e com quem. Estaria interessada?
- E muito. '
Ele pegou alguns formulrios impressos e uma caneta.
- Quantas horas por dia assiste  televiso?
- No muitas. Trabalho durante o dia inteiro.
- Mas assiste  televiso pelo menos um pouco?
- Claro. Assisto ao noticirio  noite e s vezes a um filme
antigo. Gosto de Larry King.
Ele fez uma anotao.
- Assiste  televiso educativa?
- Assisto  PBS aos domingos.
- Por falar nisso, mora sozinha aqui?
- Tenho uma colega de apartamento, mas ela no est.
Portanto, os dois estavam a ss.
A mo comeou a coar. Ele enfiou a mo por dentro do
palet, comeou a desprender o faco. Ouviu passos no corredor
l fora. Parou.
- Disse que receberei cinco mil dlares por ano s para fazer 
isso?
- Exactamente. Ah, esqueci de mencionar. Tambm damos
um aparelho novo de TV a cores.
- Mas isso  fantstico!
Os passos se afastaram. Ele tornou a enfiar a mo no bolso
interno, segurou o cabo do faco.
- Pode me dar um copo d'gua, por favor? Foi um dia
cansativo.
- Pois no.
Ele observou a mulher levantar-se, ir at um pequeno bar no
canto.
Tirou o faco da bainha, foi atrs dela. A mulher estava
dizendo:
- Minha colega de apartamento assiste  PBS mais do
que eu.
Ele levantou o faco, pronto para golpear
- Mas tambm Julia  mais intelectual do que eu.
A mo de Baker ficou paralisada em pleno ar.
- Julia?
- Minha colega de apartamento. Ou era. Encontrei um
bilhete quando cheguei em casa, dizendo que ela tinha ido
embora, e no sabia quando... - Ela virou-se, com o copo na
mo, viu o faco levantado. - Mas o que...?
A mulher gritou.
Hal Baker virou-se e fugiu.

Hal Baker telefonou para Tyler Stanford.
- Estou em Kansas City, mas a mulher desapareceu.
- Como assim?
- A colega de apartamento diz que ela foi embora.
Houve um momento de silncio.
- Tenho o pressentimento de que ela veio para Boston.
Quero que volte para c imediatamente.
- Pois no, senhor.
Tyler Stanford bateu o telefone, ps-se a andar de um lado 
para o outro. Tudo comeara de uma maneira to perfeita! A

mulher tinha de ser descoberta e liquidada. Era uma constante
ameaa. Mesmo depois de assumir o controle do esplio, Tyler
sabia que nunca descansaria enquanto ela estivesse viva. Tenho
de encontr-la, pensou ele. De qualquer maneira! Mas onde?
Clark entrou na sala. Parecia perplexo.
- Com licena, juiz Stanford, mas h uma certa Senhorita Julia
Stanford aqui, desejando Lhe falar.

Captulo Vinte e Trs

Foi por causa de Kendall que Julia decidiu ir a Boston.
Um dia, ao voltar do almoo, Julia passou por uma loj a de
roupas exclusiva e viu na vitrine um modelo original de 
Kendall.
Julia ficou olhando para o veStido por um longo tempo.  de 
minha irm, pensou ela. No posso culp-la pelo que aconteceu 
com minha me. E tambm no posso culpar meus irmos. E 
subitamente ela foi dominada por um desejo intenso de 
procur-los, conhec-los, conversar com eles, ter uma famlia.
Ao chegar ao escritrio, Julia disse a Max Tolkin que 
precisaria se ausentar por alguns dias. Embaraada, ela
acrescentou:
- Poderia me dar um adiantamento sobre meu salrio?
Tolkin sorriu.
- Claro. Suas frias esto prximas. Tome aqui. E divirta-se.
Ser que vou me divertir?, especulou Julia. Ou estou cometendo 
um terrvel erro?

Sally ainda no voltara quando Julia chegou em casa. No posso
esperar por ela, decidiu Julia. Se eu no partir agora, nunca
mais irei. Ela arrumou a mala e deixou um bilhete.
A caminho da estao rodoviria, Julia quase mudou de
idia. O que estou fazendo? Por que tomei essa deciso sbita?
E depois ela pensou, irnica: Sbita? Foi tomada h catorze
anos! Seu excitamento era enorme. Como seria a sua famlia?
Sabia que um dos irmos era umjuiz, outro um famoso jogador
de plo e a irm uma conhecida estilista de moda.  uma
famlia de pessoas que fazem, pensou Julia. E quem sou eu? 
Espero que no me desprezem. O corao de Julia disparou s de 
pensar no que tinha pela frente. Ela embarcou num nibus da 
Greyhound e partiu.

Ao saltar do nibus na South Station, em Boston, Julia pegou
um txi.
- Para onde, dona? - perguntou o motorista.
E Julia perdeu a coragem por completo. Tencionara dizer
"Rose Hill", mas limitou-se a murmurar:
- No sei.
O motorista virou-se para fit-la.
- Tambm no sei.
- Pode dar uma volta pela cidade? Nunca estive em Boston 
antes.
O homem acenou com a cabea.
- Claro.
Seguiram para oeste, pela Summer Street, at alcanarem o
Boston Common. O motorista disse:
- Este  o parque pblico mais antigo do mundo. Era usado
para enforcamentos.
E Julia pde ouvir a voz de sua me dizendo: Eu costumava
levar as crianas ao Common no inverno para patinar no gelo.
Woody era um atleta natural. Eu gostaria que voc pudesse
conhec-lo, Julia. Era um menino muito bonito. Sempre achei
que ele seria o bem-sucedido da famlia. Era como se a me
estivesse ali, partilhando aquele momento.
Chegaram  Charles Street, a entrada para o Jardim Pblico.
O motorista disse:

- Est vendo aqueles patos de bronze? Acredite ou no,
todos tm nomes.
Costumvamos fazer piqueniques no Jardim Pblico. H
lindos patos de bronze na entrada. So chamados de Jack,
Kack, Lack, Mack, Nack, Ouack, Pack e Quack. Julia achara
isso to engraado que fizera a me repetir os nomes vrias
vezes.
Julia olhou para o taxmetro. A corrida estava se tornando
cara.
; - Pode me recomendar um hotel barato?
- Claro. Que tal o Copley Square Hotel?
- Pode me levar at l, por favor?
- Pois no.
Pararam diante do hotel cinco minutos depois.
- Divirta-se em Boston, dona.
- Obrigada.
Vou me divertir ou ser um desastre? Julia pagou a corrida e 
entrou no hotel. Aproximou-se do recepcionista.
- Ol - disse ele. - O que deseja?
- Quero um quarto, por favor.
- Individual?
- Isso mesmo.
- Quanto tempo pretende ficar?
Ela hesitou. Uma hora? Dez anos?
- No sei.
- Certo. - Ele verificou. - Tenho um excelente individual no 
quarto andar.
- Obrigada.
Ela assinou o registro com mo firme. JULIA STANFORD.
O recepcionista estendeu a chave.
- Aqui est. Aproveite sua estada.

O quarto era pequeno, mas limpo e arrumado. Assim que desfez a 
mala, Julia telefonou para Sally.
- Julia? Oh, Deus, onde voc est?
- Em Boston.
- Voc est bem? - Sally parecia histrica.
- Estou, sim. Porqu?
- Um homem esteve no apartamento  sua procura e acho que ele 
queria mat-la!
- Mas do que est falando?
- O homem tinha uma faca e... deveria ter visto a cara
dele... - Sally ofegava para respirar. - Saiu correndo quando
descobriu que eu no era voc!
- No acredito!
- Ele disse que trabalhava na A.C. Nielsen, mas telefonei
para o escritrio e nunca ouviram falar dele! Conhece algum
que queira lhe fazer mal?
- Claro que no, Sally. No diga bobagem. Chamou a
polcia?
- Chamei. Mas no havia muito que eles pudessem fazer,
excepto me dizer para ser mais cautelosa.
- Pois estou bem. No se preocupe.
Ela ouviu Sally respirar fundo.
- No vou me preocupar enquanto voc estiver bem. Julia...
- O que ?
- Vai tomar cuidado?
- Claro.

Sally e sua imaginao! Quem no mundo poderia querer me
matar?
- Sabe quando vai voltar?
A mesma pergunta que o recepcionista fizera.
- No.
- Foi procurar sua famlia, no ?
- Isso mesmo.
- Boa sorte.
- Obrigada, Sally.
- Mantenha contacto.
- Est certo.
Julia desligou. Pensou no que faria em seguida. Se eu tivesse
um minimo de bom senso, iria pegar um nibus e voltaria para
casa. Estou protelando? Vim a Boston para conhecer a cidade?
No. Vim para conhecer minha famlia. E vou procur-la? No...
sim...
Ela sentou-se na beira da cama, a mente em turbilho. E se 
eles me odiarem? No devo pensar nisso. vo me amar, e eu 
tambm os amarei. Ela olhou para o telefone e pensou: Talvez 
seja melhor ligar antes. No. Se ligar, talvez eles no 
queiram me ver.
Ela foi at o armrio, escolheu seu melhor vestido. Se eu no 
for agora, nunca mais irei, decidiu Julia.
Meia hora depois ela estava num txi, a caminho de Rose
Hill, para conhecer sua famlia.

Captulo Vinte e Quatro

Tyler olhou incrdulo para Clark.
- Julia Stanford... est aqui?
- Sim, senhor. - Havia um tom de perplexidade na voz
do mordomo. - Mas no  a mesma Senhorita Stanford que esteve
aqui antes.
Tyler forou um sorriso.
- Claro que no. Receio que seja uma impostora.
- Uma impostora, senhor?
- Isso mesmo. Vo comear a surgir do nada, Clark, todas
alegando um direito  fortuna da famlia.
- Isso  terrvel, senhor. Devo chamar a polcia?
- No. - Era a ltima coisa que Tyler queria. - Eu
cuidarei de tudo. Leve-a  biblioteca.
- Pois no, senhor.
A mente de Tyler estava em disparada. Ento a verdadeira
Julia Stanford finalmente aparecera. Ainda bem que nenhum dos
outros membros da famlia se encontrava na casa naquele 
momento. Ele teria de se livrar dela sem demora.
Tyler foi para a biblioteca. Julia estava parada no meio da
sala, olhando para o retrato de Harry Stanford. Tyler estudou
a mulher por um momento. Ela era muito bonita. Era uma pena
que... Julia virou-se e viu-o.
- Ol.
- Ol.
- Voc  Tyler.
- Isso mesmo. Quem  voc?
O sorriso dela desapareceu.
- Mas no...? Sou Julia Stanford.
-  mesmo? Espero que me perdoe por perguntar, mas tem
alguma prova?
- Prova? Ora, tenho... eu... isto ... no tenho prova. Apenas 
presumi...
Ele se adiantou.
- Por que veio aqui?
- Decidi que era tempo de conhecer minha famlia.
- Depois de vinte e seis anos?
- Exactamente.
Vendo-a, escutando-a falar, 'Tyler no teve mais qualquer
dvida. Ela era genuna e perigosa, tinha de ser liquidada o
mais depressa possvel. Ele forou um sorriso.
- Pode imaginar o choque que isso representa para mim...
voc aparecer de repente e...
- Posso compreender. Sinto muito. Provavelmente eu deveria ter 
telefonado primeiro.
- Veio a Boston sozinha? - perguntou Tyler, casual.
- Vim.
A mente dele funcionava a toda a velocidade.
- Algum mais sabe que est aqui?
- No. Isto , minha colega de apartamento em Kansas
City, Sally...
- Onde est hospedada?
- No Copley Square Hotel.
-  um bom hotel. Qual  o seu quarto?
- Quatrocentos e dezanove.
- Por que no volta para o hotel e espera por ns? Quero
preparar Woody e Kendall para isso. Eles ficaro to surpresos

quanto eu.
- Lamento muito. Eu deveria...
- No h problema algum. Agora que nos conhecemos,
tenho certeza de que tudo vai acabar bem.
- Obrigada, Tyler.
- O prazer foi meu... - Ele quase engasgou com a palavra.
- Julia. Vou chamar um txi para voc.
Ela foi embora cinco minutos depois.

Hal Baker acabara de voltar a seu quarto no hotel no centro de
Boston quando o telefone tocou. Ele atendeu.
- Hal?
- Sinto muito, juiz, mas ainda no tenho notcias. Vasculhei a 
cidade inteira. Fui ao aeroporto e...
- Ela est aqui, seu idiota!
- Como?
- Ela est em Boston, no Copley Square Hotel, quarto 419.
Quero que cuide dela esta noite. E no quero mais nenhuma
falha. Entendido?
- O que aconteceu no foi minha...
- Entendido?
- Sim, senhor.
- Pois ento faa tudo direito agora!
Tyler bateu o telefone. Foi procurar Clark.
- Clark, aquela moa que esteve aqui, fingindo ser minha
irm...
- Pois no, senhor?
- Eu no diria nada ao resto da famlia. S serviria para
transtorn-los.
- Eu compreendo, senhor.  melhor assim.

Julia foi jantar no Ritz-Carlton. O hotel era lindo, como a
me o descrevera. Aos domingos eu costumava levar as crianas 
para almoar ali. Julia sentou-se  mesa, imaginando a me 
ali, com Tyler, Woody e Kendall pequenos. Gostaria de ter 
podido crescer com eles, pensou ela. Mas pelo menos vou 
conhec-los agora. Ela especulou se a me aprovaria o que 
estava fazendo.
Ficara um pouco consternada com a recepo de Tyler. Ele
parecera... frio. Mas isso  natural, concluiu Julia. Uma
estranha aparece de repente e diz "Sou sua irm ". Claro que 
ele ficaria desconfiado. Mas tenho certeza que posso 
convenc-los.
Quando a conta chegou, Julia levou um choque. Preciso
tomar cuidado, pensou ela. Preciso guardar o dinheiro 
necessrio para a passagem de nibus at Kansas City!
Quando saiu do Ritz-Carlton, um nibus de turismo se preparava 
para partir. Num sbito impulso, ela embarcou no nibus. 
Queria conhecer ao mximo possvel a cidade de sua me.

Hal Baker entrou no saguo do Copley Square Hotel como se
morasse ali, subiu pela escada para o quarto andar. Desta vez 
no haveria nenhum erro. O quarto 419 ficava no meio do
corredor. Hal Baker olhou para um lado e outro, a fim de se
certi ficar de que ningum o observava, e bateu na porta. No
houve resposta. Tornou a bater.
- Senhorita Stanford?
Nenhuma resposta. Ele tirou um pequeno estojo do bolso,

selecionou uma gazua. Levou apenas uns poucos segundos para
abrir a porta. Entrou, fechou a porta. O quarto estava vazio.
- Senhorita Stanford?
Hal Baker foi at o banheiro. Vazio. Voltou ao quarto. Tirou
o faco do bolso, levou uma cadeira para trs da porta, 
sentou-se ali, no escuro, esperando. Uma hora havia passado 
quando ouviu algum se aproximando.
Ele se levantou no mesmo instante, empunhando o faco.
Ouviu a chave girar na fechadura, a porta comeou a ser
aberta.
Ergueu o faco acima da cabea, pronto para o golpe. Julia
Stanford entrou, acendeu a luz. Ele ouviu-a dizer:
- Muito bem, podem entrar.
E inmeros reprteres invadiram o quarto.

Captulo Vinte e Cinco

Foi Gordon Wellman, o gerente do turno da noite no Copley 
Square Hotel, quem inadvertidamente salvou a vida de
Julia. Ele entrou de servio s seis horas da tarde e
automaticamente verificou o registro. Ficou surpreso ao 
deparar com o nome de Julia Stanford. Desde a morte de Harry 
Stanford que os jornais no paravam de publicar notcias sobre 
sua famlia.
Haviam desencavado o antigo escndalo do romance de Stanford 
com a governanta dos filhos e o suicdio de sua esposa.
Harry Stanford tinha uma filha ilegtima chamada Julia. Havia
rumores de que ela viera a Boston em segredo. Pouco depois de 
uma excurso de compras, ela teria partido para a Amrica do
Sul. Agora, ao que parecia, ela voltara. E veio se hospedar em
meu hotel!, pensou Gordon Wellman, excitado. Ele virou-se para
o recepcionista.
- Sabe quanta publicidade isso poderia proporcionar ao
hotel?
E um minuto depois ele estava ao telefone, ligando para os
jornais.

Quando Julia voltou ao hotel, depois do passeio turstico,
encontrou o saguo cheio de reprteres, esperando-a na maior 
ansiedade. Assim que ela entrou, todos a cercaram.
- Senhorita Stanford, sou do Boston Globe. Estivemos  sua
procura, mas soubemos que havia deixado a cidade. Poderia nos
dizer..?
Uma cmera de televiso apontava para ela.
- Senhorita Stanford, sou da WCVB-TV Gostaramos de uma
declarao sua...
- Senhorita Stanford, sou do Boston Phoenix. Queremos saber
sua reao a...
- Olhe para c, Senhorita Stanford! Sorria! Obrigado.
Flashes espocaram,
Julia ficou imvel, atordoada. Oh, no!, pensou ela. A famlia 
vai pensar que sou obcecada por publicidade! Ela virou-se
para os reprteres.
- Sinto muito, mas no tenho nada a decl arar
Julia saiu correndo para o elevador. Todos foram em seu
encalo.
- A revista People quer publicar a histria de sua vida e
saber qual  a sensao de permanecer afastada de sua famlia
por mais de vinte e cinco anos...
- Soubemos que tinha viajado para a Amrica do Sul...
- Planea se fixar em Boston...?
- Por que no est hospedada em Rose Hill...?
Ela saltou do elevador no quarto andar e seguiu apressada
pelo corredor. Os reprteres continuavam a persegui-la. No
havia como escapar
Julia pegou a chave, abriu a porta do quarto, entrou e acendeu
, a luz.
` - Muito bem, podem entrar.
Escondido atrs da porta, Hal Baker foi tomado de surpresa,
o faco na mo erguida. Enquanto os reprteres se adiantavam,
ele tornou a guardar o faco no bolso e misturou-se com o
grupo.
Julia virou-se para os reprteres.

- Uma pergunta de cada vez, por favor
Frustrado, Baker recuou para a porta e deixou o quarto. O
juiz Stanford no ia ficar nem um pouco satisfeito.
Durante a meia hora seguinte, Julia respondeu s perguntas da
melhor forma que podia. Finalmente os reprteres foram embora.
Julia trancou a porta e foi se deitar

Pela manh, as emissoras de televiso e os jornais 
apresentaram reportagens sobre Julia Stanford.
Tyler leu os jornais e ficou furioso. Woody e Kendall se
juntaram a ele  mesa do desjejum.
- Que histria  essa de outra mulher dizer que  Julia
Stanford? - indagou Woody.
- Ela  uma impostora - respondeu Tyler prontamente.
- Esteve aqui ontem, pediu dinheiro, e mandei-a embora. No
esperava que recorresse a um golpe de publicidade to srdido.
No se preocupem. Cuidarei dela.

Ele telefonou para Simon Fitzgerald.
- J viu os jornais da manh?
- J.
- nossa irm vigarista est apregoando para todo mundo que 
- Quer que eu mande prend-la?
- faa com que a tirem da cidade.
- Est certo. Pode deiXar. Cuidarei de tudo,juiz Stanford.
- Obrigado.

Simon Fitzgerald mandou chamar Steve Sloane.
- Temos um problema.
Steve acenou com a cabea.
- J sei. Ouvi o noticirio da manh e li os jornais. Quem
 ela?
- Obviamente  algum que pode ganhar uma
parte da fortuna da famlia. Ojuiz Stanford sugeriu que a
tiremos da cidade. Pode cuidar disso
- Com todo prazer - respondeu Steve, sombrio.

Uma hora depois Steve bateu naporta do quarto de hotel de
Julia.
Quando ela abriu e viu-o parddo ali, foi logo dizendo:
- Desculpe, mas no quero mais falar com reprteres. Eu...
- No sou reprter. Posso entrar?
- Quem  voc?
- Meu nome  Steve Sloane. Trabalho na firma de advocacia que 
representa o esplio de Harry Stanford.
- Ah, sim. Entre.
Steve entrou no quarto.
- Disse  imprensa que  Julia Stanford?
- Infelizmente, eles me pegaram desprevenida. No os
esperava e... que
- Mas alegou que  filha de Harly Stanford?
- Claro. Sou filha dele.
Steve disse, cptico:
- Deve ter alguma prova.
- No, no tenho.
- Ora, deve ter alguma prova - insistiu Steve.
- No tenho nada.
Ele estudou-a, surpreso. A mulher no era o que ele esperava.

Havia uma franqueza desconcertante nela. Ela parece 
inteligente. Como pode ser to estpida para vir aqui e alegar 
que  filha de Harry Stanford sem qualquer prova?
-  uma pena - disse Steve. - O juiz Stanford quer que
voc saia da cidade.
Julia arregalou os olhos.
- Como?
- Ele quer que voc deixe a cidade.
- Mas... No entendo. Ainda nem conheci meu outro irmo e 
minha irm.
Parece que ela est mesmo determinada a manter o blefe,
pensou Steve.
- No sei quem voc  ou qual  o seu jogo, mas pode ir
para a cadeia por isso. Estamos lhe dando uma chance. O que
est fazendo  contra a lei. Tem uma opo. Pode sair da
cidade e parar de incomodar a famlia, ou pode ser presa.
Julia levou um choque.
- Presa? Eu... no sei o que dizer.
- A deciso  sua.
- Eles nem ao menos querem me ver? - murmurou Julia,
atordoada.
- Para dizer o mnimo.
Julia respirou fundo.
- Muito bem. Se  isso o que eles querem, voltarei ao
Kansas. Prometo que nunca mais ouviro falar de mim.
Kansas. Voc veio de muito longe para dar seu golpe.
-  a atitude mais sensata. - Steve hesitou por um instante, 
observando-a, perplexo. - Muito bem, adeus.
Ela no respondeu.

Steve estava na sala de Simon Fitzgerald.
- Falou com a mulher, Steve?
- Falei. Ela vai voltar para casa. - Steve parecia distrado.
- ptimo. Direi ao juiz Stanford. Ele ficar satisfeito.
- Sabe o que me incomoda, Simon?
- O qu?
- O cachorro no latiu.
- Como assim?
- Ahistria de Sherlock Holmes. Apista estava no que no
aconteceu.
- O que isso tem a ver com...?
- Ela veio para c sem qualquer prova.
Fitzgerald estava aturdido.
- No entendo. Isso deveria t-lo convencido.
- Ao contrrio. Por que ela viria at aqui, l do Kansas,
alegando ser filha de Harry Stanford, sem ter nenhuma prova?
- H muitas pessoas excntricas, Steve.
- Ela no  excntrica. Devia t-la visto. E h outras coisas
que me incomodam, Simon.
- Por exemplo?
- O corpo de Harry Stanford desapareceu... Quando
procurei Dmitri Kaminsky, a nica testemunha do acidente
com Stanford, ele havia desaparecido... E ningum parece
saber onde se meteu a primeira Julia Stanford, desaparecida 
subitamente.
Simon Fitzgerald franziu o rosto.
- Onde est querendo chegar, Steve?

- Vem acontecendo alguma coisa que precisa ser explicada. 
Terei outra conversa com a mulher

Steve Sloane entrou no saguo do Copley Square Hotel e 
encaminhou-se para o recepcionista.
- Pode ligar para a Senhorita Julia Stanford, por favor?
O recepcionista levantou os olhos.
- Sinto muito, mas a Senhorita Stanford foi embora.
- Ela deixou um endereo?
- No, senhor
Steve ficou parado ali, frustrado. No havia mais nada que
pudesse fazer. Talvez eu tenha me enganado, pensou ele, 
resignado. Talvez ela fosse mesmo uma impostora. Agora nunca 
saberemos. Ele saiu para a rua. O porteiro ajudava um casal a
embarcar num txi.
- Com licena - disse Steve.
O porteiro virou-se.
- Txi, senhor 
- No. Quero Lhe fazer uma pergunta. Viu a Senhorita Stanford
sair do txi esta manh?
- Claro. Todo mundo olhava para ela.  uma celebridade.
Chamei um txi para ela.
- Por acaso sabe para onde ela foi?
Steve descobriu que estava prendendo a respirao.
- Sei, sim. Fui eu que disse ao motorista para onde lev-la.
- Que lugar? - perguntou Steve, impaciente.
- O terminal rodovirio da Greyhound na South Station.
Estranhei que uma pessoa to rica...
- Quero um txi.

Steve circulou pelo lotado terminal rodovirio da Greyhound.
No avistou Julia em parte alguma. Ela j partiu, pensou ele, 
desesperado. Uma voz anunciava os nibus de partida pelo
sistema de alto-falantes. Steve ouviu a voz dizer "... e
Kansas City". Correu para a plataforma de embarque.
Julia estava embarcando no nibus.
- Espere! - gritou Steve.
Ela virou-se, surpresa. Steve se adiantou, apressado.
- Quero conversar com voc.
Julia ficou furiosa.
- No tenho mais nada a lhe dizer.
Ela se virou para entrar no nibus. Steve segurou-a pelo
brao.
- Espere um minuto! Precisamos muito conversar!
- Meu nibusj vai partir.
- Pode pegar outro.
- Minha mala j est l dentro.
Steve virou-se para um despachante.
- Esta mulher vai ter um beb agora. Tire a mala dela do
nibus. Depressa!
O despachante olhou para Julia, confuso.
- Certo. - Ele abriu o compartimento para a bagagem. -
Qual  a sua, dona?
Julia virou-se para Steve, perplexa. 
- Sabe o que est fazendo?
- No - respondeu Steve.
Ela estudou-o por mais um instante, e tomou sua deciso.
Apontou sua mala.
- Aquela.

O despachante tirou-a.
- Quer que eu chame uma ambulncia?
- No precisa, obrigada. Estou bem.
Steve pegou a mala e seguiram para a sada.
- J comeu o desjejum?
- No estou com fome - murmurou Julia, friamente.
' -  melhor fazer um bom desjejum. Afinal, est
comendo por dois agora.

Foram comer o desjejum no Julien. Julia sentou-se na frente de
Steve, o corpo rgido de raiva. Depois que pediram, Steve
disse:
- Estou curioso por uma coisa. O que a fez pensar que
poderia reivindicar uma parte da herana Stanford sem qualquer
prova de sua identidade?
Ela se mostrou indignada.
- No vim aqui reivindicar nenhuma herana. Meu pai no
me deixaria qualquer coisa. S queria conhecer minha famlia.
Mas  evidente que eles no querem me conhecer.
- Tem algum documento... qualquer tipo de prova de quem
voc ?
Julia pensou em todos os recortes guardados em seu apartamento 
e sacudiu a cabea.
- No. No tenho nada.
- Quero que voc converse com algum.

- Este  Simon Fitzgerald. - Steve hesitou. - hen...
- Julia Stanford.
Cptico, Fitzgerald disse:
- Sente-se, senhorita.
Julia sentou-se na beira da cadeira, pronta para se levantar e
sair. Fitzgerald estudava-a. Ela tinha os olhos de um cinza
profundo como os dos Stanfords, mas havia muitas pessoas
assim.
- Voc alega que  filha de Rosemary Nelson.
- No alego coisa nenhuma. Sou mesmo a filha de Rosemary 
Nelson.
- E onde est sua me?
- Ela morreu h alguns anos.
- Lamento. Pode nos falar sobre ela?
- No. Prefiro no falar nada. - Julia levantou-se. -
Quero ir embora.
- Estamos tentando ajud-la - disse Steve.
Ela fitou-o.
-  mesmo? Minha famlia no quer me ver. E voc quer
me entregar  polcia. No preciso desse tipo de ajuda.
Julia encaminhou-se para a porta.
- Espere! - insistiu Steve. - Se  quem diz ser, deve ter
alguma coisa para provar que  filha de Harry Stanford.
- J disse que no tenho nada. Minha me e eu exclumos
Harry Stanford de nossas vidas.
- Como era sua me? - perguntou Simon Fitzgerald.
- Ela era linda... - A voz de Julia abrandou. - Era a mais
adorvel... - Ela fez uma pausa, lembrando-se de uma coisa.
- Tenho um retrato dela.
Julia tirou um pequeno medalho de ouro do pescoo e
estendeu-o para Fitzgerald.
Ele fitou-a por um momento, depois abriu o medalho. Num

lado havia o retrato de Harry Stanford e no outro o de
Rosemary Nelson. A inscrio era PARA R.N. COM AMOR, H.S. A 
data era 1969.
Simon Fitzgerald ficou olhando para o medalho em silncio
por um longo tempo. Ao levantar os olhos e falar, sua voz era
rouca:
- Devemos lhe pedir desculpas, minha cara. - Ele virou-se para 
Steve. - Esta  Julia Stanfurd.

Captulo Vinte e Seis

Kendall no conseguira tirar da cabea a conversa com Peggy. 
tudo indicava que Peggy era incapaz de lidar com a
situao sozinha. Woody est tentando. Juro que est... Ah, eu
o amo tanto!
Ele precisa de muita ajuda, pensou Kendall. Tenho de fazer
alguma coisa. Woody  meu irmo. Devo falar com ele.
Kendall foi procurar Clark.
- O Sr. Woodrow est em casa?
- Est, sim, madame. Creio que no quarto dele.
- Obrigada.
Kendall pensou na cena  mesa, no rosto machucado de
Peggy. O que aconteceu? Esbarrei numa porta... Como ela
aguentara durante tanto tempo? Kendall subiu e bateu na porta
do quarto de Woody. No houve resposta.
- Woody?
Ela abriu a porta e entrou. Um cheiro de amndoas ainda
impregnava o quarto. Kendall hesitou por um momento, depois
avanou para o banheiro. Podia ver Woody atravs da porta 
aberta.
Ele esquentava herona num pedao de papel laminado. Quando a
herona comeou a liquefazer se e evaporar, ela observou o
irmo inalar a fumaa atravs de um canudo que tinha na boca.
Kendall entrou no banheiro.
- Woody...
Ele virou o rosto e sorriu.
- Oi, mana!
E tornou a inalar fundo.
- Pare com isso, pelo amor de Deus!
- Ei, relaxe. Sabe como se chama isto? Caar o drago.
No percebe o pequeno drago enroscado na fumaa? - Ele
sorria, feliz.
- Woody, por favor, deixe-me conversar com voc.
- Claro, mana. Em que posso ajud-la? Sei que no  um
problema de dinheiro. Afinal, somos bilionrios. Por que
parece to deprimida? O sol brilha, o dia  lindo!
Os olhos dele faiscavam. Kendall sentiu uma profunda
compaixo.
- Woody, tive uma conversa com Peggy. Ela me contou
como voc comeou a tomar drogas no hospital.
Ele acenou com a cabea.
-  verdade. A melhor coisa que j me aconteceu.
- No, Woody,  a pior coisa que j lhe aconteceu. Tem
alguma idia do que est fazendo com sua vida?
- Claro que tenho.  o que se chama de viver intensamente, 
mana.
Kendall pegou a mo dele, ansiosa.
- Voc precisa de ajuda.
- Eu? No preciso de nenhuma ajuda. Estou ptimo.
- No est, no. Escute, Woody.  de sua vida que estamos
falando, mas no  apenas a sua vida. Pense em Peggy. H anos
que a vem submetendo a um inferno em vida, e ela suportou
; porque o ama demais. No est destruindo s a sua
vida, mas tambm a vida dela. Tem de fazer alguma coisa agora, 
antes que sej a tarde demais. No  importante como voc 
comeou a tomar drogas. O que importa neste momento  que voc 
se livre do vcio.

O sorriso de Woody desapareceu. Ele fitou Kendall nos
olhos, fez meno de dizer alguma coisa, mudou de idia.
- Kendall...
- O que ?
Ele passou a lngua pelos lbios.
- Eu... sei que voc tem razo. Quero parar. J tentei. Oh,
Deus, como tentei! Mas no posso.
- Claro que pode! -exclamou Kendall, veemente. - Vai
conseguir. Venceremos o vciojuntos. Peggy e eu o apoiaremos
at o fim. Quem lhe fornece a herona, Woody?
Ele fitou-a espantado.
- Quer dizer que no sabe?
Kendall balanou a cabea.
- No, no sei.
-  Peggy!

Captulo Vinte e Sete

Simon Fitzgerald ficou olhando para o medalho de ouro.
- Conheci sua me, Julia, e gostava dela. Sua me era
maravilhosa para as crianas Stanfords, que a adoravam.
- Ela tambm os adorava - disse Julia. - Sempre me falava 
sobre eles.
- O que aconteceu com sua me foi terrvel. No pode
imaginar o escndalo que criou. Boston pode ser uma cidade bem 
pequena. Harry Stanford comportou-se muito mal. Sua me
no teve opo a no ser ir embora. - Ele sacudiu a cabea. -
A vida deve ter sido muito difcil para vocs duas.
- Mame sofreu muito. O pior  que acho que ela ainda
amava Harry Stanford, apesar de tudo. -Ela olhou para Steve.
- No compreendo o que est acontecendo. Por que minha
famlia no quer me ver?
Os dois homens trocaram um olhar.
- Deixe-me explicar - Steve hesitou, escolhendo as palavras 
com cuidado. - Uma mulher apareceu aqui h pouco
tempo alegando ser Julia Stanford.
- Mas isso  impossvel! Eu sou...
Steve levantou a mo.
- Eu sei. A famlia contratou um detective particular para
ter certeza de que ela era autntica.
- E descobriram que no era.
- No. Descobriram que ela era.
Julia ficou aturdida.
- Como assim?
- O detective disse que encontrou impresses digitais que
a mulher tirara ao obter a carteira de motorista em So
Francisco quando tinha dezassete anos. Combinavam com as 
impresses digitais da mulher que dizia ser Julia Stanford.
Julia estava mais perplexa do que nunca.
- Mas... nunca estive na Califrnia!
Fitzgerald interveio:
- Julia, pode estar havendo uma conspirao elaborada
para se obter uma parte da herana Stanford. Receio que voc
tenha sido envolvida nisso.
- No posso acreditar!
- Quem quer que esteja por trs no pode permitir a
presena de duas Julias Stanford.
Steve acrescentou:
- A nica maneira do plano dar certo  tirar voc do
caminho.
- Quando diz "tirar do caminho"... -Ela parou, lembrando uma 
coisa. - Oh, no!
- O que ? - perguntou Fitzgerald.
- H duas noites falei pelo telefone com minha colega de
apartamento e ela estava histrica. Disse que um homem 
apareceu l com uma faca e tentou atac-la. Ele pensou que 
Sally fosse eu! - Julia teve dificuldade para encontrar a voz. 
- Quem... quem est fazendo isso?
- Se eu tivesse de dar um palpite, diria que  provavelmente 
algum da famlia - declarou Steve.
- Mas... por qu?
- H uma grande fortuna em jogo e o testamento ser
homologado dentro de poucos dias.

- O que isso tem a ver comigo? Meu pai nunca me reconheceu. 
No teria me deixado coisa alguma.
- Para dizer a verdade, se pudermos provar sua identidade,
sua parte na herana  de mais de um bilho de dlares -
explicou Fitzgerald.
Julia ficou atordoada e murmurou, ao recuperar a voz:
- Um bilho de dlares?
- Isso mesmo. Mas h outra pessoa atrs desse dinheiro.
E por isso voc corre perigo. ;
- Entendo... - Ela fitou-os, dominada por um pnico
crescente. - O que vou fazer?
- Eu lhe direi o que no vai fazer - respondeu Steve. -
No vai voltar para um hotel. Quero que fique escondida at
descobrirmos o que est acontecendo.
- Eu poderia voltar para o Kansas at... 
- Seria melhor se ficasse aqui, Julia - interrompeu-a
Fitzgerald. - Encontraremos um lugar para escond-la.
- Ela pode ficar em minha casa - sugeriu Steve -, onde 
ningum pensaria em procur-la.
Os dois se viraram para Julia. Ela hesitou.
- hen... est bem.
- ptimo.
Julia acrescentou, falando devagar:
- Nada disso aconteceria se meu pai no tivesse cado
daquele iate.
- No creio que ele tenha cado - disse Steve. - Acho
que foi empurrado.

Eles desceram pelo elevador de servio para a garagem do
prdio, entraram no carro de Steve.
- No quero que ningum a veja-disse Steve. -Temos
de mant-la fora de vista pelos prximos dias.
Ele foi guiando pela State Street.
- Que tal almoar?
Julia fitou-o e sorriu.
- Parece que voc est sempre me alimentando.
- Conheo um restaurante fora do circuito mais conhecido.  
uma casa antiga na Gloucester Street. Acho que ningum
nos ver ali.

L' Espalier era uma elegante construo do sculo XIX, com uma
das melhores vistas de Boston. Ao entrarem, Steve e Julia
foram cumprimentados pelo maitre.
- Boa tarde - disse ele. - Podem me acompanhar, por
favor? Tenho uma ptima mesa junto janela.
- Se no se importa - disse Steve -, preferimos uma
mesajunto  parede.
O maFtre se mostrou surpreso.
- Junto  parede?
- Isso mesmo. Gostamos de privacidade.
- Pois no.
Ele levou-os a uma mesa num canto.
- Mandarei um garom atend-los imediatamente. - O
maitre fitou Julia e seu rosto se iluminou de repente. -Ah,
Senhorita Stanford!  um prazer t-la aqui. Vi sua foto no 
jornal.
Julia olhou para Steve, sem saber o que dizer
- Essa no! - exclamou Steve. - Deixamos as crianas
no carro! Vamos busc-las!

Para o maitre, ele acrescentou:
- Queremos dois martinis, bem secos. No precisa pr as
azeitonas. Voltaremos num instante.
- Pois no, senhor
O maitre observou os dois sarem apressados do restaurante.
- O que est fazendo? - perguntou Julia.
- Saindo daqui. Se ele chamasse a imprensa, estaramos
numa encrenca. Vamos para outro lugar

Foram para um pequeno restaurante na Dalton Street e pediram
o almoo. Steve estudou-a.
- Qual  a sensao de ser uma celebridade?
- No brinque com isso, por favor. Eu me sinto horrvel.
- Posso compreender - murmurou ele, contrito. - Desculpe.
Steve estava descobrindo que ela era uma companhia agradvel. 
Pensou no quanto fora grosseiro no primeiro encontro.
- Acha... acha mesmo que corro perigo, Sr. Sloane?
- Chame-me de Steve. Acho, sim. Mas ser por pouco
tempo. Assim que o testamento for homologado, saberemos
quem est por trs de tudo. At l, cuidarei para que se
mantenha s e salva.
- Obrigada.
Olhavam um para o outro. Um garom se aproximou, viu as
expresses em seus rostos, e decidiu no interromp-los.
No carro, Steve perguntou:
-  a primeira vez que vem a Boston?
- , sim.
-  uma cidade interessante.
Estavam passando pelo velho John Hancock Building. Steve
apontou para o alto da torre.
- Est vendo aquele farol?
- Estou, sim.
- Informa o tempo.
- Como pode um farol...?
- Fico contente que tenha perguntado. Quando a luz  um
azul firme, significa tempo bom. Se  um azul piscando, 
podemos esperar nuvens iminentes. Um vermelho firme significa
chuva pela frente e o vermelho piscando  neve.
Julia riu. Chegaram  Harvard Bridge. Steve diminuiu a
velocidade.
- Esta  a ponte que liga Boston e Cambridge. Tem exactamente 
trezentos e sessenta e quatro vrgula quatro Smoots e uma
orelha de comprimento.
Julia virou-se para ele, aturdida.
- O que disse?
Steve sorriu.
-  verdade.
- O que  um Smoot?
- Um Smoot  uma medida de comprimento usando o
corpo de Oliver Reed Smoot, que tinha um metro e setenta de
altura. Comeou como uma piada, mas a cidade manteve as
marcas quando reconstruiu a ponte. O Smoot tornou-se uma
medida de comprimento em 1958.
Ela riu.
- Isso  incrvel!
Ao passarem pelo Monumento de Bunker Hill, Julia disse:
- Foi aqui que ocorreu a batalha de Bunker Hill, no ?
- No - respondeu Steve.

- Como assim?
- A batalha de Bunker Hill foi travada em Breed's Hill.

A casa de Steve era na Newbury Street, de dois andares, muito
atraente, com mveis aconchegantes e gravuras coloridas nas
paredes.
- Mora sozinho aqui? - perguntou Julia.
- Isso mesmo. Tenho uma empregada que vem duas vezes
por semana. Avisarei a ela que no precisa vir nos prximos 
dias. No quero que ningum saiba que voc est aqui.
Julia fitou-o com uma expresso afectuosa.
- Quero que saiba que me sinto reconhecida por tudo o que
est fazendo por mim.
- O prazer  meu. Vou lev-la a seu quarto.
Ele conduziu-a para o quarto de hspedes no segundo andar.
- Espero que o ache confortvel.
-  lindo!
- Vou fazer algumas compras. Costumo comer fora.
- Eu poderia... - Julia hesitou. - Pensando bem,  melhor no. 
Minha colega de apartamento costuma dizer que minha
comida  letal.
- Acho que tenho a mo boa no fogo. Cozinharei para
ns. - Ele fez uma pausa. - H algum tempo que no tenho
ningum para quem cozinhar.
Recue, advertiu Steve a si mesmo. Est saindo da base. No
pode continuar assim.
- Quero que fique  vontade. Est completamente segura aqui.
Julia fitou-o em silncio por um longo momento e depois 
sorriu.
- Obrigada.
Eles tornaram a descer. Steve apontou tudo.
- Televiso, videocassete, rdio, CD... Fique  vontade.
-  maravilhoso.
Julia teve vontade de acrescentar: Assim como eu me sinto
com voc.
- Se no h mais nada... - murmurou Steve, contrafeito.
Ela ofereceu-lhe um sorriso efusivo.
- No posso pensar em qualquer coisa.
- Neste caso, voltarei ao escritrio. Tenho muitas perguntas 
sem respostas.
Julia observou-o se encaminhar para a porta.
- Steve...
Ele virou-se.
- O que ?
- Tem problema se eu ligar para minha colega de apartamento? 
Ela deve estar preocupada comigo.
Steve sacudiu a cabea.
- Dejeito nenhum. No quero que d qualquer telefonema
ou saia de casa. Sua vida pode depender disso.

Captulo Vinte e Oito

- Dr. Westin. Sabe que a nossa conversa est sendo gravada?
- Sei, doutor.
- Sente-se mais calma agora?
- Estou calma, mas com raiva.
- Com raiva do qu?
- Eu no deveria estar aqui. No sou louca. Fui incriminada 
falsamente.
-  mesmo? E quem a incriminou?
- Tyler Stanford.
- Juiz Tyler Stanford?
- Isso mesmo.
- Por que ele faria isso?
- Por dinheiro.
- Voc tem dinheiro?
- No. Ou melhor, sim... isto ... eu poderia ter. Ele me
prometeu um milho de dlares, um casaco de pele e jias.
- Por que o juiz Stanford lhe prometeria tudo isso?
- Deixe-me voltar ao incio. No sou realmente Julia
Stanford. Meu nome  Margo Posner
- Quando chegou aqui, insistiu que era Julia Stanford.
- Esquea. No sou. Vou explicar o que aconteceu. Ojuiz
Stanford me contratou para passar por sua irm.
- Por que ele fez isso?
- Para que eu pudesse ficar com uma parte da herana Stanford 
e entregar a ele.
- Por isso ele prometeu um milho de dlares, um casaco
de pele e algumas jias?
- No acredita em mim, no ? Mas posso provar. Ele me
levou para Rose Hill.  l que a famlia Stanford mora, em
Boston. Posso descrever a casa, contar tudo sobre a famlia.
- Sabia que so muito srias as acusaes que est fazendo?
- Pode apostar que sei. Mas imagino que no vai fazer
nada, porque ele  juiz.
- Est completamente enganada. Posso Lhe assegurar que
as acusaes sero investigadas.
- Grande! Quero que o filho da puta seja trancafiado como
fez comigo. E quero sair daqui.
- Compreende que alm do meu exame, dois colegas
tambm tero de avaliar seu estado mental?
- Podem avaliar. Tenho tanta sanidade quanto voc.
- O Dr. Gifford vir v-la esta tarde e depois decid. Veremos
como vamos continuar
- Quanto mais cedo, melhor. No suporto a porra deste lugar!

A atendente que levou o almoo para Margo informou:
- Acabei de falar com o Dr. Gifford. Ele estar aqui dentro
de uma hora.
- Obrigada.
Margo estava pronta para ele. E para todos os outros. Contaria 
tudo o que sabia, desde o incio. E quando eu acabar,
pensou Margo, eles vo encanar o juiz e me deixar sair. O
pensamento encheu-a de satisfao. Ficarei livre! E, depois,
Margo pensou: Livre para fazer o qu? Terei de ganhar a vida
nas ruas outra vez. Talvez at revoguem minha liberdade 
condicional e me mandem de volta para a priso!
Ela jogou a bandeja do almoo na parede. Desgraados! No

podem fazer isso comigo! Ontem eu valia um bilho de dlares 
mas hoje... Espere! Espere! Uma idia aflorou na mente de
Margo, uma idia to sensacional que um calafrio percorreu seu 
corpo. Santo Deus! O que estou fazendo ? J provei que sou 
Julia Stanford. Tenho testemunhas. Toda a famlia ouviu Frank 
Timmons dizer que minhas impresses digitais provavam que sou 
Julia Stanford. Por que eu haveria de querer ser Margo Posner 
quando posso ser Julia Stanford? No  de admirar que tenham 
me trancafiado aqui. Devo ter perdido o juzo! Ela tocou a 
campainha, chamando a atendente.
Assim que a atendente chegou, Margo lhe disse, muito
excitada:
- Quero ver o mdico imediatamente!
- Tem um encontro com ele daqui...
- Agora! Tem de ser agora!
A atendente avaliou a expresso de Margo e disse:
- Acalme-se. Vou cham-lo.

O Dr. Franz Gifford entrou no quarto de Margo dez minutos
depois.
- Pediu para falar comigo?
- Pedi. - Margo sorriu. - Eu estava fazendo um jogo,
doutor.
-  mesmo?
- , sim. A situao  muito embaraosa. A verdade  que
fiquei muito zangada com meu irmo tyler, e queria puni-lo.
Mas compreendo agora que estava errada. No estou mais
zangada e quero voltar para minha casa, Rose Hill.
- Li a transcrio de sua entrevista esta manh. Disse que
seu nome era Margo Posner e que foi incriminada...
Margo soltou uma risada.
- Foi uma coisa horrvel da minha parte. S falei isso para
irritar Tyler. Mas a verdade  que sou Julia Stanford.
- Pode provar?
Era o momento que Margo esperava.
- Claro que posso! - exclamou ela, triunfante. - O
prprio Tyler provou. Ele contratou um detective particular
chamado Frank Timmons, que comparou minhas impresses digitais 
com as que tirei para obter a carteira de motorista aos
dezassete anos. So iguais. No resta a menor dvida a
esse respeito.
- Detective Frank Timmons?
- Isso mesmo. Ele trabalha para o promotor distrital de
Chicago.
O mdico estudou-a por um instante.
- Tem certeza? Voc no  Margo Posner...  Julia Stanford?
- Certeza absoluta.
- E o tal detective particular, Frank Timmons, pode confirmar 
isso?
Margo sorriu.
- Ele j confirmou. Tudo o que tem a fazer  ligar para o
gabinete do promotor distrital e falar com ele.
O Dr. Gifford balanou a cabea.
- Muito bem, farei isso.

s dez horas da manh seguinte, o Dr. Gifford, acompanhado
pela atendente, voltou ao quarto de Margo.
- Bom dia.

- Bom dia, doutor - Ela fitou-o na maior ansiedade. -
Falou com Frank Timmons?
- Falei. Quero ter certeza de que compreendi tudo direito.
Sua histria sobre o juiz Stanford envolvendo-a em alguma
conspirao era falsa?
- Completamente falsa. S falei isso porque queria punir
meu irmo. Mas est tudo bem agora. Quero voltar para casa.
- Frank Timmons pode provar que  Julia Stanford?
- Pode.
O Dr. Gifford virou-se para a atendente e acenou com a
cabea. A mulher fez sinal para algum. Um homem alto, magro
e negro entrou no quarto. Olhou para Margo e disse:
- Sou Frank Timmons. Em que posso ajud-la?
Era um total estranho.

Captulo Vinte e Nove

O desfile corria muito bem. As modelos se deslocavam
graciosas pela passarela e cada nova roupa era recebida com
aplausos entusiasmados. O salo estava lotado, todas as
cadeiras ocupadas e pessoas de p no fundo.
Houve uma agitao nos bastidores e Kendall virou-se para
ver o que estava acontecendo. Dois guardas uniformizados
avanavam em sua direco.
O corao de Kendall disparou. Um dos guardas perguntou:
- Voc  Kendall Stanford Renaud?
- Sou, sim.
- Pois est presa pelo assassinato de Martha Ryan.
- No! - gritou ela. - No tive a inteno de mat-la!
Foi um acidente! Por favor! Por favor! Por favor..!

Ela acordou em pnico, o corpo tremendo.
Era um pesadelo recorrente. No posso continuar assim,
continuou Kendall. No sei mais. Tenho de fazer alguma coisa.
Ela queria desesperadamente falar com Marc. Ele voltara a
Nova York, relutante.
- Tenho um emprego, querida. Eles no querem me dar
mais nenhum dia de folga.
- Eu compreendo, Marc. Tambm voltarei dentro de poucos dias. 
Tenho um desfile a preparar.

Kendall partiria para Nova York naquela tarde, mas havia uma
coisa que ela achava que tinha de fazer antes de partir. A
conversa com Woody fora perturbadora. Ele est lanando em 
Peggy a culpa por seus problemas.
Kendall encontrou Peggy na varanda.
- Bom dia - disse Kendall.
- Bom dia.
Kendall sentou-se na frente de Peggy.
- Preciso conversar com voc.
- ?
Era uma situao constrangedora.
- Tive uma conversa com Woody. Ele est em pssimas
condies. Acha... ele diz que  voc quem lhe fornece a
herona?
- Ele contou isso?
- Contou.
Houve uma pausa prolongada.
-  verdade.
Kendall fitou-a com incredulidade.
- Mas... no compreendo. Voc me disse que estava tentando
afast-lo das drogas. Por que haveria de querer mant-lo 
viciado?
- No pode entender nada, no ? - O tom era amargurado. - 
Vive encerrada em seu pequeno mundo. Pois vou lhe
dizer uma coisa, Madame Estilista Famosa! Eu era garonete
quando Woody me engravidou. Nunca esperei que Woody Stanford 
casasse comigo. E quer saber por que ele casou? Para que
pudesse sentir que era melhor do que o pai. Muito bem, Woody
casou comigo. E todo mundo me tratava como se eu fosse lixo.
Quando meu irmo Hoop apareceu para o casamento, agiram
como se ele tambm fosse lixo.
- Peggy!..

' - Para dizer a verdade, fiquei espantada quando seu irmo 
disse que queria casar comigo. Nem mesmo sabia se a criana
era dele. Eu poderia ter sido uma boa esposa para Woody, mas
ningum jamais me deu uma oportunidade. Para eles, eu ainda
era uma garonete. No perdi a criana. Fiz um aborto
deliberado. Pensei que talvez assim Woody se divorciasse de 
mim. Mas isso no aconteceu. Eu era seu smbolo de como ele 
era democrtico. Pois vou Lhe dizer uma coisa, dona. No 
preciso disso. Sou to boa quanto voc ou qualquer outra 
pessoa.
Cada palavra era um golpe.
' - Algum dia voc amou Woody?
' Peggy encolheu os ombros.
- Ele era bonito e divertido, mas depois sofreu aquela
queda horrvel numa partida de plo, e tudo mudou. Deram
drogas a ele no hospital. Quando Woody saiu, esperavam que
ele parasse de tom-las. Uma noite ele sentia muita dor, e eu
disse: "Tenho um presente para voc."Depois disso, sempre que
ele sentia dor, eu lhe dava um presentinho. Logo era sempre
que ele precisava, quer estivesse ou no sentindo dor. Meu 
irmo  traficante e eu podia obter toda a herona de que 
precisava. Fazia Woody me suplicar. E s vezes dizia a ele que 
no tinha, s para v-lo suar e chorar... ah, como o Sr 
Woodrow Stanford precisava de mim! Ele no era to altivo 
nessas ocasies! Eu o provocava
para que me batesse e depois Woody se sentia horrvel pelo que
fizera, vinha rastejando para mim, oferecendo presentes. Deve
entender, quando Woody est fora da droga eu no sou nada.
Quando ele toma a droga, sou eu quem tem o poder. Ele pode
ser um Stanford e talvez eu no passe de uma garonete, mas o
controlo.
Kendall a fitava horrorizada.
- Seu irmo bem que tentou largar as drogas. Quando a
coisa ficava ruim demais, os amigos o levavam para um centro
de desintoxicao. Eu ia visit-lo, e via o grande Stanford
sofrendo as agonias do inferno. E cada vez que ele saa, eu 
estava  sua espera com meu presentinho. Era o momento da 
retaliao.
Kendall tinha dificuldade para respirar.
- O que fez  monstruoso - murmurou ela. - Quero que
v embora.
- Pode apostar que vou! Mal posso esperar para sair daqui.
- Peggy sorriu. - Mas  claro que no irei embora de graa.
Quanto terei num acordo?
- Qualquer que seja a quantia, ser demais - respondeu
Kendall. - E agora v embora.
- Com prazer - Uma pausa e Peggy acrescentou, num
tom afectado: - Meu advogado ent rar em contacto com o seu.

- Ela vai mesmo me deixar?
- Vai.
- Isso significa...
- Sei o que significa, Woody. Pode agtientar?
Ele sorriu.
- Acho que sim. Tentarei.
- Tenho certeza de que pode.
Woody respirou fundo.
- Obrigado, Kendall. Eu nunca teria coragem para me

livrar dela.
Ela sorriu.
- Para que servem as irms?

Kendall partiu para Nova York naquela tarde. O desfile seria
realizado dentro de uma semana.
O negcio de moda  o maior de Nova York. Um estilista
bem-sucedido pode causar um efeito na economia do mundo
inteiro. O capricho de um estilista tem um impacto distante em
tudo, dos colhedores de algodo na ndia aos teceles
escoceses e aos criadores do bicho-da-seda na China e Japo. 
Tem um efeito sobre a indstria da l e a indstria da seda. 
Os Donna Karans, Calvin Kleins e Ralph Laurens so uma grande 
influncia econmica, e Kendall alcanara essa categoria. 
Circulava o rumor de que ela seria escolhida para Estilista do 
Ano pelo Conselho de Estilistas
de Moda da Amrica, o prmio de maior prestgio no ramo.

Kendall Stanford Renaud levava uma vida movimentada. Em
setembro, examinava uma ampla variedade de tecidos; em 
outubro, escolhia os que queria para seus novos modelos. 
Dezembro e janeiro eram devotados a desenhar sua nova 
coleco, e fevereiro era o ms para refinar suas criaes. 
Abril era o ms para apresentar a coleco de outono.

A Kendall Stanford Designs ficava na Stima Avenida, 550,
partilhando o prdio com Bill Blass e Oscar de la Renta. Seu
prximo desfile seria sob um toldo no Bryant Park, onde 
poderia acomodar mil pessoas. Assim que Kendall entrou no 
escritrio, Nadine disse:
- Tenho boas notcias. Fizeram todas as reservas para o
desfile.
- Obrigada - murmurou Kendall, distrada, a mente em
outras coisas.
- Antes que eu me esquea, h uma carta para voc em sua
mesa, com o aviso de URGENTE. Foi trazida por um mensageiro 
especial.
As palavras provocaram um sobressalto em Kendall. Ela
foi at  sua mesa, olhou o envelope. O endereo do remetente
era Associao de Proteco da Vida Selvagem, Park Avenue,
3.000, Nova York. Kendall ficou olhando para o envelope,
imvel, por um longo tempo. No havia o nmero 3.000 na
Park Avenue.
Ela abriu a carta com os dedos trmulos.

Prezada Sra. Renaud:
Meu banqueiro suo informa que ainda no recebeu o
milho de dlares que minha associao solicitou. Em vista
de sua inadimplncia, devo comunicar que nossas necessidades 
aumentaram para cinco milhes de dlares. Se esse
pagamento for efetuado, prometo que no tornaremos a
incomod-la. Tem quinze dias para depositar o dinheiro em
nossa conta. Se no o fizer, lamento muito, mas teremos de
nos comunicar com as autoridades competentes.

No havia assinatura.
Kendall entrou em pnico, lendo a carta vrias vezes. Cinco
milhes de dlares!  imppossvel! Nunca conseguirei levantar

tanto dinheiro num prazo to curto! Fui uma idiota!

Quando Marc chegou em casa naquela noite, Kendall mostrou-lhe 
a carta.
- Cinco milhes de dlares! -explodiu ele. -Isso  um
absurdo! Quem eles pensam que voc ?
- Eles sabem quem eu sou - murmurou Kendall. - 
esse o problema. Tenho de arrumar o dinheiro e depressa. Mas
como?
- No sei... Calculo que um banco poderia emprestar o
dinheiro contra sua herana, mas no gosto da idia de...
-  da minha vida que estou falando, Marc. De nossas
vidas. Vou tentar obter o emprstimo.

George Meriweather era vice-presidente do Union Bank de
Nova York. Estava na casa dos quarenta anos e subira por seu
prprio esforo desde que ingressara no banco como caixa
jnior. Era um homem ambicioso. Um dia estarei no conselho
de administrao do banco e depois disso... quem sabe ? Os
pensamentos foram interrompidos pela secretria.
- A Senhorita Kendall Stanford deseja v-lo.
Ele experimentou um pequeno frisson de prazer. Ela sempre
fora uma boa cliente, como uma estilista bem-sucedida, mas
agora era uma das mulheres mais ricas do mundo. Ele tentara
por vrios anos, em vo, obter a conta de Harry Stanford. E
agora...
- Pea a ela para entrar - disse Meriweather  sua secretria.
Quando Kendall entrou na sala, Meriweather levantou-se
para cumpriment-la, com um sorriso e um aperto de mo
efusivo.
-  um prazer tornar a v-la - disse ele. - Sente-se.
Aceita um caf ou algo mais forte?
- No, obrigada.
- Quero apresentar minhas condolncias pela morte de seu pai.
A voz era convenientemente solene.
- Obrigada.
- Em que posso ajud-la?
Meriweather j sabia o que ela ia dizer. Kendall Stanford lhe
entregaria seus bilhes para que ele investisse...
- Quero tomar algum dinheiro emprestado.
Ele piscou, aturdido.
- Como?
- Preciso de cinco milhes de dlares.
Meriweather pensou depressa. Segundo os jornais, a parte
dela na herana deve ser de mais de um bilho de dlares.
Mesmo se deduzindo os impostos... Ele sorriu.
- Creio que no haver qualquer problema. Sempre foi
uma de nossas clientes mais importantes. Que garantia gostaria
de oferecer?
- Sou herdeira no testamento de meu pai.
Meriweather acenou com a cabea.
- Sei disso. Li nos jornais.
- Gostaria de tomar o dinheiro emprestado contra a minha
parte na herana.
- Entendo. O testamento de seu pai j foi homologado?
- No, mas ser em breve.
- Muito bem. - Ele inclinou-se para a frente. - Vamos
precisar de uma cpia do testamento.

- Posso arrumar - disse Kendall, ansiosa.
- E precisamos tambm saber de sua participao exacta na
herana.
- No sei qual  a quantia exacta.
- As leis bancrias so bastante rigorosas. As homologaes 
podem demorar. Por que no volta depois que o testamento
for homologado e...
- Preciso do dinheiro agora - insistiu Kendall, desesperada, 
sentindo vontade de gritar.
- Claro que queremos fazer tudo o que pudermos para
atend-la, minha cara... - Ele ergueu os braos, num gesto
impotente. - Mas, infelizmente, estamos com as mos atadas
at...
Kendall levantou-se.
- Obrigada.
- Assim que...
Ela foi embora.

Quando Kendall voltou ao escritrio, Nadine disse, muito 
excitada:
- Preciso conversar com voc.
Ela no sentia a menor disposio para ouvir os problemas
de Nadine.
- O que ?
- Meu marido me telefonou h poucos minutos. Sua companhia vai 
transferi-lo para Paris. Por isso, irei embora.
- Voc vai... para Paris?
Nadine estava radiante.
- Vou, sim! No  maravilhoso? Lamentarei deix-la. Mas
no se preocupe. Continuarei em contacto.
Ento era Nadine. Mas no havia como provar. Primeiro o
casaco de pele e agora Paris. Com cinco milhes de dlares, 
ela pode se dar ao luxo de viver em qualquer lugar do mundo. 
Como posso fazer? Se eu lhe disser que sei, ela vai negar. 
Talvez exija mais. Marc saber o que fazer.
- Nadine...
Um dos assistentes de Kendall entrou na sala.
- Temos de conversar sobre a nova coleco, Kendall. Acho
que no temos modelos suficientes para...
Kendall no podia mais suportar
- Desculpe, mas no me sinto bem. Vou para casa.
O assistente ficou espantado.
- Mas estamos no meio de...
- Sinto muito.
E Kendall saiu.

O apartamento estava vazio quando Kendall entrou. Marc 
trabalhava at tarde. Kendall contemplou todas as belas coisas 
na sala e pensou: Eles nunca vo parar at me arrancarem tudo. 
Vo me sangrar at a morte. Marc tinha razo. Eu deveria ter
procurado a polcia naquela noite. Agora sou uma criminosa.
Tenho de confessar. E agora, enquanto ainda tenho coragem.
Ela sentou-se, pensando no que ia fazer, com Marc, com sua 
famlia.
Haveria manchetes escandalosas, um julgamento, talvez a 
priso. Seria o fim de sua carreira. Mas no posso continuar
assim, pensou Kendall. Acabarei enlouquecendo.
Atordoada, ela se levantou, foi para o escritrio de Marc.

Lembrava-se que ele guardava sua mquina de escrever numa
prateleira no armrio. Pegou a mquina, ajeitou-a em cima da
mesa. Ps um papel e comeou a escrever

A Quem Possa Interessar:
Meu nome  Kendall

Ela parou. A letra "E" estava quebrada.

Captulo Trinta

- Porqu, Marc? Pelo amor de Deus. Porqu?
A voz de Kendall ressoava de angstia.
- Foi culpa sua.
- No! J contei... foi um acidente! Eu...
- No estou falando do acidente, mas sim de voc. A
esposa que  um grande sucesso, to ocupada que no encontra
tempo para seu marido.
Foi como se ele a tivesse esbofeteado.
- Isso no  verdade. Eu...
- Sempre pensou apenas em voc mesma, Kendall. Em qualquer 
lugar a que fssemos, voc era a estrela. Deixava-me
acompanh-la como um poodle de estimao.
- Isso no  justo, Marc!
- No ? Voc vai fazer seus desfiles de moda no mundo
inteiro para ter seu retrato nos jornais, enquanto fico
sentado aqui, esperando por sua volta. Acha que gosto de ser o 
"Sr. Kendall"? Eu queria uma esposa. Mas no se preocupe, 
minha querida Kendall. Consolei-me com outras mulheres 
enquanto voc viajava.
Ela estava plida.
- E eram mulheres reais, de carne e osso, que tinham
tempo para mim, no uma casca maquilada e vazia.
- Pare com isso! - gritou Kendall.
- Quando me contou o acidente, percebi uma maneira de
me livrar de voc. Quer saber de uma coisa, minha querida? Eu
gostava de observ-la a se angustiar enquanto lia aquelas 
cartas. Compensava um pouco todas as humilhaes por que 
passei.
- J chega! Faa suas malas e saia daqui! No quero v-lo
nunca mais!
Marc sorriu.
- No h muita chance de que isso acontea. Ainda planea
procurar a polcia?
- Saia! - berrou Kendall. -Agora!
- J estou indo. Acho que voltarei a Paris. S mais uma
coisa, querida: no direi nada a ningum. Voc est segura.
Ele deixou o apartamento uma hora depois.

s nove horas da manh seguinte, Kendall telefonou para Steve
Sloane.
- Bom dia, Sra. Renaud. Em que posso ajud-la?
- Voltarei a Boston esta tarde - disse Kendall. - Tenho
uma con fisso a fazer.

Ela sentou-se diante de Steve Sloane, plida e tensa. No
sabia como comear. Steve procurou estimul-la.
- Disse que tinha uma confisso a fazer
- Isso mesmo. Eu... matei uma pessoa. - Kendall comeou a 
chorar. - Foi um acidente, mas... fugi.
O rosto era uma mscara de angstia.
- Fugi... e deixei o corpo l.
- Calma, calma... - murmurou Steve. - Comece pelo
incio.
E ela contou tudo.

Meia hora depois, Steve olhou pela janela, pensando no que

acabara de ouvir
- E quer ir  polcia?
- Quero. Foi o que eu deveria ter feito na ocasio. No me
importo mais com o que possam fazer comigo.
Steve disse, pensativo:
- J que est se apresentando voluntariamente e foi um
acidente, acho que o tribunal ser clemente.
Kendall fazia um grande esforo para se controlar.
- S quero acabar logo com isso.
- E seu marido?
- O que h com ele?
- Chantagem  contra a lei. Voc tem o nmero da conta
na Sua para a qual mandou o dinheiro que ele lhe roubou.
Tudo o que tem a fazer  apresentar uma acusao e...
- No! -O tom era veemente. -No quero ter mais nada
a ver com ele. Deixe-o continuar com sua vida. Quero continuar
com a minha.
Steve balanou a cabea.
- Como quiser. Vou lev-la at a chefatura de polcia.
Talvez tenha de passar a noite na cadeia, mas poderei solt-la
sob fiana pela manh.
Kendall sorriu.
- Agora posso fazer uma coisa que nunca fiz antes.
- O qu?
- Criar um modelo com listras.

Naquela noite, ao voltar para casa, Steve contou a Julia o que
acontecera. Ela ficou horrorizada.
- O prprio marido fazia chantagem com ela? Isso 
terrvel ! - Julia estudou-o por um momento. - Acho 
maraviLhoso que voc passe sua vida ajudando pessoas em
dificuldades.
Steve pensou: Agora sou eu quem est em dificuldades.

Steve Sloane foi despertado pelo aroma de caf fresco e bacon
frito. Sentou-se na cama, surpreso. A empregada viera hoje?
Ele a avisara para no vir. Steve ps o chambre e os chinelos,
desceu apressado para a cozinha.
Julia estava ali, preparando o desjejum. Levantou os olhos
quando Steve entrou.
- Bom dia - disse ela, jovial. - Como gosta dos seus
ovos?
- hen... mexidos.
- Certo. Minha especialidade  ovos mexidos e bacon.
Para ser franca, minha nica especialidade. Como j falei, sou
uma pssima cozinheira.
Steve sorriu.
- No precisa cozinhar. Se quisesse, poderia contratar
algumas centenas de cozinheiras.
- Vou mesmo receber tanto dinheiro, Steve?
- Vai, sim. Sua parte na herana ser de mais de um bilho
de dlares.
Julia teve dificuldade para engolir.
- Um bilho? No d para acreditar!
- Mas  verdade.
- No h tanto dinheiro assim no mundo, Steve.
- Seu pai tinha a maior parte do que havia.
- Eu... no sei o que dizer.

- Ento posso dizer uma coisa?
- Claro.
- Os ovos esto queimando.
- Oh ! Desculpe. - Ela tirou a frigideira do fogo. - Farei
outros.
- No precisa se incomodar. O bacon frito ser suficiente.
Julia soltou uma risada.
- Sinto muito.
Steve foi at o armrio, pegou uma caixa de cereal.
- Que tal um desjejum frio, Julia?
- Perfeito.
Ele despejou o cereal em duas tigelas, pegou o leite na
geladeira, e sentaram-se  mesa da cozinha.
- No tem algum que cozinhe para voc, Steve?
- Quer saber se estou envolvido com alguma mulher?
Julia corou.
- Por a.
- No. Tive um relacionamento por dois anos, mas acabou.
- Sinto muito.
- E voc?
Ela pensou em Henry Wesson.
- Acho que no.
Steve ficou curioso.
- No tem a certeza?
-  difcil explicar. Um de ns quer casar-explicou ela,
com todo tacto -, o outro no quer.
- Entendo. Quando tudo isso acabar, voltar para o
Kansas?
- Sinceramente, no sei. Parece estranho estar aqui. Minha
me vivia me falando de Boston. Ela nasceu aqui, amava esta
cidade. De certa maneira,  como voltar para casa. Eu gostaria
de ter conhecido meu pai.
No, voc no gostaria, pensou Steve.
- Voc o conheceu, Steve?
- No. Ele s tratava com Simon Fitzgerald.

Conversaram por mais de uma hora e havia uma camaradagem
fcil entre eles. Steve relatou a Julia o que acontecera antes
- a chegada da estranha que dizia ser Julia Stanford, o caixo
vazio e o desaparecimento de Dmitri Kaminsky.
- Isso  incrvel ! - exclamou Julia. - Quem poderia
estar por trs disso?
- No sei, mas estou tentando descobrir. Enquanto isso,
voc ficar segura.
Ela sorriu.
- Eu me sinto mesmo segura aqui. Obrigada.
Steve j ia dizer alguma coisa, mas parou. Olhou para o 
relgio.
-  melhor eu me vestir e ir para o escritrio. Tenho muito
o que fazer hoje.

Steve foi se reunir com Fitzgerald.
- Algum progresso? - indagou Fitzgerald.
Steve sacudiu a cabea.
-  tudo fumaa. Quem planeou o golpe  um gnio.
Estou tentando encontrar Dmitri Kaminsky. Ele voou da Crsega 
para Paris e Austrlia. Falei com a polcia de Sydney. Eles
ficaram surpresos ao saberem que Kaminsky estava em seu pas.

H uma circular da Interpol e eles esto procurando-o. Acho
que Harry Stanford assinou sua sentena de morte ao ligar para 
o escritrio e dizer que queria mudar seu testamento. Algum
decidiu impedi-lo. A nica testemunha do que aconteceu no iate
naquela noite  Dmitri Kaminsky. Quando o descobrirmos, 
saberemos muito mais.
- Ser que devemos acionar nossa polcia? - indagou
Fitzgerald.
Steve balanou a cabea.
- Tudo o que sabemos  circunstancial, Simon. O nico
crime que podemos provar  que algum desenterrou um 
cadver... e nem sequer sabemos quem fez isso.
- E o tal detective que eles contrataram, o que confirmou
as impresses digitais da mulher?
- Frank Timmons. Deixei trs recados para ele. Se no
tiver notcias at s seis horas da tarde, voarei para 
Chicago. Creio que ele est profundamente envolvido.
- O que acha que deveria acontecer com a parte da herana
que a impostora ia receber?
- Meu palpite  de que a pessoa que planeou tudo obrigou-a a 
assinar uma procurao. E deve ter usado alguns fundos
de fachada para que ningum saiba quem . Mas estou convencido 
de que  algum da famlia... Acho que podemos eliminar
Kendall como suspeita.
Ele relatou sua conversa com Kendall.
- Se ela estivesse por trs, no teria feito a confisso, no
neste momento, pelo menos. Esperaria at receber o dinheiro.
Quanto ao marido, acho que podemos elimin-lo. Marc no
passa de um chantagista insignificante. No  capaz de armar
um plano assim.
- E os outros?
- Juiz Stanford. Conversei com um amigo, da Ordem dos
Advogados de Chicago. Meu amigo diz que todos tm a maior
considerao pelo juiz Stanford. Na verdade, ele foi at
indicado para presidir ao tribunal. Outra coisa em seu favor: 
foi o juiz Stanford quem disse que a primeira Julia que 
apareceu era uma impostora e quem insistiu no teste de d.n.a. 
Duvido que ele fizesse uma coisa dessas. Woody me interessa. 
Tenho quase a certeza de que ele  viciado em drogas, o que  
um hbito dispendioso. Investiguei sua esposa, Peggy. Ela no 
 bastante esperta para estar por trs do plano. Mas corre o 
rumor de que tem um irmo envolvido com o crime organizado. 
Vou verificar.
Steve falou com sua secretria pelo interfone.
- Por favor, ligue-me com o tenente Michael Kennedy, da
polcia de Boston.
A secretria avisou poucos minutos depois:
- Tenente Kennedy na linha um.
- Tenente, obrigado por atender a meu telefonema. Sou
Steve Sloane, trabalho na Renquist, Renquist e Fitzgerald.
Estamos tentando localizar um parente no caso do esplio de 
Harry Stanford.
- Terei o maior prazer em ajudar, Sr. Sloane.
- Poderia consultar a polcia de Nova York e perguntar
se tem alguma ficha do irmo da Sra. Woodrow Stanford? O
nome dele  Hoop Malkovich. Trabalha numa padaria no
Bronx.
- No tem problema. Ligarei assim que tiver uma resposta.

- Obrigado.

Depois do almoo, Simon Fitzgerald parou na sala de Steve.
- Como vai a investigao?
- Lenta demais para o meu gosto. Quem planeou isso
soube encobrir sua pista muito bem.
- E como est Julia?
Steve sorriu.
- Ela  maravilhosa.
Havia alguma coisa no tom de voz que levou Simon Fitzgerald a 
examin-lo mais atentamente.
- Ela  umajovem muito atraente.
- Sei disso - murmurou Steve, ansioso. - Sei disso.

Uma hora depois, veio um telefonema da Austrlia.
- Sr. Sloane?
- Sou eu.
- Inspetor-chefe McPhearson, de Sydney.
- Pois no, inspetor-chefe.
- Encontramos seu homem.
Steve sentiu o corao disparar.
- Sensacional! Eu gostaria de providenciar o mais depressa 
possvel a extradio...
- No h pressa. Dmitri Kaminsky est morto.
Steve sentiu um aperto no corao.
- O qu ?
- Encontramos o corpo h poucas horas. Os dedos haviam
sido cortados e ele levou vrios tiros.
As quadrilhas russas tm um estranho costume. Primeiro
cortam seus dedos, depois o deixam sangrar, antes de
fuZil-lo.
- Entendo. Obrigado, inspetor.

Steve ficou olhando para a parede. Todas as
suas pistas estavam sumindo. Ele compreendeu o quanto contara
com o depoimento de Dmitri Kaminsky. A secretria de Steve
interrompeu seus pensamentos:
- H um certo Sr. Timmons na linha trs.
Steve olhou para o relgio. Cinco para as seis. Ele pegou o
telefone.
- Sr. Timmons?
- Isso mesmo. Lamento no ter podido ligar antes. Passei
dois dias fora da cidade. Em que posso ajud-lo?
Em muita coisa, pensou Steve. Pode me dizer, por exemplo,
como falsificou aquelas impr esses digitais. Steve escolheu
suas palavras com o maior cuidado:
- Estou ligando sobre Julia Stanford. Quando esteve em
Boston recentemente, verificou as impresses digitais dela
e...
- Sr. Sloane...
- O que ?
- Nunca estive em Boston.
Steve respirou fundo.
- Sr Timmons, segundo o registro do Holiday Inn, esteve
aqui...
- Algum vem usando o meu nome.
Steve estava atordoado. Era o beco sem sada, a ltima pista.
- Tem alguma idia de quem poderia ser?

- Algo muito estranho est acontecendo, Sr Sloane. Uma
mulher alegou que estive em Boston e que poderia identific-la
como Julia Stanford. Mas eu nunca a tinha visto antes.
Steve sentiu um mpeto de esperana.
- Sabe quem ela ?
- Sei, sim. O nome dela  Posner. Margo Posner
Steve pegou uma caneta.
- Sabe onde ela est?
- No Centro de Sade Mental Reed, em Chicago.
- Muito obrigado.
- Vamos manter contacto. Eu tambm gostaria de saber
o que est acontecendo. No gosto que outros usem meu
nome.
- Certo.
Steve desligou. Margo Posner.
Quando Steve chegou em casa, naquela noite, encontrou Julia 
espera.
- Preparei o jantar - anunciou ela. - Isto , no preparei
exactamente. Gosta de comida chinesa?
Ele sorriu.
- Adoro!
- Ainda bem. Temos oito embalagens.
Steve foi para a sala de jantar. A mesa estava ornamentada
com flores e velas.
- Alguma novidade?-perguntou Julia.
Ele respondeu com cautela:
- Talvez tenhamos a primeira abertura. Tenho o nome de
uma mulher que parece estar envolvida no caso. Voarei at
Chicago pela manh para conversar com ela. Tenho o 
pressentimento de que podemos ter todas as respostas amanh.
- Mas seria maravilhoso! - exclamou Julia, excitada. -
Ficarei contente quando tudo isso terminar.
- Eu tambm - assegurou Steve.
Ou ser que no? Afinal, ela  parte da famlia Stanford..
e est fora do meu alcance.

O jantar se prolongou por duas horas e eles nem sequer 
percebiam o que comiam. Conversaram sobre tudo e sobre nada, e 
era como se sempre tivessem se conhecido. Discutiram o passado 
e o presente, tomaram o cuidado de evitar qualquer meno ao
futuro. No h, futuro para ns, pensou Steve, infeliz. No
fim, relutante, Steve murmurou:
-  melhor irmos para a cama.
Ela fitou-o com as sobrancelhas alteadas, e ambos desataram
a rir
- O que eu quis dizer..
- Sei o que voc quis dizer. Boa noite, Steve.
- Boa noite, Julia.

Captulo Trinta e Um

No incio da manh seguinte Steve embarcou num voo da United. 
Ao desembarcar em Chicago, no Aeroporto O'Hare,
pegou um txi.
- Para onde? - perguntou o motorista.
- Centro de Sade Mental Reed.
O motorista virou-se para fit-lo.
- Voc est bem?
- Estou. Por qu?
- S perguntei.

Chegando ao Reed, Steve encaminhou-se para o guarda 
uniformizado na portaria.
- Em que posso ajud-lo? - indagou o guarda.
- Eu gostaria de falar com Margo Posner.
- Ela  funcionria?
Isso no ocorrera a Steve.
- No sei.
O guarda examinou-o com mais ateno.
- No sabe?
- tudo o que sei  que ela est aqui.
O guarda abriu uma gaveta, tirou um papel com uma lista de
nomes. Depois de um momento, ele anunciou:
- Ela no  funcionria. Poderia ser paciente?
- hen... no sei.  possvel.
O guarda lanou outro olhar inquisitivo para Steve, abriu
uma gaveta diferente, tirou um impresso de computador. 
Esquadrinhou-o e parou no meio.
- Posner, Margo.
- Isso mesmo.-Steve estava surpreso. -Ela  paciente?
- Isso mesmo. Voc  parente?
- No...
- Neste caso, no poder v-la.
- Mas tenho de falar com ela! - insistiu Steve. -  muito
importante !
- Lamento, mas so as ordens. A menos que tenha sido
autorizado antes, no pode visitar nenhum paciente.
- Quem est no comando aqui?
- Sou eu.
- Estou me referindo ao director do hospital.
-  o Dr. Kingsley.
- Quero falar com ele.
- Certo. -O guarda pegou o telefone, discou um nmero.
- Dr. Kingsley, aqui  Joe, na portaria. H um homem aqui que
deseja v-lo.
O guarda olhou para Steve.
- Seu nome?
- Steve Sloane. Sou advogado.
- Steve Sloane. Ele  advogado... certo.
O guarda desligou, tornou a olhar para Steve.
- Algum vir aqui para lev-lo ao gabinete do Dr Kingsley.
Cinco minutos depois, Steve foi introduzido na sala do Dr.
Gary Kingsley. Era um homem na casa dos cinquenta anos, mas
parecia mais velho e acabado.
- Em que posso ajud-lo, Sr. Sloane?
- Preciso falar com uma paciente internada aqui. Margo
Posner.

- Ah, sim. Um caso interessante.  parente?
- No, mas estou investigando um possvel homicdio, e
 muito importante que eu fale com ela. Acho que ela poder
explicar muitas coisas.
- Lamento, mas no posso ajud-lo.
- Mas tem de me ajudar! ...
- Eu no poderia ajud-lo, Sr. Sloane, mesmo que quisesse.
- Por que no?
- Porque Margo Posner est numa cela acolchoada. Ataca
qualquer pessoa que se aproxime dela. Esta manh tentou matar
uma atendente e dois mdicos.
- O qu ?
- Ela troca de identidade a todo instante, chama seu irmo
Tyler e a tripulao de seu iate. S conseguimos aquiet-la
com fortes sedativos.
- Essa no! - murmurou Steve. - Tem alguma idia de
quando ela poder sair desse estado?
O Dr. Kingsley sacudiu a cabea.
- Ela est sob rigorosa observao. Talvez venha a se
acalmar depois de algum tempo e ento poderemos reavaliar sua
condio. At l...

Captulo Trinta e Dois

s seis horas da manh, uma lancha de patrulha do porto 
navegava pelo rio Charles quando um dos polcias a bordo
avistou um objeto flutuando na gua.
-  proa, a boreste! - gritou ele. - Parece um tronco.
Vamos recolh-lo antes que afunde alguma embarcao.
O tronco era um cadver E, ainda mais surpreendente, um
cadver embalsamado. Um dos guardas indagou:
- Como um cadver embalsamado veio parar no rio Charles?
O tenente Michael Kennedy estava falando com o mdico-legista.
- Tem certeza?
- Absoluta.  Harry Stanford. Eu mesmo o embalsamei.
Mais tarde, houve uma ordem de exumao, mas quando o caixo
foi aberto... Ora, vocj deve saber. Foi comunicado 
polcia.
- Quem pediu a exumao do corpo?
- A famlia, por intermdio de seu advogado, Simon
Fitzgerald .
- Acho que terei uma conversa com o Sr. Fitzgerald.

Ao voltar de Chicago, Steve foi directo para a sala de Simon
Fitzgerald.
- Voc parece abatido - comentou Fitzgerald.
- No abatido... batido. tudo est desmoronando, Simon.
Tnhamos trs pistas possveis: Dmitri Kaminsky, Frank Timmons 
e Margo Posner. Kaminsky morreu,  o Timmons errado,
e Margo Posner est internada num hospcio. No temos nada...
A voz da secretria de Fitzgerald soou pelo interfone:
- Com licena, mas o tenente Kennedy est aqui, querendo
lhe falar, Sr. Fitzgerald.
- Mande-o entrar.
Michael Kennedy era um homem de aparncia rude, com
olhos que j haviam testemunhado tudo.
- Sr. Fitzgerald?
- Sou eu. Este  meu scio, Steve Sloane. Creio que j se
falaram pelo telefone. Sente-se, por favor. Em que podemos
ajud-lo?
- Acabamos de encontrar o corpo de Harry Stanford.
- O qu? Onde?
- Boiando no Charles. Pediu a exumao do corpo, no ?
- Pedi.
- Posso perguntar por qu?
Fitzgerald contou tudo. Quando ele terminou, Kennedy
disse:
- No sabem quem se apresentou como esse investigador,
o tal de Timmons?
- No - respondeu Steve. - Falei com Timmons. Ele
tambm no sabe.
Kennedy suspirou.
- O caso se torna mais e mais curioso.
- Onde est o corpo de Harry Stanford agora? - indagou
Steve.
- Ficar no necrotrio por enquanto. Espero que no torne
a desaparecer.
- Eu tambm - murmurou Steve. - Pediremos a Perry
Winger para fazer um teste de d.n.a. com Julia.


Steve ligou paraTyler, a fim de informar que o corpo de seu
pai fora encontrado. Tyler ficou genuinamente chocado.
- Mas isso  terrvel! - exclamou ele. - Quem poderia
ter feito uma coisa dessas?
-  o que estamos tentando descobrir-disse Steve.
tyler estava furioso. Aquele idiota incompetente do Baker!
Ele vai pagar caro por isso. Tenho de resolver o problema
antes que escape ao controle.
- Sr. Sloane, como talvez j saiba, fui designado para
presidir ao tribunal no condado de Cook. Tenho uma carga muito
pesada de trabalho e esto me pressionando para voltar logo.
No posso protelar minha estada aqui por mais tempo. 
Agradeceria se providenciasse rapidamente a homologao do 
testamento.
- J telefonei esta manh - informou Steve. - Tudo ser
concludo nos prximos trs dias.
- Seria ptimo. Mantenha-me informado, por favor.
- Pode deixar, juiz.

Steve ficou sentado em sua sala, repassando os acontecimentos
das ltimas semanas. Recordou a conversa que tivera com o
inspetor-chefe McPhearson.
Encontramos o corpo h poucas horas. Os dedos haviam
sido cortados e ele levou vrios tiros.
Mas espere um pouco!, pensou Steve. H uma coisa que ele
no me disse. Steve pegou o telefone e fez outra ligao para
a Austrlia. Atenderam no mesmo instante.
- Aqui  o inspetor-chefe McPhearson.
- Aqui  Steve Sloane, inspetor. Esqueci-me de fazer uma
pergunta. Quando encontrou o corpo de Dmitri Kaminsky,
havia algum papel com ele?... Entendo... Est certo... Muito
obrigado.
No instante em que Steve desligou, sua secretria informou
pelo interfone:
- O tenente Kennedy est esperando na linha dois.
Steve apertou o boto.
- Desculpe por faz-lo esperar, tenente. Eu estava numa
ligao para o exterior.
- A polcia de Nova York me deu algumas informaes
interessantes sobre Hoop Malkovich. Parece que ele  um tipo
bem suspeito.
Steve pegou uma caneta.
- Pode falar.
- A polcia acha que a padaria em que ele trabalha  uma
fachada para uma rede de trfico. - O tenente fez uma pausa.
- Malkovich  provavelmente um traficante de drogas. Mas 
esperto. Ainda no conseguiram provas contra ele.
- Mais alguma coisa?
- A polcia acredita que a operao est ligada  Mfia
francesa, com uma conexo em Marselha. Ligarei se souber de
mais alguma coisa.
- Obrigado, tenente. No imagina como est me ajudando.
Steve desligou e se encaminhou para a porta.

Ao chegar em casa, na maior expectativa, Steve chamou:
- Julia?
No houve resposta. Ele comeou a entrar em pnico.
- Julia!

Ela foi sequestrada ou morta, pensou Steve, com sbito alarme.
Julia apareceu no alto da escada.
- Steve?
Ele respirou fundo.
- Pensei...
Estava muito plido.
- Voc est bem?
- Estou.
Ela desceu.
- Correu tudo bem em Chicago?
Steve sacudiu a cabea.
- Receio que no.
Ele contou o que acontecera e acrescentou:
- Teremos a homologao do testamento na quinta-feira, Julia. 
Ou seja, daqui a trs dias. Quem quer que esteja
por trs disso tem de se livrar de voc at l... ou seu plano 
no dar certo.
Julia engoliu em seco.
- Entendo. Tem alguma idia de quem ?
- Para ser franco... - O telefone tocou. - Com licena.
Steve foi atender.
- Al+?
- Aqui  o Dr Tichner, da Flrida. Lamento no ter ligado
antes, mas estava viajando.
- Obrigado por telefonar, Dr. Tichner. Nossa firma representa 
o esplio Stanford.
- Em que posso ajud-lo?
-  sobre Woodrow Stanford. Creio que ele  seu paciente.
- , sim.
- Ele tem um problema de drogas, doutor?
- No posso falar sobre meus pacientes, Sr. Sloane.
- Compreendo, e no estou perguntando por mera curiosidade.  
muito importante...
- Lamento, mas no posso...
- Internou-o na Clnica Harbor Group, em Jupiter, no ?
Houve uma longa hesitao.
-  verdade. Consta dos registros.
- Obrigado, doutor. Isso  tudo que preciso saber.
Steve desligou, ficou imvel por um instante.
- Incrvel !
- O que foi? - perguntou Julia.
- Sente-se...

Meia hora depois, Steve estava em seu carro, a caminho de Rose
Hill. Todas as peas finalmente se ajustavam em seus lugares.
Ele  brilhante. Quase deu certo. E ainda pode dar, se alguma
coisa acontecer com Julia.
Em Rose Hill, a porta foi aberta por Clark.
- Boa noite, Sr. Sloane.
- Boa noite, Clark. O juiz Stanford est?
- Na biblioteca. Vou avis-lo de sua presena.
- Obrigado.
Steve observou Clark se afastar. O mordomo voltou um
minuto depois.
- O juiz Stanford vai receb-lo agora.
- Obrigado.
Steve entrou na biblioteca.
Tyler estava diante de um tabuleiro de xadrez, com uma

expresso concentrada. Levantou os olhos quando Steve entrou.
- Queria falar comigo?
- Queria, sim. Creio que a mulher que se apresentou aqui
h vrios dias  a verdadeira Julia. A outra Julia era uma
impostora.
- Mas no  possvel!
- Receio que seja verdade, e descobri quem est por trs
de tudo isso.
Houve um silncio momentneo, antes que Tyler murmurasse:
- Descobriu?
- Descobri. Lamento, mas ser um choque.  seu irmo,
Woody.
Tyler fitou Steve com um espanto total.
- Est me dizendo que Woody  responsvel por tudo o
que vem acontecendo?
- Isso mesmo.
- No... no posso acreditar
- Eu tambm no podia, mas tudo confere. Conversei com
o mdico dele em Hobe Sound. Sabia que seu irmo  viciado
em drogas?
- Eu... desconfiava.
- Drogas so caras. Woody no trabalha. Precisa de dinheiro, e 
 bvio que procurava obter uma parte maior da
herana. Foi ele quem contratou a falsa Julia, mas quando voc
nos procurou e pediu um teste de d.n.a., Woody entrou em 
pnico e removeu o corpo de seu pai do caixo, porque no 
podia permitir a realizao do teste. Foi o que me fez 
suspeitar. E desconfio que ele mandou algum a Kansas City 
para matar a verdadeira Julia. Sabia que Peggy tem um irmo 
ligado  Mfia?
Mas enquanto a verdadeira Julia estiver viva, o plano dele no
poder dar certo.
- Tem certeza de tudo isso?
- Absoluta. H mais uma coisa, juiz.
- O que ?
- No creio que seu pai tenha cado do iate. Estou convencido 
de que Woody providenciou para que seu pai fosse assassinado. 
O irmo de Peggy poderia ter cuidado disso tambm. Fui
informado de que ele tem ligaes com a Mfia de Marselha.
Eles poderiam facilmente pagar um tripulante para matar seu
pai. Voarei para a Itlia esta noite e conversarei com o
comandante do iate.
Tyler escutava atentamente. Quando ele falou, foi num tom
de aprovao:
-  uma boa idia.
O comandante Vacarro no sabe de nada.
- Tentarei voltar at quinta-feira para a leitura do 
testamento.
- E a verdadeira Julia? - indagou Tyler. - Tem certeza
de que ela est segura?
- Tenho, sim - respondeu Steve. - Ela est escondida
onde ningum poder encontr-la: na minha casa.

Captulo Trinta e Trs

Os deuses esto do meu lado. Ele no podia
acreditar em sua sorte. E era mesmo um golpe de sorte 
inacreditvel. Na noite passada, Steve Sloane entregara Julia 
em suas mos. Hal Baker  um idiota incompetente, 
pensouTyrler. Desta vez cuidarei de Julia pessoalmente.
Ele levantou os olhos quando Clark entrou na sala.
- Com licena, juiz Stanford. H um telefonema para o
senhor
Era Keith Percy.
- Tyler?
- Ol, Keith.
- S queria inform-lo sobre o caso de Margo Posner.
- O que aconteceu?
- O Dr. Gifford acaba de me ligar. A mulher  insana.
Tornou-se to violenta que tiveram de trancafi-la numa cela
acolchoada.
Tyler sentiu um alvio intenso.
- Lamento saber disso.
- Seja como for, eu queria tranquiliz-lo e avisar que ela
no representa mais nenhum perigo para voc e sua famlia.
- No sabe como estou grato, Percy.
E estava mesmo.

Tyler foi para seu quarto e telefonou para Lee. Houve uma
longa espera at Lee atender
- Al?
Tyler podia ouvir vozes ao fundo.
- Quem est falando?
- Sou eu, Tyler.
Ele podia ouvir o retinido de copos.
- Est dando uma festa, Lee?
- hen. Quer se juntar a ns?
Tyler especulou quem estaria na festa.
- Bem que eu gostaria, se pudesse. Estou ligando para
avisar que voc pode se aprontar para aquela viagem de que
falamos.
Lee riu.
- Aquela viagem a St. Tropez num grande iate branco?
- Isso mesmo.
- Posso estar pronto a qualquer momento - disse Lee,
zombeteiro.
- Falo srio, Lee.
- Ora, Tyler, pare com isso. Juizes no possuem iates.
Preciso desligar agora. Meus convidados me chamam.
- Espere! - gritou Tyler, desesperado. - Sabe quem
eu sou?
- Claro que sei. ...
- Sou Tyler Stanford. Meu pai era Harry Stanford.
Houve um momento de silncio.
- Est querendo me gozar?
- No. Estou em Boston, acertando os ltimos detalhes da
herana.
- Santo Deus! Ento voc  esse Stanford. Eu no sabia.
Sinto muito. Tenho ouvido as notcias, mas no prestei muita
ateno. Nunca imaginei que fosse voc.
- No tem problema.

- Pretende mesmo me levar a St. Tropez, no ?
- Claro. Vamos fazer uma poro de coisas juntos. Isto ,
se voc quiser.
- Mas  claro que eu quero! -Havia um novo entusiasmo
na voz de Lee. - Puxa, Tyler,  uma notcia sensacional...
Tyler sorria ao desligar. J resolvera o problema de Lee.
Agora, pensou ele,  tempo de cuidar de minha meia-irm.

Tyler foi para a biblioteca, onde estava a coleco de armas 
de Harry Stanford. Abriu o armrio e tirou uma caixa de mogno.
Pegou algumas balas na gaveta na base do armrio. Guardou a
munio no bolso e subiu com a caixa de madeira para seu
quarto. Trancou a porta e abriu a caixa. L dentro havia dois
revlveres Ruger iguais, as armas prediletas de Harry
Stanford.
Tyler pegou um, carregou-o com todo cuidado, foi guardar a
munio extra e a caixa com o outro revlver numa gaveta de
sua cmoda. Um tiro ser suficiente, pensou ele. Haviam-Lhe 
ensinado a atirar muito bem na academia militar em que o pai o
internara. Obrigado, pai.
Em seguida, Tyler pegou a lista telefnica, e procurou o
endereo da casa de Steve Sloane.
Newbury Street, 280, Boston.
Tyler desceu para a garagem, onde havia meia dzia de
carros. Escolheu o Mercedes preto por ser o menos conspcuo.
Abriu a porta da garagem e escutou, para verificar se o
barulho atrara a ateno de algum. Havia apenas silncio.

A caminho da casa de Steve Sloane, Tyler pensou no que tinha
de fazer. Nunca antes cometera um assassinato pessoalmente.
Mas agora no tinha opo. Julia Stanford era o ltimo
obstculo entre ele e seus sonhos. Com ela morta, seus 
problemas estariam acabados. Para sempre, pensou Tyler

Ele guiava devagar, tomando o cuidado de no atrair qualquer
ateno. Entrou na Newbury Street e passou pela casa de Steve.
Havia uns poucos carros estacionados na rua, mas nenhum
pedestre  vista.
Tyler parou o carro a meio quarteiro de distncia e voltou
a p at a casa. Tocou a campainha e esperou.
A voz de Julia passou pela porta:
- Quem ?
- Sou eu, juiz Stanford.
Julia abriu a porta. Fitou-o surpresa.
- O que est fazendo aqui! Aconteceu alguma coisa?
- No, nada - respondeu ele, descontrado. - Steve
Sloane me pediu para conversar com voc. Avisou-me que eu a
encontraria aqui. Posso entrar 
- Claro.
Tyler entrou no vestbulo e observou Julia fechar a porta. Ela
levou-o para a sala de estar.
- Steve no est. Viajou para San Remo.
- Eu sei. - Tyler olhou ao redor - Est sozinha? No h
uma empregada ou algum para ficar com voc?
- No. Estou segura aqui. Posso lhe oferecer alguma
coisa?
- No, obrigado.
- Sobre o que deseja me falar?

- Estou desapontado com voc, Julia.
- Desapontado?
- Nunca deveria ter vindo para c. Pensou realmente que
poderia vir a Boston para obter uma fortuna que no lhe
pertence?
Ela fitou-o em silncio por um momento.
- Mas tenho direito...
- No tem direito a nada! - gritou Tyler - Onde esteve
durante todos esses anos em que fomos humilhados e punidos
por nosso pai? Ele fazia de tudo para nos magoar, em cada
oportunidade. Fez-nos viver num inferno. Voc no teve de
passar por nada disso. Mas ns sofremos, e agora merecemos o
dinheiro. No voc.
- Eu... O que quer que eu faa?
Tyler soltou uma risada curta.
- O que eu quero que voc faa? Nada. J fez. Sabia que
quase estragou tudo?
- No estou entendendo.
-  muito simples. - Tyler tirou o revlver do bolso. -
Voc vai desaparecer
Julia deu um passo para trs.
- Mas eu...
- No diga nada. No vamos perder tempo. Voc e eu
temos de fazer uma pequena viagem.
Ela se empertigou.
- E se eu no quiser ir?
- Vai de qualquer maneira. Morta ou viva. Aescolha  sua.
No momento de silncio que se seguiu, Tyler ouviu sua voz
trovejar do cmodo ao lado: Vai de qualquer maneira. Morta ou
viva. A escolha  sua. Ele virou-se.
- Mas o que... 
Steve Sloane, Simon Fitzgerald, o tenente Kennedy e dois
polcias uniformizados entraram na sala. Steve segurava um
gravador. O tenente Kennedy disse:
- Entregue-me a arma, juiz.
Tyler ficou paralisado por um instante, depois forou um
sorriso.
- Claro. Eu estava apenas querendo assustar essa mulher,
para intimid-la a ir embora. Ela  uma impostora. - Ele
largou a arma na mo estendida do polcia. - Ela tentou 
reivindicar parte da herana Stanford. Mas eu no ia permitir 
que escapasse impune. Por isso...
- Acabou, juiz - interrompeu-o Steve.
- Mas do que est falando? Disse que Woody era o 
responsvel...
- Woody no tinha condies de planear alguma coisa to
hbil, e Kendall j era bem-sucedida. Por isso, comecei a
investig-lo. Dmitri Kaminsky foi morto na Austrlia, mas a 
polcia australiana encontrou o seu telefone no bolso dele. 
Usou-o para assassinar seu pai. E foi voc quem contratou 
Margo Posner, alegando em seguida que ela era uma impostora, 
para evitar qualquer suspeita. Foi voc quem insistiu no teste 
de d.n.a. e providenciou para que o corpo fosse removido. E 
foi voc quem deu o falso telefonema para Timmons. Incumbiu 
Margo Posner de representar Julia e depois a internou num 
hospital psiquitrico.
Tyler correu os olhos pela sala. Ao falar, sua voz era 
perigosamente calma:

- Um nmero de telefone no bolso de um morto  a sua
prova? No posso acreditar. Preparou sua armadilha baseado
nisso? No tem nenhuma prova concreta. Meu telefone estava
no bolso de Dmitri porque ele achava que meu pai corria
perigo. Eu disse a Dmitri que tomasse cuidado.  bvio que ele 
no teve cuidado suficiente. Quem matou meu pai deve ter 
matado Dmitri tambm.  essa pessoa que a polcia deve 
procurar. Liguei para Timmons porque queria que ele 
descobrisse a verdade. Algum tomou o lugar dele. No tenho 
idia de quem foi. E a menos que
possam descobri-lo e lig-lo a mim, vocs no tm nada. Quanto
a Margo Posner, pensei que ela era mesmo nossa irm. Quando
ela enlouqueceu de repente, desatando a comprar coisas e 
ameaando matar todos ns, eu a convenci a ir para Chicago. E
providenciei para que ela fosse detida e internada. Queria 
manter tudo isso escondido da imprensa para proteger nossa 
famlia.
- Mas veio aqui para me matar - disse Julia.
tyler sacudiu a cabea.
- Eu no tinha a menor inteno de mat-la. Voc  uma
impostora. S queria assust-la.
- Est mentindo.
Ojuiz olhou para os outros.
- H mais uma coisa que podem considerar.  possvel que
no haja ningum da famlia envolvido. Talvez algum a par de
todos os fatos esteja manipulando tudo isso, algum que 
apresentou uma impostora e planeou convencer a famlia de que 
ela era autntica, para depois dividir com a mulher uma parte 
da herana. Essa possibilidade no lhes ocorreu?
Tyler virou-se para Simon Fitzgerald.
- Vou processar vocs dois por calnia e difamao,
arrancar tudo que possuem. Estas so minhas testemunhas.
Antes que eu acabe com vocs, desejaro nunca ter ouvido falar 
de mim. Controlo bilhes, e vou usar todo esse dinheiro
para destru-los.
Ele olhou para Steve.
- Prometo que seu ltimo ato como advogado ser a
leitura do testamento de meu pai. E agora, a menos que
queiram me processar por andar com uma arma sem licena,
vou embora.
Os outros se entreolharam, indecisos.
- No? Pois ento boa noite.
Eles ficaram olhando, impotentes, enquanto Tyler se 
encaminhava para a porta.

O tenente Kennedy foi o primeiro a recuperar a voz.
-  demais! Acreditaram nessa histria?
- Ele est blefando - disse Steve. - Mas no podemos
provar. Ele tem razo. Precisamos de provas. Pensei que o juiz
ia desmoronar, mas percebo agora que o subestimei.
Simon Fitzgerald interveio:
- Parece que o nosso plano falhou. Sem Dmitri Kaminsky
ou o depoimento de Margo Posner, s temos suspeitas.
- E a ameaa contra a minha vida? - protestou Julia.
- Ouviu o que ele alegou-disse Steve. -Apenas tentava
assust-la, porque achava que era uma impostora.
- Ele no tentava apenas me assustar - insistiu Julia. -
Tencionava me matar.

- Sei disso. Mas no h nada que possamos fazer. Dickens tinha 
razo: "A lei  idiota..." Voltamos ao ponto de partida.
Fitzgerald franziu o rosto.
-  pior do que isso, Steve. Tyler falava srio ao dizer que
vai nos processar. A menos que possamos provar nossas 
acusaes, estamos numa situao crtica.
Depois que os outros se retiraram, Julia disse a Steve:
- Lamento muito por tudo isso. Sinto que, de certa forma,
sou responsvel. Se eu no tivesse vindo...
- No diga bobagem.
- Mas ele declarou que vai arruin-lo. Pode fazer isso?
Steve encolheu os ombros.
- Veremos.
Julia hesitou.
- Eu gostaria de ajud-lo, Steve.
Ele fitou-a, perplexo.
- Como?
- Vou herdar um bocado de dinheiro. Gostaria de lhe dar
o suficiente para que possa...
Steve ps as mos nos ombros da jovem.
- Obrigado, Julia, mas no posso aceitar seu dinheiro.
Ficarei bem.
- Mas...
- No se preocupe com isso.
Ela estremeceu.
- Ele  um homem terrvel.
- Foi muito corajosa por ter feito o que fez.
- Voc disse que no havia como peg-lo, e por isso pensei
que atra-lo para c poderia ser uma boa armadilha.
- Mas parece que fomos ns que camos na armadilha,
no ?

Naquela noite, Julia deitou-se na sua cama pensando em Steve e
especulando como poderia proteg-lo. Eu no deveria ter 
vindo... mas se no viesse, no o conheceria.
No quarto ao lado, Steve tambm estava acordado, deitado
em sua cama, pensando em Julia. Era frustrante pensar que se
encontravam separados apenas por uma parede fina. Mas do que 
estou falando? Essa parede tem um bilho de dlares de 
espessura!

Tyler estava exultante. Voltando para casa, pensava no que
acabara de ocorrer, e como fora mais esperto do que todos.
Eles
so pigmeus tentando abater um gigante, pensou. E nem 
imaginava que seu pai tambm pensara da mesma forma.

Clark cumprimentou-o quando ele chegou a Rose Hill.
- Boa noite, juiz Tyler. Espero que esteja se sentindo bem
esta noite.
- Nunca me senti melhor, Clark!
- Deseja alguma coisa?
- Pode me trazer champanhe.
Era uma comemorao, a comemorao de sua vitria.
Amanh valerei mais de dois bilhes de dlares. Ele repetiu a
cifra em voz alta, satisfeito:
- Dois bilhes de dlares... dois bilhes de dlares...
Decidiu telefonar para Lee. E desta vez Lee reconheceu sua

voz no mesmo instante.
- Tyler! Como vai?
A voz era afectuosa.
- Muito bem, Lee.
- Esperava por notcias suas.
Tyler sentiu uma pequena emoo.
-  mesmo? No gostaria de vir para Boston amanh?
- Claro... mas para qu?
- Para a leitura do testamento. Vou herdar mais de dois
bilhes de dlares.
- Dois... isso  fantstico!
- Quero voc aqui, ao meu lado. E vamos escolher aquele
iate juntos.
- Oh, Tyler, ser maravilhoso!
- Ento voc vir?
- Claro.
Depois que Lee desligou, Tyler continuou sentado, repetindo
vrias vezes, emocionado:
- Dois bilhes de dlares... dois bilhes de dlares...

Captulo Trinta e quatro

No dia anterior  leitura do testamento, Kendall e Woody 
estavam sentados na sala de Steve.
- No entendo por que estamos aqui - disse Woody. -
A leitura s deve ser amanh.
- Quero que conheam uma pessoa - explicou Steve.
- Quem?
- Sua irm.
Os dois ficaram espantados.
- J a conhecemos - disse Kendall.
Steve apertou um boto no interfone.
- Pode pedir a ela para entrar, por favor?
Kendall e Woody trocaram um olhar, perplexos.
A porta foi aberta, e Julia Stanford entrou na sala. Steve
levantou-se.
- Esta  a irm de vocs, Julia.
- Mas que histria  essa? - explodiu Woody. - O que
est tentando nos impingir?
- Deixe-me explicar - disse Steve, calmamente.
Ele falou por quinze minutos, e arrematou:
- Perry Winger confirma que o d.n.a. dela combina com o
de Harry Stanford.
Woody no pde mais se conter.
- Tyler! No posso acreditar!
- Pois  melhor acreditar
- No consigo entender. As impresses digitais da outra
mulher provam que ela  Julia- insistiu Woody. -Ainda tenho
o carto com as impresses.
Steve sentiu a pulsao acelerar
- Est com voc?
- Guardei como uma piada.
- Quero que me faa um favor, Woody.

Na manh seguinte, s dez horas, havia um grupo grande na sala
de reunies da Renquist, Renquist & Fitzgerald. Simon 
Fitzgerald ocupava  cabeceira da mesa. L estavam Kendall, 
Tyler, Woody, Steve, Julia e vrios estranhos. Fitzgerald 
apresentou dois deles.
- Estes so William Parker e Patrick Evans. Trabalham nas
firmas de advocacia que representam a Stanford Enterprises.
Trouxeram o relatrio financeiro da companhia. Falarei
primeiro sobre o testamento, e depois eles assumiro o comando 
da reunio.
- Vamos acabar logo com isso - interveio Tyler, impaciente.
Ele sentava-se longe dos outros. No apenas vou receber o
dinheiro, mas tambm destruir vocs, seus filhos da puta!
Simon Fitzgerald acenou com a cabea.
- Muito bem.
Na frente dele havia uma pasta grande, com os dizeres
HARRY STANFORD - LTIMA VONTADE E TESTAMENTO.
- Vou entregar uma cpia do testamento a cada um, para
que no haja necessidade de repassar todos os detalhes 
tcnicos. J comuniquei que os filhos de Harry Stanford 
herdaro partes iguais do esplio.
Julia olhou para Steve, com uma expresso confusa. Fico
contente por ela, pensou Steve. Embora isso a deixe fora do
meu alcance. Simon Fitzgerald continuou:

- H cerca de uma dzia de legados, mas so todos pequenos.
Tyler pensou: Lee chegar esta tarde. Quero estar no aeroporto 
para receb-lo.
- Como foram informados antes, a Stanford Enterprises
possui um activo em torno de seis bilhes de dlares. - 
Fitzgerald acenou com a cabea para William Parker. - Deixarei 
que o Sr Parker continue a partir daqui.
William Parker abriu uma pasta e espalhou alguns papis
sobre a mesa da reunio.
- Como o Sr. Fitzgerald disse, h um activo de seis bilhes
de dlares. Mas... -Houve uma pausa carregada de expectativa.
Ele correu os olhos pela sala. - O passivo da Stanford 
Enterprises  superior a quinze bilhes de dlares.
Woody levantou-se de um pulo.
- Mas o que est querendo dizer?
O rosto de Tyler empalidecera.
- Isso  alguma piada macabra?
- S pode ser! - balbuciou Kendall, a voz rouca.
O Sr. Parker virou-se para um dos outros homens na sala.
- O Sr. Leonard Redding  da Comisso de Valores Mobilirios. 
Deixarei que ele explique.
Redding balanou a cabea.
- Nos ltimos dois anos, Harry Stanford esteve convencido de 
que as taxas de juros iam cair. No passado, ele ganhou
milhes apostando nisso. Quando as taxas de juros comearam
a subir, ele continuou convencido de que tornariam a cair, e
aumentou suas apostas nessa perspectiva. Efetuou emprstimos
macios para adquirir ttulos de longo prazo, mas as taxas de
juros subiram, e os custos dos emprstimos dispararam,
enquanto o valor dos titulos declinava. Os bancos ainda 
estavam dispostos a operar com ele por causa de sua reputao 
e vasta fortuna, mas comearam a ficar preocupados quando ele 
tentou recuperar suas perdas com investimentos de alto risco. 
Ele fez uma srie de investimentos desastrosos. Uma parte dos 
emprstimos teve como garantia ttulos que ele adquirira com 
outros emprstimos.
- Noutras palavras - interveio Patrick Evans -, ele
estava escalando suas dvidas e operando ilegalmente.
- Correcto. Infelizmente para ele, as taxas financeiras 
tiveram uma das altas mais acentuadas na histria financeira. 
Ele tinha de tomar mais dinheiro emprestado para cobrir os 
emprstimos anteriores. Era um crculo vicioso.
Todos absorviam atentamente cada palavra de Redding.
- O pai de vocs deu sua garantia pessoal ao fundo de
penso da companhia e ilegalmente usou esse dinheiro para
comprar mais ttulos. Quando os bancos comearam a questionar 
o que ele estava fazendo, seu pai criou companhias de fachada 
e providenciou falsos registros de solvncia e falsas vendas
de patrimnio para sustentar o valor de seus ttulos. Estava
cometendo uma fraude. No final, contava com um consrcio de 
bancos para salv lo. Mas eles se recusaram a conceder novos
emprstimos. Quando comunicaram  Comisso de Valores 
Mobilirios o que estava acontecendo, a Interpol foi acionada.
Redding indicou o homem sentado ao seu lado.
- Este  o inspector Patou, da Stret francesa. Inspetor,
poderia explicar o resto, por favor?
O inspector Patou falava ingls com um ligeiro sotaque
francs.

- A pedido da Interpol, localizamos Harry Stanford em
St: Paul-de-Vence e enviamos trs detectives para vigiarem-no. 
Mas ele conseguiu despist-los. A Interpol transmitira o 
cdigo verde a todos os departamentos de polcia, avisando que 
Harry Stanford se encontrava sob suspeita e deveria ser 
vigiado. Se tivessem conhecimento da extenso de seus crimes, 
teriam usado o cdigo vermelho, de alta prioridade, e ns o 
teramos capturado.
Woody entrara em estado de choque.
- Foi por isso que ele nos deixou sua herana, porque no
havia nada!
William Parker disse:
- Tem toda a razo neste ponto. Vocs todos entraram no
testamento de seu pai porque os bancos se recusaram a apoi-lo
e ele sabia que, em essncia, no Lhes deixaria coisa alguma.
Mas ele falou com Ren Gautier, do Crdit Lyonnais, que 
prometeu ajud-lo. E no momento em que Harry Stanford pensou 
que estava solvente de novo, planeou mudar seu testamento, 
para cort-los.
- Mas o que vai acontecer com o iate, o avio e as casas?
- perguntou Kendall.
- Sinto muito, mas tudo ser vendido para pagar parte da
dvida - respondeu Parker.
Tyler estava completamente atordoado. Era um pesadelo
alm da imaginao. Ele no era mais Tyler Stanford, 
multibilionrio. Era apenas um juiz. Tyler levantou-se, 
trmulo.
- Eu... no sei o que dizer. Se no h mais nada...
Ele tinha de se apressar para receber Lee no aeroporto e
tentar explicar o que acontecera.
- H mais uma coisa - declarou Steve.
Tyler virou-se para ele.
- O que ?
Steve acenou com a cabea para um homem de p junto 
porta. O homem abriu a porta, e Hal Baker entrou.
- Oi, juiz.

A oportunidade surgira quando Woody disse a Steve que ainda
tinha o carto com as impresses digitais.
- Eu gostaria de v-lo - disse Steve.
Woody ficou perplexo.
- Por qu? So apenas dois conjuntos de impresses digitais e 
combinam. Todos ns conferimos.
- Mas o homem que se dizia chamar Frank Timmons tirou
as impresses digitais da mulher, no  mesmo?
- , sim.
- E se ele tocou no carto, suas impresses digitais tambm 
ficaram ali.

O pressentimento de Steve foi confirmado. Havia impresses
digitais de Hal Baker por todo o carto, e os computadores
levaram menos de trinta minutos para revelar sua identidade.
Steve telefonou para o promotor distrital em Chicago. Um
mandado judicial foi emitido e dois detectives foram  casa de
Hal Baker
Ele estava no jardim, jogando bola com Billy.
- Sr. Baker?
- Pois no?

Os detectives exibiram suas identificaes.
- O promotor distrital gostaria de lhe falar
- No posso ir agora! -protestou Baker, indignado.
- Posso saber por qu? - indagou um dos detectives.
- No percebe o motivo? Estou jogando bola com meu
filho!

O promotor distrital lera a transcrio do julgamento de Hal
Baker. Olhou para o homem sentado  sua frente e disse:
- Soube que  muito dedicado  sua famlia.
- E sou mesmo - confirmou Hal Baker, orgulhoso. - 
a base deste pas. Se cada famlia pudesse...
O promotor inclinou-se para a frente.
- Sr. Baker, vem trabalhando com ojuiz Stanford.
- No conheo nenhum juiz Stanford.
- Deixe-me refrescar sua memria. Ele lhe concedeu liberdade 
condicional. Usou-o para assumir o papel de um
detective particular chamado Frank Timmons, e temos motivos
para acreditar que tambm lhe pediu para matar Julia Stanford.
- No sei do que est falando.
- Estou falando sobre uma sentena de dez a vinte anos.
Vou pressionar para que seja de vinte.
Hal Baker empalideceu.
- No pode fazer isso! Minha esposa e meus filhos...
- Exactamente. Por outro lado, se estiver disposto a ser
testemunha do estado, posso dar um jeito para que receba uma
pena mnima.
Hal Baker comeava a suar
- O que... o que tenho de fazer?
- Contar tudo.
Agora, na sala de reunies da Renquist, Renquist & Fitzgerald,
Hal Baker fitou Tyler e disse:
- Como vai, juiz?
Woody virou-se para ele.
- Mas esse  Frank Timmons!
Steve disse a Tyler:
- Este  o homem que voc contratou para arrombar nosso
escritrio e obter uma cpia do testamento de seu pai, para
remover o cadver de seu pai e para matar Julia Stanford.
Tyler demorou um momento para encontrar sua voz.
- Voc est louco! Ele  um condenado! Ningum vai
acreditar na palavra dele contra a minha!
- Ningum precisa aceitar a palavra dele - disse Steve.
- J viu este homem antes?
- Claro. Ele foi julgado em meu tribunal.
- Qual  o nome dele?
- Ele se chama... - Tyler percebeu a armadilha. - Ele
deve ter vrios pseudnimos.
- Quando o julgou em seu tribunal, o nome dele era Hal Baker.
- hen...  isso mesmo.
- Mas quando ele veio a Boston, apresentou-o como Frank
Timmons.
Tyler comeava a se atrapalhar.
- Eu... eu...
- Libertou-o sob sua custdia, e usou-o para tentar provar
que Margo Posner era a verdadeira Julia.
- No! Nada tive a ver com isso. Jamais tinha visto aquela
mulher at que ela apareceu aqui.

Steve virou-se para o tenente Kennedy.
- Ouviu isso, tenente?
- Ouvi.
Steve tornou a se virar para Tyler
- Investigamos Margo Posner. Ela tambm foijulgada em
seu tribunal e solta sob sua custdia. O promotor distrital de
Chicago obteve uma ordem judicial para abrir seu cofre no
banco. Ele me telefonou h pouco para informar que encontraram 
um documento lhe concedendo a parte de Julia Stanford na
herana de seu pai. O documento foi assinado cinco dias antes
da suposta Julia Stanford aparecer em Boston.
Tyler respirava com dificuldade, tentando recuperar o 
controle.
- Eu... eu... Isto  um absurdo!
O tenente Kennedy interveio:
- Estou prendendo-o, juiz Stanford, por conspirao para
cometer homicdio. Ser enviado de volta a Chicago.
Tyler ficou imvel, seu mundo desmoronando.
- Tem o direito de permanecer calado. Se optar por renunciar a 
esse direito, qualquer coisa que disser pode e ser usada
contra voc num tribunal de justia. Tem o direito de falar
com um advogado e exigir a presena dele quando for 
interrogado. Se no tiver condies de contratar um advogado, 
ser designado um advogado para represent-lo antes de 
qualquer interrogatrio, se assim desejar. Compreendeu tudo?
- Compreendi.
E de repente um sorriso lento e triunfante iluminou o rosto
de Tyler. Sei como venc-los!, pensou ele, feliz.
- Est pronto para vir comigo, juiz?
Tyler acenou com a cabea e disse calmamente:
- Estou, sim. Gostaria de voltar a Rose Hill para pegar
minhas coisas.
- Est bem. Mandarei estes dois polcias acompanharem-no.
Tyler virou-se para fitar Julia e havia tanto dio em seus
olhos que ela estremeceu.

Tyler e os dois polcias chegaram a Rose Hill meia hora
depois. Entraram na casa.
- S vou levar alguns minutos para arrumar minhas coisas
- disse Tyler.
Eles observaram Tyler subir a escada para seu quarto. Ali,
Tyler pegou o revlver na cmoda e carregou-o.
O som do tiro pareceu ecoar para sempre.

Captulo Trinta e Cinco

Wody e Kendall estavam sentados na sala de estar em
Rose Hill. Meia dzia de homens em macaces brancos retiravam
os quadros das paredes e comeavam a desmontar os mveis.
-  o fim de uma era - comentou Kendall, suspirando.
-  o comeo. - Woody sorriu. - Eu gostaria de ver a
cara de Peggy ao descobrir qual  a sua metade da minha
fortuna!
Ele pegou a mo da irm.
- Voc est bem? Pelo que aconteceu com Marc, quero dizer.
Kendall balanou a cabea.
- Vou superar. De qualquer forma, estarei muito ocupada.
Tenho uma audincia preliminar dentro de duas semanas. Depois 
disso, verei o que acontece.
- Tenho certeza de que tudo vai acabar bem. - Woody
levantou-se. - Preciso de fazer um telefonema importante.
Ele tinha de dar a notcia a Mimi Carson.

- Mimi, acho que terei de voltar atrs em nosso negcio. As
coisas no saram como eu esperava.
- Voc est bem, Woody?
- Estou. Muita coisa aconteceu por aqui. Peggy e eu nos
separamos.
Houve uma longa pausa.
-  mesmo? E voc vai voltar para Hobe Sound?
- Para ser franco, no sei o que vou fazer.
- Woody...
- O que ?
A voz de Mimi era extremamente suave:
- Volte, por favor.

Julia e Steve estavam no ptio.
- Lamento o que aconteceu - comentou Steve. - Isto ,
por voc no receber o dinheiro.
Julia sorriu.
- No preciso realmente de cem chefs.
- No est desapontada por sua viagem a Boston ter sido
desperdiada?
Ela fitou-o nos olhos.
- Foi desperdiada?
Os dois nunca souberam quem tomou a iniciativa, mas de
repente Julia se encontrava nos braos dele, e se beijaram.
- Venho querendo fazer isso desde a primeira vez que a vi.
Julia balanou a cabea.
- Na primeira vez em que me viu, voc me mandou sair
da cidade!
Foi a vez de Steve sorrir.
-  verdade, no ? Mas agora no quero que voc saia
nunca mais.
E ela pensou nas palavras de Sally: No sabe se o homem a
pediu em casamento?
- Isso  um pedido de casamento?
Steve apertou-a com mais fora.
- Pode apostar que sim. Quer casar comigo?
- Quero !
Kendall saiu para o ptio. Tinha um papel na mo.
- Eu... acabo de receber isto pelo correio.

Steve olhou para ela, preocupado.
- No  outra...?
- No. Fui eleita Estilista Feminina do Ano.

Woody, Kendall, Julia e Steve sentaram-se  mesa de jantar. Ao
redor, carregadores levavam cadeiras e sofs. Steve olhou para
Woody.
- O que voc vai fazer agora?
- Voltarei para Hobe Sound. Primeiro, procurarei o Dr.
Tichner E depois passarei a montar os pneis de uma amiga.
Kendall olhou para Julia.
- Voc vai voltar a Kansas City?
 Quando eu era pequena, pensou Julia, queria que algum
me tirasse do Kansas e me levasse para um lugar mgico, onde
encontraria meu prncipe. Ela pegou a mo de Steve.
- No, no voltarei para o Kansas.
Eles observaram dois homens levarem o enorme retrato de
Harry Stanford.
- Nunca gostei mesmo desse quadro - declarou Wood.

fim
